Caixa-preta indica erro no uso de manetes

Falta ainda descobrir o que provocou a falha do piloto; chuva e pista escorregadia podem ter efeito psicológico

Bruno Tavares, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2029 | 00h00

A análise preliminar da caixa-preta de dados do vôo 3054 da TAM indica que houve erro dos pilotos no uso dos manetes do Airbus A320. Entretanto, ainda restam dúvidas quanto ao que motivou a falha, uma vez que a tripulação já havia pousado com o mesmo avião, horas antes, em Porto Alegre. "O reverso (sistema de freio aerodinâmico que estava inoperante) pode influenciar até psicologicamente. Se estava chovendo, se ventava, se a pista estava escorregadia, tudo vai se somando. Na maioria dos casos, o fator humano é o que mais aparece. Por mais que tenha bons equipamentos, a limitação vai ser sempre o ser humano", afirmou o chefe do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), o brigadeiro Jorge Kersul Filho. Os investigadores acreditam que, só depois de confrontar os dados com as gravações da cabine, será possível ter uma idéia final sobre o que aconteceu. Essa hipótese de falha no sistema do A320 já havia sido levantada pelo Estado, ao comparar a tragédia em Congonhas, que deixou 199 mortos, com um acidente semelhante ocorrido nas Filipinas em 1998. Na ocasião, a aeronave também estava com o reverso travado - mas, naquele caso, apenas três pessoas morreram no solo, pois a pista era maior e não havia edificações próximas. Seis dias após a tragédia, justamente quando teve acesso às primeiras informações sobre a caixa-preta, a Airbus emitiu comunicado mundial às empresas que operam os jatos da família A320, alertando para o risco do uso incorreto do manete de potência dos motores. Para pousar o avião, o piloto deve programar nos computadores de bordo desde o funcionamento da aceleração automática (autothrottle) até os sistemas de frenagem hidráulico (autobreak) e aerodinâmicos (speedbreak, reversos e flaps). O manete de potência das turbinas deve ser deixado na posição marcha lenta (idle) para evitar uma aceleração involuntária da aeronave. Enquanto o acelerador automático está ligado, os sistemas eletrônicos do avião ignoram a posição do manete. Mas depois que a aeronave toca o solo o autothrottle é desligado e o computador volta a "ler" a posição em que a alavanca de potência foi deixada. Por esse motivo é que deve ficar em marcha lenta. Caso contrário, o Airbus pode ter duas reações: acelerar sozinho (manetes na posição de subida) ou ganhar potência contrária (manetes na posição de reverso). No caso do Airbus da TAM, o avião acelerou após o pouso, como já declaram controladores da torre de Congonhas. Como o avião estava com o reverso direito inoperante e o esquerdo em funcionamento, a turbina direita ganhou potência mais rápido do que a esquerda. Essa assimetria explicaria a curva feita pelo Airbus, saindo à esquerda da pista de Congonhas, passando pelo gramado e se chocando com o prédio da TAM Express.

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