BC torna mais cara a aposta dos bancos na desvalorização do dólar

Instituições terão de recolher, em depósitos compulsórios, o equivalente a 60% do valor das operações que superarem US$ 1 bilhão

Fabio Graner e Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2011 | 00h00

O Banco Central anunciou na noite de ontem medida para tentar conter o processo de valorização contínua do real frente ao dólar, que tem "tirado o sono" da equipe econômica. Para tanto, reduziu em um terço o limite para que os bancos façam apostas na alta da moeda nacional.

A restrição havia sido instituída pela primeira vez no início do ano, como parte do esforço do governo para combater o processo de valorização cambial.

Com a mais recente iniciativa, o BC imagina que vai reduzir em cerca de US$ 5 bilhões a chamada "posição vendida" em câmbio, que fechou junho em US$ 14,7 bilhões no mercado à vista.

Dessa forma, a autoridade monetária tenta novamente levar o conjunto dos bancos que operam no Brasil a manter, no máximo, um volume de aproximadamente US$ 10 bilhões em apostas na alta do real, nível considerado ideal pela área técnica do órgão.

Apesar de ocorrer em um contexto de manifestações públicas de preocupação do governo com a alta do dólar, o BC disse que o objetivo da ação é prudencial. Ou seja, a medida buscaria impedir que os bancos fiquem expostos excessivamente à taxa de câmbio.

Isso evitaria que, em caso de virada brusca da tendência da moeda, o sistema financeiro venha a ter problemas sérios, que depois contaminem a economia como um todo.

Limite. Pela nova regra, cada banco não poderá ter mais do que US$ 1 bilhão - ou o tamanho do seu patrimônio (se este for menor) - em posição vendida no mercado à vista. Em janeiro, o BC havia limitado essa exposição em US$ 3 bilhões ou o tamanho do patrimônio. Caso superem os limites, os bancos têm que recolher ao BC 60% do valor que exceder US$ 1 bilhão.

Apostas pulverizadas. Durante alguns meses, o limite imposto no início do ano atingiu o objetivo do BC de levar as apostas para a casa dos US$ 10 bilhões, mas o mercado passou a pulverizar as operações e, assim, o sistema voltou a crescer a aposta na apreciação do real em junho para níveis indesejáveis ao governo.

A medida de ontem também deve ter algum efeito no mercado de futuros.

Os técnicos do BC admitem essa possibilidade. É que os bancos, por conta da limitação imposta ontem, serão induzidos a reduzir sua atuação nesse segmento, onde se protegem da posição especulativa no mercado à vista e, ao mesmo tempo, viabilizam parte das apostas dos estrangeiros na alta do real ante o dólar.

O governo, como antecipou a Agência Estado na quinta-feira, estava preocupado com os movimentos no mercado futuro, especialmente o elevado volume de apostas de estrangeiros na valorização do real.

Além da redução do limite para os bancos, o BC alterou a metodologia de apuração do cumprimento da regra. Antes, era diária e agora será com base na média de cinco dias, o que dá maior flexibilidade para os bancos.

"Medida paliativa". Para o ex-diretor do Banco Central Carlos Thadeu de Freitas a medida é "paliativa", porque os fundos estrangeiros estão carregados de apostas na alta do real no mercado futuro, onde a liquidez e o volume das operações são bem maiores do que no mercado à vista. "A medida não resolve o problema e o dólar deve cair rapidamente para o patamar de R$ 1,50", disse.

Na avaliação de Freitas, a tendência de queda do dólar foi reforçada com os dados de desemprego elevado nos Estados Unidos, indicando que a taxa de juros norte-americana vai continuar baixa por um período mais prolongado.

Nesse cenário, a oferta de dólares no mundo continuará elevada, com o fluxo de capital sendo direcionado para países como o Brasil, que garantem mais rentabilidade. Para Freitas, o governo será forçado a adotar outras medidas.

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