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Atual campeã, Unidos de Vila Isabel faz apresentação recheada de problemas

Clarissa Thomé e Mariana Sallowicz - O Estado de S. Paulo

04 Março 2014 | 02h 14

Em pelo menos dez alas, o atraso na chegada das fantasias comprometeu o desfile

RIO - A Vila Isabel, primeiro lugar no carnaval passado, fica no lucro se voltar no sábado das campeãs. A escola deixa para trás o desfile arrebatador de 2013 por uma apresentação recheada de problemas, a começar pelo atraso nas fantasias de pelo menos dez alas. Muitas não foram entregues. Outras chegaram pela metade em cima da hora do desfile.

Nem mesmo a rainha de bateria, Sabrina Sato, recebeu a roupa com antecedência. A fantasia de oncinha - uma segunda pele, que não fazia jus ao posto que ela ocupa - foi entregue por um motoboy, no camarote da Brahma, momentos antes de a escola entrar na avenida. "Eu estava tão nervosa. Mas carnaval é assim mesmo. No fim dá certo", minimizou. "Não compromete em nada".

Integrantes da Unidos de Vila Isabel encerraram o desfile em clima de revolta por causa de problemas na entrega das fantasias. Muitos reclamavam que passaram o dia no barracão da escola desde a manhã e, mesmo assim, não conseguiram o traje completo.

O comerciário Márcio Oliveira, 35, contou que ficou no local das 11h às 1930, mas o adereço da cabeça não foi entregue. Ele desfilou na ala Guerreiros Africanos. "Gastei R$ 170, participei dos ensaios. Foi um grande desrespeito", disse. Oliveira afirmou ainda que esta será a última vez que sairá pela escola.

O cabeleireiro Claudio Ribeiro, 50, também ficou sem o adereço. "É uma pena porque a escola é muito boa, mas o pessoal é muito desorganizado". Claudio também chegou de manhã no barracão para buscar a fantasia. Outro integrante da Vila Isabel que estava inconformado era o guia de turismo Gabriel Souza, 26. Ele pagou R$ 110 e estava no primeiro carro da escola, o Navio Negreiro. "Como pode uma escola que foi campeã do ano passado entregar a fantasia no dia do desfile? Nem escola da série A faz isso", reclamou. Souza chegou às 9h no barracão para buscar a fantasia, mas só saiu com o adereço da cabeça.

Carros alegóricos estavam incompletos. Algumas alas desfilaram com ordens trocadas. A meia hora de a escola entrar na avenida, duas das cinco placas que compunham a comissão de frente não haviam chegado. Foram montadas às pressas e fizeram bonito efeito para representar xilografias se tornando tridimensionais.

Problemas financeiros. Sem patrocínio, a escola enfrentou problemas financeiros desde o ano passado. O carnavalesco Cid Carvalho deixou a Vila em novembro por atrasos no pagamento de funcionários. Reassumiu em janeiro, quando as arestas foram aparadas. "Fizemos o que foi possível fazer. Trabalhamos, lutamos, fizemos um desfile lindo dentro das possibilidades", afirmou Carvalho.

A Vila apresentou enredo sobre a diversidade dos biomas brasileiros e as faces do povo. Trouxe de volta à avenida assuntos já batidos no sambódromo, mas sem inovações - aspectos do folclore brasileiro, a Floresta Amazônica, o sertão nordestino (as esculturas de Mestre Vitalino, que já haviam aparecido em carro da Mocidade, mais cedo, voltaram à passarela).

O grande trunfo da escola foi a emoção com que os componentes cantaram o samba. Muitos se emocionaram ao entoar os versos "o sangue azul tá na veia com certeza / o sangue e é minha natureza / é bom lembrar / tem que respeitar". Sabrina Sato também brilhou: com carisma, simpatia e samba no pé, conquista lugar entre as grandes madrinhas da Avenida Marquês de Sapucaí.