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Autoridades investigam desaparecimento de 7 presos em motim no PR

Miguel Portela - Especial para O Estado

26 Agosto 2014 | 20h 01

Para diretor do Departamento Penitenciário, rebelião pode ter sido causada por um acerto de contas ou briga de poder entre rivais

CASCAVEL - Um cenário de guerra. Esta foi a descrição de quem teve acesso às 24 galerias da Penitenciária Estadual de Cascavel (PEC), no oeste do Paraná, que foi praticamente destruída pelos presos rebelados. O motim durou cerca de 45 horas e resultou em pelo menos cinco mortos, 25 feridos e sete desaparecidos. 

As mortes serão investigadas pela Delegacia de Homicídio de Cascavel. As autoridades também estão investigando o desaparecimento de outros sete detentos. O caso está sendo acompanhado pela Defensoria Pública do Estado do Paraná, que também presta assistência às famílias dos internos.

Motim em Cascavel
CGN - Central Gazeta de Notícias/Divulgação

Ao menos quatro detentos foram mortos - dois decapitados - durante rebelião neste domingo, 24, na PEC (Penitenciária Estadual de Cascavel), no oeste do Paraná. De acordo com a Polícia Militar, há vários presos feridos e dois agentes penitenciários foram feitos reféns.

“Que há desaparecidos é um fato, mas é preciso esperar (para saber) se fugiram ou foram mortos”, disse o defensor público Marcelo Diniz. Além de Diniz, outros quatro defensores públicos de Foz do Iguaçu, Curitiba e Guarapuava acompanham o trabalho de rescaldo na penitenciária, que está sendo feito pelo Corpo de Bombeiros, polícia criminalística e Instituto Médico Legal (IML). 

De acordo com o defensor público Eduardo Abraão, é preciso aguardar o trabalho de “varredura” que está sendo feito dentro das galerias da PEC para avaliar a real situação do que ocorreu durante o motim. Até o fim da  tarde desta terça-feira, 26, esse trabalho não havia sido finalizado. 

“O que se viu dentro da penitenciária é um cenário de guerra, sem precedentes na história carcerária do Paraná”, revelou Abraão. Segundo ele, 20 das 24 galerias ficaram completamente destruídas. “Pelo que a gente pode observar, a PEC não tem condições de abrigar os presos neste momento”.

Os familiares de detentos reclamaram nesta terça-feira da falta de informação sobre a situação dos presos. Vera Lúcia Rodrigues fez plantão do lado de fora da Penitenciária Estadual de Cascavel desde o início da rebelião no último domingo, sem conseguir informação sobre o marido, que está preso na unidade há sete meses. “Estou aqui com os meus dois filhos (maiores) sem nenhuma notícia do meu marido. A gente só quer saber se ele está vivo, morto ou se foi transferido”, afirmou. 

A mesma aflição vive Patrícia Soares. “A gente está desesperada porque não tem informação e a polícia tem agido com truculência”, relatou Patrícia, que busca informações do marido que está preso na triagem da penitenciária desde 8 de agosto.   

Início e causas. A rebelião se iniciou no domingo, 24, e terminou nesta terça, 26, às 3h30, quando os dois agentes penitenciários que estavam reféns dos presos foram libertados. O diretor do Departamento Penitenciário Estadual (Depen), Cezinando Paredes, ainda não tem explicação sobre os motivos do motim, que sacudiu todo o sistema penitenciário do Estado e trouxe apreensão e medo aos moradores de Cascavel, cidade com pouco mais de 300 mil habitantes.

“No início, não tinha uma reivindicação certa por parte dos presos. Além disso, havia várias pessoas liderando o movimento”, afirmou Paredes, que esteve desde o início à frente do grupo de negociações com os rebelados. O diretor não descarta a possibilidade de acerto de contas ou briga de poder entre grupos rivais pelo movimento. 

Essas desconfianças recaem sobre o Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa que atua, sobretudo, no Estado de São Paulo. Alguns detentos encapuzados exibiram faixa com as iniciais da facção. Também dentro do presídio havia inscrição do grupo marcada com tinta e sangue em paredes e grades das celas. 

Outra hipótese para os assassinatos é de que os alvos tenham praticado crimes que não são admitidos pela população carcerária, como estupro (pelo qual são conhecidos como duques), homicídio de crianças ou que sejam ex-policiais e delatores.

O Depen mantém 222 presos no local. Outros 796 foram transferidos entre a noite de segunda e a madrugada desta terça para unidades em Francisco Beltrão, Foz do Iguaçu, Cruzeiro do Oeste, Maringá, Curitiba e a Penitenciaria Industrial de Cascavel, que fica ao lado da PEC. 

De acordo com Cezinando, os detentos mantidos na unidade estão nas galerias que ficaram intactas durante a rebelião. Uma lista dos transferidos era aguardada para esta terça, mas não havia sido divulgada até as 19h40. Durante o trabalho de rescaldo os policiais recolheram centena de estoques feitos artesanalmente. 

Corpos mutilados. Na manhã desta terça-feira, 26, quatro corpos de vítimas da rebelião chegaram ao IML de Cascavel. De acordo com o órgão, dois dos quatro corpos estão inteiros, sendo que um deles tinha uma corda em volta do pescoço e o outro estava com as mãos amarradas com corda. Uma das vítimas tem uma tatuagem no braço com a frase "Deus é fiel".  

Os outros dois corpos que chegaram ao IML estão mutilados e têm partes carbonizadas. Já dos 25 feridos, apenas sete continuam internados em hospitais de Cascavel. Os dois agentes penitenciários feitos reféns pelos rebelados receberam tratamento médico e ganharam alta. Os dois vão receber atendimento psicológico do Estado.