Bando pagava a policiais, médicos e advogados

Na contabilidade do tráfico, ainda aparece dinheiro para visitantes de presos e para pagar festas na favela

Clarissa Thomé, RIO, O Estadao de S.Paulo

19 Outubro 2007 | 00h00

Folhas de um caderno universitário, apreendidas na casa em que cinco homens trocaram tiros por cerca de duas horas com os policiais civis, vão ajudar a polícia a traçar a movimentação do tráfico na Favela da Coréia. Nas folhas, há informações sobre propinas pagas a policiais, gastos com serviços médicos para feridos em tiroteios, advogados (que concentram as despesas mais altas), entre outras anotações. Traficantes pagaram dois "arregos" (gíria para propina) nos dias 29 de setembro (quinta-feira) e 5 de outubro (sexta-feira), de R$ 3 mil cada um. Também enviaram R$ 2 mil para pagar advogados em Brasília e outros R$ 2.500 para o pagamento de uma advogada no Paraná. O nome "Flávia" aparece nas duas anotações. O traficante Robson André da Silva, o Robinho Pinga, chefe do tráfico na favela, encontra-se preso no Presídio de Segurança Máxima de Catanduva. Aparecem ainda inscrições a respeito de assistência a feridos. Num dos trechos lê-se: "50 - Baliado. 500-Médico". A operação de uma filha do criminoso identificado como Vovô custou R$ 4 mil à quadrilha. As folhas mostram ainda que o tráfico ali mantém práticas assistencialistas. Há dezenas de anotações de pagamento de botijões de gás, a R$ 32. A festa do Dia das Crianças na favela custou R$ 1.700. Já o Baile Funk na Favela do Rebu saiu por R$ 3.500. Há também inscrições a respeito das "tias da visita" - mulheres que fazem visitas nos presídios, levam correspondência,mercadorias e chegam até a guardar armas nas suas casas. Elas ganham R$ 300 por serviço. Uma delas também teve o aluguel (R$ 300) totalmente pago pela quadrilha. O subsecretário de Planejamento da Secretaria de Segurança, Roberto Sá, negou ontem que a ação na Favela da Coréia represente uma mudança de foco na política de segurança - depois de sufocar o Comando Vermelho, o alvo agora seria o Terceiro Comando Puro. "A secretaria não tem preocupação com cor ou bandeira. Não há operação sem inteligência. Atuamos de acordo com os informes que as (delegacias) especializadas trazem, com os índices de criminalidade daquela região." Ele explicou que a operação foi planejada ao longo de "alguns" meses e a secretaria já sabia que os traficantes estavam fortemente armados.

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