JF Diorio/AE-19/3/2011
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Cabral, projeto de vice em construção

Governador do Rio, que diz sonhar com a presidência do Vasco, comanda a ''agenda Rio'' e mantém ótimo trânsito com Lula e Dilma

Luciana Nunes Leal / RIO, O Estado de S.Paulo

27 Março 2011 | 00h00

A resposta já está pronta para quem pergunta ao governador fluminense, Sérgio Cabral (PMDB), o que pretende fazer depois de encerrar o segundo mandato. "Quero ser presidente do Vasco da Gama", repete. No horizonte de Cabral, porém, não há uma presidência de clube, mas a vice-presidência da República.

Reeleito no primeiro turno com 66% dos votos, o governador nega qualquer movimento para compor uma chapa de reeleição de Dilma em 2014 e insiste que o natural é a manutenção da parceria atual, com Michel Temer (PMDB). A hipótese ganha força, no entanto, porque Cabral, depois de três mandatos de deputado estadual e um de senador, rejeita a ideia de voltar ao Legislativo ou de ser candidato a presidente.

A escolha de Cabral para vice dependeria mais de uma decisão pessoal de Dilma ou do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva - caso ele decida voltar à disputa eleitoral -, do que de uma composição entre partidos. Ao contrário do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), também lembrado como possível parceiro nacional do PT em 2014, Cabral é avesso à vida partidária. Não se envolve nos assuntos do PMDB, tem uma relação distante com a bancada na Câmara e só vai a Brasília quando o destino é o Palácio do Planalto.

Na visita do presidente norte-americano Barack Obama ao Rio, domingo passado, Cabral mostrou mais uma vez seu estilo: dar valor às relações pessoais, com um jeito descontraído de tratar até mesmo o homem mais poderoso do planeta. Apesar dos contatos rápidos com Obama, fez propaganda de suas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e falou da viagem que fará aos EUA na próxima semana, para discutir investimentos com o Eximbank.

Ministério. Se a candidatura a vice não se viabilizar, Cabral é candidato certo a ministro em um eventual segundo governo Dilma. "Em 2014, Cabral não fará nada que não seja combinado com Lula e Dilma. Um dia, vai cair no colo dele e será candidato (a presidente ou a vice), assim como o Eduardo Campos e o Aécio Neves. Mas não precisa ser daqui a três anos", diz o vice-governador, Luiz Fernando Pezão (PMDB), já escolhido por Cabral para disputar sua sucessão.

Embora a relação de Cabral com Dilma não seja tão fraterna quanto era com Lula, o governador mantém bom trânsito no governo. Assessores da presidente dizem que ela gosta dele e que o atrito ocorrido durante a escolha do ministro da Saúde não deixou sequelas. Nas palavras de um colaborador de Dilma, "foi uma lição para Cabral".

Na ocasião, o governador divulgou a informação de que seu secretário de Saúde, Sérgio Côrtes, era o escolhido de Dilma. Por causa do vazamento, Côrtes perdeu o cargo. Ele continua no governo do Estado, e a versão oficial foi de que o PMDB não o aceitou como indicação do partido.

O atual titular da Saúde, Alexandre Padilha, é um dos ministros mais próximos de Cabral. Antonio Palocci, chefe da Casa Civil, é outro interlocutor - uma relação "cordial, mas não especial", segundo um assessor.

Nestes três primeiros meses, Cabral recorreu a Dilma em duas ocasiões. Na segunda semana de janeiro, a presidente foi à Região Serrana ver de perto os estragos dos temporais que deixaram 905 mortos e mais de 300 desaparecidos. No mês passado, Cabral foi ao Planalto negociar as mudanças na proposta da Autoridade Pública Olímpica (APO), que representará a União nos preparativos para a Olimpíada.

Agenda. No Palácio do Planalto, o que se diz é que existe uma "agenda Rio" importante no médio prazo e que o bom entendimento entre Dilma e Cabral poderá ser útil para fazer iniciativas avançarem. A agenda inclui não só a Olimpíada, mas também o interesse americano, manifestado por Obama, em uma parceria em torno do pré-sal.

A avaliação no Palácio é que o estilo de Cabral facilita o diálogo, mas alguns assessores se preocupam com a maneira emotiva como ele se comporta diante das adversidades - ele foi visto como "muito passional" no ano passado, durante a discussão sobre royalties do petróleo no Congresso - onde usou termos como "tunga", "leviandade" e "roubo" ao protestar contra as perdas do Rio. A reação foi mal recebida. Bancadas de norte a sul se voltaram contra ele. Em relação à Olimpíada, há uma expectativa de que Cabral seja um mediador para eventuais atritos da Prefeitura do Rio com o presidente da APO, Henrique Meirelles.

Lula. A viagem aos EUA inclui um compromisso não previsto inicialmente: um encontro com Lula, que vai a Washington para uma palestra na Microsoft. No Rio, o governador já recebeu o ex-presidente para jantar em seu apartamento, no Leblon. Até os petistas mais próximos de Lula se surpreendem com o grau de amizade entre os dois.

Além de Lula, Temer é outro ex-desafeto de quem Cabral se reaproximou. "Ele pode ser candidato a presidente, a vice, voltar ao Senado. Se for candidato a deputado, fará uma bancada excepcional", diz Temer.

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