''As pessoas não aceitam que o mal existe. Infelizmente, ele existe''

Autora do livro ?Mentes Perigosas?, psiquiatra classifica Lindemberg Alves como ?psicopata?: ?Ele matou porque é mau?

Márcia Vieira, O Estadao de S.Paulo

26 Outubro 2008 | 00h00

Não foi por amor. Nem por desespero. Nem porque a polícia invadiu o apartamento em Santo André. Lindemberg Alves matou a ex-namorada Eloá Pimentel, de 15 anos, com um tiro na cabeça por maldade. Pura e simples. "Ele é um psicopata. Não matou por obsessão. Matou porque é mau." O diagnóstico da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva não é um daqueles comentários feitos depois da tragédia consumada. Na sexta-feira, dia 17, às 17 horas, durante entrevista ao Estado sobre o lançamento de seu livro Mentes Perigosas, pela editora Fontanar, ela foi taxativa: "Esse caso de Santo André já foi longe demais. Já passou da hora de essa história acabar bem. Ou a polícia vai pegá-lo quando ele cochilar ou ele vai matar essa menina." Uma hora depois, Eloá era carregada para o hospital com um tiro na cabeça. Psiquiatra há 20 anos, com pós-graduação na Universidade Federal do Rio, e há cinco estudando especificamente o comportamento dos psicopatas, Ana Beatriz acredita que só havia uma chance de Eloá sair com vida do apartamento. "A polícia deveria ter atirado nele quando teve a chance. Não se negocia com psicopatas." Em Mentes Perigosas, que chega às livrarias amanhã, Ana Beatriz mais do que explicar os meandros da personalidade de psicopatas ensina como lidar com eles e faz um alerta. "O ser humano tem dificuldade em aceitar que o mal existe. Infelizmente, ele existe. E é preciso aprender a enfrentá-lo." Por que a senhora acredita que Lindemberg Alves é um psicopata? Eu não o examinei, mas ele tem todos os sinais de psicopatia, principalmente pelo discurso e pela frieza que demonstrou. Psicopatas têm transtorno de personalidade. Eles nascem assim. São geralmente sedutores, mas não têm emoção, sentimento de culpa nem remorso. São frios, calculistas. Têm excesso de razão e zero de emoção. Não são loucos. Um esquizofrênico não sabe o que faz. Um psicopata sabe exatamente o que está fazendo. Ele escolhe a vítima. Na entrevista para a TV, Lindemberg disse que tinha sido obrigado a invadir a casa por culpa dela. Isso é um discurso comum em psicopatas. Eles nunca têm culpa. Ele dizia que tinha um diabinho na cabeça durante o tempo em que esteve na casa. Isso não é um sinal de distúrbio mental? Não. Isso é papo de psicopata. Se fosse um surto psicótico, como andaram falando, ele não estaria torturando a menina. A obsessão dele é pelo controle da vida dela. Agora ele diz que não se lembra do tiro na Nayara. Daqui a pouco, vai dizer que não tem nada com a história. Como se deve lidar com um psicopata numa situação dessas? Tem de atirar quando houver a chance e resgatar a vítima. Nos Estados Unidos, a primeira coisa que teria sido feita seria o perfil da personalidade do agressor. Em duas horas de conversa com os amigos dele seria possível descobrir que ele é um psicopata do tipo possessivo. A polícia brasileira falhou em não ter atirado nele. É um absurdo um coronel da polícia dizer que não atirou porque se tratava de uma crise de amor. Psicopatas têm cura? Não. Ainda não há remédios. E, além do mais, os psicopatas não procuram tratamento. Eles não vão a consultórios de psiquiatras e psicanalistas porque não sofrem. Eles fazem os outros sofrerem. Não apresentam depressão, culpa, ansiedade ou baixa estima. Tratar de um psicopata é uma luta inglória. Psicopatia é modo de ser. Mas o psicopata é sempre um assassino em potencial? Não. Segundo a classificação americana de transtornos mentais, 4% da população mundial tem psicopatia: 3% são homens e 1% é mulher. Estima-se que apenas 1% seja psicopata grave. A maioria nunca matou ninguém. Tem o psicopata leve, que vive de golpes. Há os que chamo de psicopatas afetivos. Tem o tipo parasita, que entra na vida da mulher muito sedutor. Conta um monte de mentiras, aplica um golpe e foge com o dinheiro. Mas ele é menos nocivo do que o tipo possessivo. Este tem prazer em controlar, em dominar. A mulher acha que é muito amada porque o homem morre de ciúmes dela. Quando ela percebe que metade das histórias que ele contou é mentira, começa a fase do horror. Ele bate, humilha, isola a mulher. Todo mundo já foi ou será vítima de um psicopata em diferentes níveis. Essa não é uma previsão muito alarmista? Prefiro pecar por excesso e alertar as pessoas. Quem me sugeriu escrever esse livro sobre psicopatia foi a Glória Perez (autora de novelas). Ela me deu todos os depoimentos, as gravações e tudo o que foi dito no tribunal no caso do Guilherme de Pádua e da Paula Thomaz, condenados por matar a filha dela, Daniela. Glória se ressente muito do fato de as pessoas não acreditarem que a Daniela foi vítima de um psicopata. Quando li todo o material, isso ficou nítido para mim. E é assustador saber que, sendo um psicopata, ele com certeza vai cometer outro delito. Então um psicopata, quando comete um crime, tem de ficar preso para sempre? Os psicopatas que matam têm prisão perpétua no Canadá, na Austrália, na Inglaterra e em vários Estados americanos. Lá se aplica nas penitenciárias um teste, chamado escala de Hare, preparado ao longo de 20 anos pelo médico canadense Robert Hare. Por esse teste, apenas 25% dos presidiários americanos são psicopatas. E eles ficam separados dos outros presos. No Brasil, existe um projeto de lei para que esse teste seja aplicado, mas ainda não foi votado. Como se faz o diagnóstico de um psicopata? O questionário de Hare é uma das ferramentas mais confiáveis. Outra técnica é o exame de neuroimagem (ressonância magnética funcional), que só é usado em pesquisas. Com ele, é possível ver se uma pessoa tem falhas no sistema límbico, responsável pelas emoções.

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