Brasileiras vão aos EUA para ter bebê e garantir cidadania americana aos filhos

Brasileiras vão aos EUA para ter bebê e garantir cidadania americana aos filhos

Pacote oferecido por agência em Miami inclui gastos com parto e acompanhamento médico; casal tirou cerca de R$ 100 mil das economias para pagar serviço e possibilitar que, no futuro, filho estude e trabalhe legalmente no país

Fernanda Bassette, Especial para O Estado

21 Outubro 2017 | 21h00

SÃO PAULO - Mulheres brasileiras têm viajado até os Estados Unidos para ter bebê em solo americano e, consequentemente, garantir que a criança adquira a cidadania americana. Pela legislação local, qualquer um que nasça lá recebe a cidadania automaticamente, com todos os direitos e deveres. 

A assistente administrativa Alessandra Cristina da Silva, de 36 anos, e o representante comercial Rodrigo dos Santos, de 35 anos, tiveram o primeiro filho, Thomas, em Miami. Ela conta que nunca soube da possibilidade até engravidar e ler sobre como fazer o enxoval do bebê nos EUA. Na pesquisa, soube da existência do serviço oferecido pela agência Ser Mamãe em Miami, primeira agência americana estruturada especificamente para atender gestantes brasileiras e latinas que queiram ganhar o bebê na América do Norte.

“Convencer o marido a topar foi a parte mais difícil”, brinca Alessandra, que diz que o marido tinha ressalvas em ter o primeiro filho fora do País por estar longe da família e não dominar completamente a língua.

+Saiba o que é preciso para ter um filho nos Estados Unidos

A gestação foi avançando e Alessandra amadureceu a ideia, mesmo sem total apoio da família. Ela tinha em mente ter o filho em Miami para que ele possa, no futuro, estudar e trabalhar legalmente nos EUA. “Todo mundo achava que estava louca, ainda mais por ser o primeiro filho. E se algo desse errado?”

O casal raspou as economias e decidiu investir cerca de R$ 100 mil (entre custos médicos, de bilhetes aéreos e de hospedagem) no sonho. Alessandra, viajou com 32 semanas de gestação acompanhada da mãe, enquanto o marido ficou trabalhando. Thomas nasceu em 10 de julho, de parto normal. Ela voltou com o filho para o Brasil em 19 de agosto. “Com certeza, se eu tiver um segundo filho, voltarei para os EUA.”

Segundo a Embaixada Americana no Brasil, a Lei de Imigração e Nacionalidade dos EUA não contém qualquer inelegibilidade para gravidez ou intenção de ter bebê nos EUA. 

No caso do “turismo do nascimento”, a exigência é que todo solicitante de visto deve demonstrar ao agente consular que não pretende usar o visto de visitante para ficar indefinidamente no país. Também deve comprovar que tem dinheiro e intenção de pagar os custos da viagem, incluindo médicos. Não há dado oficial de brasileiras que vão aos EUA para isso. 

Em alta. Em 2015, a agência atendeu 13 casos desse tipo. Até setembro deste ano, 122. E já há casos agendados para 2018. O aumento da procura ocorreu após a atriz e apresentadora Karina Bacchi, de 41 anos, ter anunciado nas redes sociais, no meio do ano, que iria ter o seu primeiro filho, fruto de uma produção independente, nos Estados Unidos, por causa da cidadania.

“Antes recebíamos cerca de dez e-mails por semana pedindo informações. Depois da Karina, passamos a receber mais de 50”, informou a Ser Mamãe em Miami. O serviço foi idealizado em 2015 pelo pediatra brasileiro Wladimir Lorentz, que vive nos EUA há 30 anos, em parceria com dois médicos obstetras (um colombiano e um equatoriano) após perceber a demanda de turistas russas em outras clínicas. “Pensei: por que não oferecer o mesmo a brasileiras e latinas que gostam tanto de Miami?”, conta ele, que dá palestras para divulgar a agência.

Além do parto (é possível escolher entre natural ou cesárea) e dos custos de duas diárias de internação em dois possíveis hospitais de Miami, o pacote inclui atendimento personalizado no fim do pré-natal, visitas domiciliares do pediatra nos primeiros dias de vida do bebê e as vacinas de dois meses.

DUPLA CIDADANIA

Apesar de muita gente não imaginar, toda pessoa que nasce em solo americano automaticamente recebe a cidadania americana, assim como todo bebê que nascer no Canadá, receberá a cidadania canadense. O mesmo não acontece em outros países como, por exemplo, Alemanha, Inglaterra, Itália e França, quando a cidadania só será automática se um dos pais for cidadão. É possível requerer a cidadania após um período, segundo regras de cada País.

“As pessoas que vão ter bebê nos Estados Unidos nem sempre querem morar lá, elas querem dar à criança a possibilidade de ter dois passaportes e ser cidadã americana, com todos os direitos e garantias. Não há nada na lei que vete essa questão e não é preciso ter residência fixa nos EUA. A pessoa precisa basicamente ter passaporte e visto válido para entrar no País”, afirma Daniel Toledo, advogado especializado em direito de imigração.

George Niaradi, presidente da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil, regional São Paulo (OAB-SP), confirma que não há ilegalidade em ter o bebê nos EUA e reforça que a mulher não deve sentir nenhum constrangimento se for questionada sobre o assunto na imigração. 

Como não há um visto específico para esse tipo de serviço, em geral, as famílias viajam com visto de turista. Niaradi ressalta, entretanto, que em qualquer hipótese, mesmo sendo por conta de um tratamento médico, o ingresso no País pode ser barrado pelo agente de imigração. “Ele tem total autonomia de barrar a pessoa se suspeitar de algo. Por exemplo: se a mulher disser que está viajando a passeio, quando na verdade vai ganhar bebê. O agente pode entender que há uma fraude nessa informação”, alerta.

Grávida de 7 meses, a funcionária pública federal Claudia Akemi Yassutani, de 40 anos, passou por um susto no final do mês passado quando viajou aos Estados Unidos apenas para fazer o enxoval do filho, César. Durante a imigração, foi questionada sobre as razões da viagem e, mesmo afirmando que iria apenas fazer compras, o agente suspeitou e a encaminhou para a sala reservada. Lá, foi amplamente questionada por outros três agentes se estava viajando para ganhar o bebê lá. 

“Não deixaram meu marido entrar, perguntaram de quantos meses eu estava, quantos dólares eu estava levando, se eu pretendia ter o bebê lá, se eu já tinha a passagem de volta, onde eu ia me hospedar. Repetiram a mesma pergunta várias vezes, talvez para ver se eu cairia em contradição”, conta ela, que foi liberada a entrar no País por um prazo reduzido por 4 semanas, em vez dos tradicionais 6 meses. “Se tiver outro filho, certamente não farei mais o enxoval lá”, afirmou.

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Fernanda Bassette, Especial para O Estado

21 Outubro 2017 | 21h00

SÃO PAULO - A atriz Karina Bacchi, de 41 anos, provocou furor nas redes sociais quando anunciou que viajaria para os EUA para ter o primeiro filho, Enrico, uma produção independente. A seguir, a entrevista:

Como foi a decisão de ter um bebê de maneira independente? 

No ano passado, me separei do meu marido, com quem fiquei casada por seis anos. Ele tem dois filhos do primeiro casamento e não queria ser pai novamente. Também descobri a hidrossalpinge, um acúmulo de líquido nas trompas, e tive de retirá-las. Me vi diante do risco de não realizar meu sonho.

Por que escolheu tê-lo nos EUA? Quais as vantagens?

O fator decisivo foi a múltipla cidadania que meu filho teria. Tenho cidadania italiana e sei o quanto é positivo. Poder ter essa facilidade de escolher futuramente onde morar, estudar, trabalhar sem o obstáculo da falta de documentação, é um presente para ele. Não sabemos como estará o Brasil ou o mundo daqui a alguns anos nem onde será o melhor lugar para se viver. Então optei por deixar as portas abertas.

Quais foram seus principais medos e inseguranças com o fato de ter o bebê fora do País? Quanto tempo você ficou por lá?

Três meses. Senti falta de casa, pais e amigos, dos pets. Também senti medo quando soube que um furacão estava chegando. O mês pós-parto foi o de mais ansiedade enquanto aguardava o momento de voltar, a documentação e o tempo certo para o Enrico pegar o 1.° voo.

Qual foi seu investimento total?

Cerca de R$ 35 mil na parte médica e hospitalar, em que estão inclusos serviços de pediatria, obstetra, hospital e a documentação. Tive também despesa de cerca de US$ 15 mil (R$ 47,5 mil) para aluguel, passagens, transporte e itens do dia a dia.

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Fernanda Bassette, Especial para O Estado

21 Outubro 2017 | 21h00

SÃO PAULO - Foi durante um curso sobre como investir nos Estados Unidos que Caroline e Maurício De Santis, de 32 e 42 anos, decidiram ter um filho em solo americano. Empresários do ramo de cafeterias e cozinhas industriais, eles planejam morar nos Estados Unidos e receberam a dica de ter o bebê por lá para que ele ganhasse cidadania americana e, no futuro, pudesse viver legalmente no país.

Segundo Caroline, a advogada que estava dando a palestra do curso perguntou se eles tinham filhos. “Quando dissemos que não, ela brincou: ‘Por que não aproveitam para ter um bebê americano?’”, conta Caroline, que desconhecia haver um serviço voltado a gestantes brasileiras e latinas. “Ela nos explicou sobre as vantagens da cidadania americana, entre elas, ter qualidade de vida, direito à escola pública. Isso ficou na nossa cabeça e fomos amadurecendo a ideia.”

Em janeiro, o casal viajou a Miami de férias e decidiu ir atrás de mais informações sobre a legalidade do procedimento. Os empresários aproveitaram para conhecer as instalações dos hospitais e os consultórios dos médicos parceiros. “Isso nos deu muito mais segurança”, diz a empresária, que engravidou logo em seguida.

Ao todo, o casal separou cerca de R$ 100 mil reais para pagar o parto, a hospedagem, a viagem e as despesas do dia a dia. Só o pacote que inclui o atendimento médico, o parto e as diárias de hospital custou US$ 12 mil (o equivalente a R$ 39.600).

Caroline viajou para Miami com a mãe no dia 5 de agosto, quando estava grávida de 32 semanas – tempo máximo permitido pela agência e também pelas companhias aéreas, para segurança da mãe e do bebê. Entrou no país com visto de turista e conseguiu carimbo para permanência por até seis meses. Lá, deu continuidade ao pré-natal.

Imprevisto. A empresária estava em Miami quando o furacão Irma – que deixou pelo menos 72 mortos na Flórida – atingiu a cidade. Por estar com a gestação avançada (37 semanas), ela poderia se abrigar em um hospital, mas não havia garantia de leitos disponíveis. “Apesar do medo, preferi ficar hospedada com mais conforto em um hotel construído para suportar furacões de categoria 5. Ao todo, foram oito dias nesse hotel, imprevisto financeiro que geralmente não calculam.”

Apesar de ter tentado o parto normal, Vicente nasceu em 26 de setembro após cesariana, com 3,480 kg e 50 cm. A empresária estava com 39 semanas e 4 dias de gestação. “Nasceu e já chorou imediatamente. Todos os procedimentos foram feitos ao nosso lado e as enfermeiras explicavam tudinho. Foi tudo incrível, eu amei”, afirmou.

Mãe, avó e bebê ficarão em Miami até 26 de novembro, quando Vicente terá dois meses e receberá a primeira vacina antes de viajar de avião. Maurício voltou ao Brasil no início dessa semana.

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