As pesquisas erraram?

O Ibope previu corretamente 97% das intenções de voto apuradas nas sondagens realizadas na véspera da eleição e na boca de urna, num conjunto de 521 candidaturas

Márcia Cavallari, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2010 | 00h00

Entre todas as pesquisas realizadas no mercado, as de intenção de voto são as únicas cujo resultado pode ser verificado pela comparação direta com as urnas eleitorais. Para o Ibope, essa é uma oportunidade para endossar a credibilidade que o instituto conquistou em seus 68 anos.

No calor da disputa eleitoral, contudo, a forma como são noticiadas, não raro, contribui pouco para o eleitor fazer uma análise fria do comparativo com as urnas. Não por acaso, um dos assuntos mais discutidos na semana foram os "erros" dos institutos.

De fato, as pesquisas não são infalíveis. Mas será que aconteceram mesmo tantos erros? No caso do Ibope, único instituto do País a realizar pesquisas regulares em 26 Estados e mais o Distrito Federal, posso afirmar que saímos do 1.º turno com um saldo positivo.

Para parte da população, porém, a imagem que fica depende basicamente dos resultados das últimas pesquisas, comparados imediatamente com o que é revelado pela apuração das urnas. Ainda assim, existem comparações equivocadas baseadas nos números totais de intenção de voto, quando a leitura correta deveria ter o cuidado de olhar as intenções de votos válidos, ou seja, descontados brancos e nulos.

Previmos corretamente 97% das intenções de voto apuradas nas pesquisas realizadas na véspera da eleição e na boca de urna, num conjunto de 521 candidaturas. Na eleição presidencial, o Ibope acertou a posição dos candidatos e a possibilidade de realização do 2.º turno. Houve, contudo, uma diferença fora da margem de erro no porcentual obtido por Dilma, tanto na pesquisa da véspera como na da boca de urna. Entre os diversos fatores considerados, acreditamos que dois tiveram maior peso para essa diferença:

1 - A abstenção proporcionalmente maior entre eleitores com nível socioeconômico mais baixo e que, conforme mostram todas as pesquisas anteriores, davam uma vantagem muito maior para Dilma frente aos concorrentes;

2 - Foi uma eleição complexa, com muitos cargos para o eleitor votar, o que pode ter gerado erro dele ao registrar o voto, anulando-o involuntariamente. A maior probabilidade de erro entre eleitores menos escolarizados teria gerado maiores perdas de voto para Dilma do que para os concorrentes Serra e Marina. Eu mesma, ao votar, pude testemunhar o caso de uma eleitora que, questionada pelo mesário, não acreditava que ainda deixara seu voto para presidente em aberto.

Em São Paulo, apontamos de forma indiscutível o resultado para o governo do Estado e, no caso dos eleitos para o Senado, já havíamos detectado a curva acentuada de Aloysio Nunes, confirmando sua virada na boca de urna. No entanto, muitos questionam as pesquisas por causa de decimais fora da margem de erro, dando a elas um rigor de precisão que não está no seu propósito, quando deveriam na verdade ser interpretadas como estimativas de tendências.

Sob essa análise fria, sem viés político ou mágoa de militância partidária, posso concluir que o Ibope continua fornecendo à sociedade uma informação imparcial sobre as tendências do eleitorado ao longo da campanha, contando a história de cada pleito.

É DIRETORA DO IBOPE

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