''Brasil começa a se redimir de ter apoiado ditadores''

ENTREVISTA - Shirin Ebadi, Ativista de direitos humanos e Prêmio Nobel da Paz

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

09 Março 2011 | 00h00

"O Brasil está começando a se redimir do fato de ter apoiado tantos ditadores nos últimos anos." A declaração é da iraniana Shirin Ebadi, prêmio Nobel da Paz, que há dois dias foi recebida em um almoço pela diplomacia brasileira em Genebra, algo que ela mesmo diz que acreditava ser "impensável" durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista ao Estado, a dissidente, que foi declarada como uma das maiores opositoras do regime de Mahmoud Ahmadinejad, pediu que o Brasil não use uma nova retórica de direitos humanos apenas "como mais uma estratégia política" e, desta vez, seja coerente com o Estado democrático que representa. Eis os principais trechos da entrevista:

A sra. foi recebida pela diplomacia brasileira. Considera isso como uma mudança na posição do País em direitos humanos?

Vou contar uma coisa. Há poucos anos, quando o ex-presidente Lula visitou o Irã, grupos de oposição pediram para se reunir com ele. Havia inclusive um sindicalista preso que teve seu grupo de apoio procurando a delegação brasileira. Afinal, tanto Lula como a vítima da opressão eram sindicalistas. Mas Lula decepcionou todo o povo iraniano. Desembarcou em Teerã, apertou a mão de Ahmadinejad, comemorou vitória e deixou o povo nas mãos de um dos regimes mais brutais do mundo hoje. Portanto, acho que eu ser recebida pelo governo brasileiro é sim um grande passo e na direção certa.

A sra. está convencida de que o Brasil tem uma nova política de direitos humanos?

O Brasil está começando a se redimir do fato de ter apoiado tantos ditadores nos últimos anos.

Por que é tão importante para a sra. a posição do Brasil no caso do Irã?

O que o Brasil toma como atitude é imitado rapidamente por outros países da América do Sul, região onde Ahmadinejad ainda tem apoio. Para onde vai o Brasil vai a direção política de toda uma região. Portanto, se queremos convencer o Irã a dialogar e respeitar a oposição, temos de nos unir e o apoio da América do Sul será muito importante.

O Brasil dá sinais de que pode apoiar na ONU uma resolução condenando o Irã e pedindo uma investigação internacional. A sra. acredita que pode ocorrer mudança no voto do Brasil?

Estou convencida de que sim. O que o Brasil não pode fazer é usar a questão de direitos humanos como uma estratégia política. O que não pode ocorrer é que, uma vez a questão nuclear com o Irã tenha sido solucionada, o Brasil volte a aceitar o regime de Ahmadinejad. Isso será inaceitável para o povo, que sofre com a repressão. Se for apenas uma questão de retórica, não estamos dispostos a ver com bons olhos o apoio brasileiro. A nova presidente insiste que tem os direitos humanos no centro de sua política. Então queremos ver isso, seja qual for a solução dada à questão nuclear. O Brasil precisa nos apoiar enquanto houver massacres. E precisa ser coerente com os valores democráticos que representa.

Como a sra. avalia hoje a situação interna no Irã? Pode mesmo caminhar para uma guerra civil como na Líbia ?

É isso que a comunidade internacional precisa se perguntar. No Irã, líderes da oposição já estão nas prisões, sendo torturados e silenciados. Somos o país com maior número de jornalistas presos. Somos também o país com maior número de menores detidos. A situação da mulher é uma calamidade.

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