Bispos divergem sobre como tratar a candidata

O de Guarulhos sugere Serra dizendo 'de dois males, o menor'. O de Jales fala em 'calúnias' e a CNBB fica na doutrina

José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2010 | 00h00

"De dois males, o menor", adverte o bispo de Guarulhos, d. Luiz Gonzaga Bergonzini, ao aconselhar os fiéis de sua diocese, de 1,3 milhão de habitantes, a não apoiar candidato ou candidata que aprove o aborto. Na véspera das eleições, o bispo recomendou aos católicos que não votassem em Dilma Rousseff para presidente nem em qualquer outro candidato do PT, porque o partido inclui a legalização do aborto em seu programa.

D. Luiz Gonzaga lembra que a Igreja condena qualquer tipo de aborto, com exceção apenas do aborto espontâneo - o que levaria os eleitores a reprovar também a posição do presidenciável José Serra (PSDB), que diz ser contra o aborto, mas admite a manutenção dos casos previstos no Código Penal, cujo texto admite o aborto terapêutico e o aborto no caso de estupro.

"Se temos de escolher um presidente, vamos optar por quem representa risco menor", disse d. Luiz Gonzaga, sem citar o nome de Serra, mas reiterando o veto a Dilma. "Como a candidata Dilma já mudou de posição duas ou três vezes, não posso confiar na palavra dela", acrescentou.

Na segunda-feira, Dilma declarou ser contra o aborto e a favor da defesa da vida em todas as suas dimensões. Esse discurso não convence o bispo de Guarulhos. Ele anunciou que provavelmente publicará nova advertência aos eleitores, antes da realização do segundo turno, para insistir no veto a Dilma.

"Injusta". Para o bispo de Jales, d. Luiz Demétrio Valentini, a acusação que se faz a Dilma é injusta e caluniosa. "Quem disse que Dilma é favorável ao aborto, se não os seus acusadores que atribuem a ela essa posição para condená-la?", avisa d. Demétrio. Em artigo publicado antes das eleições, sem citar nomes, o bispo aconselhou o eleitor a "sacudir o clima de acusações e calúnias perversas e fantasiosas". Na avaliação do bispo, "Serra seria também abortista", porque normatizou a lei que aprova os casos de aborto previstos no Código Penal.

A presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) mantém sua orientação, anunciada dia 16 de setembro, na qual recomendou aos eleitores que procurassem escolher "pessoas comprometidas com o respeito incondicional à vida, à família, à liberdade religiosa e à dignidade humana". A entidade avisou que não pretende voltar mais ao tema. "Tradicionalmente, a CNBB não cita nomes, nem contra nem a favor, mas se limita a lembrar os princípios éticos da doutrina católica", disse o padre Luiz Antônio Bento, da Comissão Pastoral Episcopal para a Vida e a Família, que luta contra a legalização do aborto.

Padre Bento concorda com a fórmula "entre dois males, o menor", do bispo de Guarulhos, mas acha difícil tomar uma decisão na hora de votar. "Temos de examinar qual das duas opções responde melhor à expectativa", observou. "Todo tipo de aborto é condenável, também o que visa proteger a mãe e o que impede o nascimento de uma criança fruto de estupro", acrescentou.

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