André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Brasil cai 11 posições e é 90º em ranking de igualdade de gênero

Esfera política e mercado de trabalho têm disparidade maior, segundo levantamento do Fórum Econômico Mundial

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

02 Novembro 2017 | 03h00

Em qual dos seguintes países as mulheres estão mais próximas de obter os mesmos direitos e oportunidades dos homens: Ruanda, Estados Unidos ou Brasil? Segundo a pesquisa Global Gender Gap Report 2017, a nação africana é a quarta melhor avaliada quando se discute igualdade entre os gêneros. Já Estados Unidos e Brasil estão na 49.ª e 90.ª posição, respectivamente, dentre 144 nações. Em relação a 2016, o Brasil caiu 11 posições no levantamento. 

Criado em 2006, o relatório é lançado anualmente pelo Fórum Econômico Mundial, sediado em Genebra, na Suíça. Pela primeira vez, a pesquisa aponta aumento na média de desigualdade entre homens e mulheres. No levantamento anterior, estimava-se que seriam necessários 83 anos para alcançar a paridade entre gêneros. Agora, são 100 anos, na média. Se considerarmos apenas o mercado de trabalho, a estimativa é ainda maior: de 217 anos.

Para o estudo, é considerada a equidade entre gêneros, o que não significa necessariamente que os primeiros lugares têm a melhor qualidade de vida em números absolutos.

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Em relação a 2006, o Brasil subiu da 74.ª para a 1.ª posição no acesso à educação, dividindo a colocação com outros 26 países, com a nota 1. O País também ocupa a 1.ª colocação em expectativa de vida, liderando juntamente com outras 34 nações, com paridade de 0,980.

O que piora a posição do Brasil é o desempenho em outras duas áreas: participação econômica e oportunidade de trabalho (foi 83.º no ano passado e 63.º em 2006) e representação política (110.º, ante a posição de 86.º uma década antes).

Disparidades

Segundo a jurista Silvia Pimentel, os dados representam o que ainda é visto no cotidiano: a mulher é associada e responsabilizada por tarefas domésticas e cuidados das crianças e ainda carece de representação nas altas esferas. O levantamento aponta, por exemplo, que são ocupados por mulheres 39,6% dos cargos mais altos em empresas e no poder público. Na média salarial, elas recebem 58% do que é pago a homens, embora sejam 53,9% da força de trabalho. “É importante a participação de mulheres em postos de comando, de participação: elas levam nova experiência de vida, novo olhar. Pode, em muito, colaborar para políticas mais sensíveis ao gênero”, diz Silvia, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e ex-presidente do Comitê para a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres.

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Juliana Ferraz, de 36 anos, enfrenta as dificuldades na rotina. Ela é diretora do departamento comercial de uma empresa do segmento cenográfico, com 240 funcionários. Antes de assumir o cargo, há dois anos, só havia tido experiência em coordenar mulheres. “Meus primeiros seis meses foram sofridos. É um universo de trabalho manual e muito masculino. Foi difícil aprender a me impor. Até fizeram bolão para saber quanto tempo eu ficaria.”

Do ponto de vista político, a professora de Direito da Fundação Getulio Vargas (FGV), Luciana Ramos diz que a cota de 30% das candidaturas para mulheres não surtiu efeito. Hoje o Congresso tem 55 deputadas (de um total de 513) e 13 senadoras (de 81). “Apesar de a Constituição dizer que homens e mulheres são iguais em direitos e deveres, isso não ocorre na prática. Elas conseguiram direito de voto, mas o direito de ser votada ainda não é plenamente aceito.” As mulheres, diz, têm menor financiamento e espaço midiático de campanha e, muitas vezes, são incluídas na lista só para cumprir a cota, sem intenção partidária de elegê-las.

“Mulher geralmente só fica em áreas ditas de mulheres, como Educação”, reclama a vereadora do Rio Marielle Franco (PSOL) – uma das sete entre 51 parlamentares. 

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