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Depoimentos de cardeal não convencem as vítimas de pedofilia

- Atualizado: 03 Março 2016 | 08h 32

Interpelações de George Pell tiveram objetivo de determinar as práticas da Igreja na Austrália sobre denúncias entre 1970 e 1980

SÃO PAULO - O cardeal australiano George Pell encerrou seu quarto e último dia de depoimentos na noite desta quarta-feira, 2 - manhã desta quinta-feira, 3 na Austrália -, e afirmou estar cansado pelo "trabalho árduo" dessas sessões. Desde a noite de domingo, 28, ele vinha sendo interpelado por uma comissão de investigação sobre os casos de pedofilia praticados por padres em seu país. Na última hora do depoimento, Pell lamentou "o abuso sexual de crianças dentro da Igreja".

Na avaliação de vítimas de abuso sexual cometidos por religiosos nos anos 1970 que acompanhavam os depoimentos em Roma, as declarações de Pell não foram convincentes. "Ele não foi honesto e nem verdadeiro", disseram alguns deles a órgãos de imprensa. 

'Toda a liderança da Igreja na Austrália está empenhada em evitar a repetição da terrível história do passado e tentar fazer as coisas de uma forma melhor', diz George Pell

'Toda a liderança da Igreja na Austrália está empenhada em evitar a repetição da terrível história do passado e tentar fazer as coisas de uma forma melhor', diz George Pell

"Mas o processo desta comissão foi concebido para tentar tornar a situação melhor para o futuro, para os sobreviventes (dos abusos) e para evitar a repetição de todo esse sofrimento no futuro", afirmou o purpurado - sobre o qual, vale ressaltar, não pesa nenhuma denúncia do tipo.

O depoimento tem como objetivo determinar as práticas e respostas adotadas pelas instituições católicas australianas diante das denúncias de pedofilia entre os anos 1970 e 1980 no país. Pell, atualmente com 74 anos, é o atual prefeito da Secretaria de Economia do Vaticano e já foi arcebispo de Melbourne e de Sydney. Os depoimentos foram feitos via videoconferência, de um hotel de Roma. Sua saúde frágil o impediu de viajar ao país natal.

"Espero que minha participação aqui tenha contribuído um pouco para a cura, para a melhoria dessa situação. Toda a liderança da Igreja na Austrália está empenhada em evitar a repetição da terrível história do passado e tentar fazer as coisas de uma forma melhor", disse ele. "Sofro o sofrimento das pessoas que eu considero como o meu próprio povo."

Em um dos pontos mais controversos da audiência, o cardeal declarou que o fato de vários religiosos de sua região na Austrália terem cometido abusos não passaria de uma "desastrosa coincidência". Conforme divulgado na noite de terça-feira, 1º, o cardeal pretende se encontrar, privadamente, a partir desta quinta-feira, com grupos de pessoas de seu país que foram vítimas de abuso sexual quando crianças. 

A comissão foi incisiva ao não aceitar as alegações de Pell, de que ele não tinha conhecimento dos abusos praticados por padres de sua jurisdição na Austrália, nos casos de Ballarat e Melbourne. Em sua defesa, o cardeal afirmou que após medidas implementadas em 1996 na arquidiocese de Melbourne, então sob sua gestão, justamente com o objetivo de investigar internamente casos de abuso sexual infantil praticados por religiosos, "as instituições católicas australianos agora estão entre as instituições mais seguras da Austrália".

De acordo com o comunicado divulgado por seu staff, ele sugere que os encontros com os sobreviventes ocorram a partir de quinta-feira, quando ele espera já ter cumprido a série de sabatinas. "Cardeal Pell espera que essas reuniões possam ser úteis e contribuir para confortá-los. Ele está feliz em antevê-los individualmente ou em grupos menores, como já o fez muitas vezes no passado", disse o documento.

Essas vítimas são convidadas a comparecer com uma pessoa "para apoiá-las nas reuniões", mas "devido à natureza privada e pastoral dessas reuniões não seria apropriado que a mídia ou representantes legais possam delas participar". 

Coincidentemente, essa série de interpelações da Comissão Real da Austrália sobre a Resposta Institucional ao Abuso Sexual Infantil vem na mesma semana que o Oscar de melhor filme foi entregue para Spotlight: Segredos Revelados, que retrata uma investigação jornalística sobre crimes de pedofilia praticados por padres.

Na segunda-feira, 29, após as primeiras quatro horas de depoimento, o cardeal australiano foi recebido em audiência reservada pelo papa Francisco. À comissão, Pell havia admitido que, em casos de pedofilia, "a Igreja cometeu erros enormes".

Não foi revelado o conteúdo da conversa entre o sumo pontífice e o cardeal. Mas, quando o purpurado chegou ao Hotel Quirinale para a segunda sessão via videoconferência, ele afirmou que tinha total apoio do papa Francisco. Nesta quarta-feira, durante a interpelação, ele afirmou que não havia tratado especificamente com o sumo pontífice do tema dos depoimentos, mas que iria se empenhar para que ele tomasse conhecimento do teor das audiências. 

Pell afirmou que o padre Gerald Ridsdale, acusado por dezenas de casos, "foi transferido de paróquia em paróquia em vez de ser denunciado à polícia pelos crimes". Na avaliação do cardeal, a medida teria sido "catastrófica".

O cardeal também disse que, muitas vezes, faltou acreditar no que diziam as crianças e que a Igreja teria feito "besteiras". Ele, entretanto, negou que tivesse qualquer conhecimento das práticas de pedofilia de Ridsdale na Diocese de Ballarat - ali, eles foram colegas entre 1973 e 1983. Também em depoimento, o cardeal admitiu que havia boatos de que outro sacerdote, John Day, abusava de menores na mesma diocese. A Igreja, segundo Pell, "estava fortemente propensa" a desmentir qualquer acusação.

"Não estou aqui para defender o indefensável", afirmou o cardeal. "A Igreja cometeu erros enormes e causou graves danos em muitos lugares, desiludindo fiéis. Mas está trabalhando para remediar."

Sobre Pell não pesa nenhuma denúncia de que tenha cometido abusos - seu depoimento tem como objetivo determinar as práticas e respostas adotadas pelas instituições católicas australianas diante das denúncias de pedofilia entre os anos 1970 e 1980 no país. Antes, o cardeal já havia se desculpado duas vezes pelos abusos cometidos por outros sacerdotes católicos. Padre Risdsdale foi condenado pela Justiça australiana por 138 crimes contra 53 menores.

Oscar. Vencedor da estatueta principal do Oscar no domingo, Spotlight: Segredos Revelados, de Thomas McCarthy, mostra uma investigação jornalística justamente sobre a prática da Igreja de transferir padres suspeitos de pedofilia para outras dioceses, com o intuito de abafar as denúncias.

Os abusos sexuais cometidos por membros da Igreja vieram à tona em 2002, quando se descobriu que bispos da área da cidade norte-americana de Boston transferiam os estupradores de uma paróquia a outra em vez de expulsá-los. Desde então foram revelados escândalos semelhantes em todo o mundo, e dezenas de milhões de dólares já foram gastos em indenizações.

Em determinado período, Pell atuou como consultor do bispo de Ballarat, Ronald Mulkearns - e nesta condição, ele tinha reuniões periódicas com a autoridade, chegando a aconselhá-lo sobre a movimentação dos sacerdotes entre as paróquias de sua jurisdição. De acordo com a comissão, em uma reunião de 1982, na qual Pell estava presente, o bispo Mulkearns afirmou ter conhecimento dos abusos de Ridsdale. Foi nesta reunião que ficou decidido que o padre seria transferido, pela sexta vez, de paróquia.

Pell manteve sua versão. Afirmou que apesar do "conhecimento generalizado" do comportamento de Ridsdale, a ele nada foi dito e ele nada sabia. O purpurado enfatizou esse desconhecimento, mesmo confirmando que foram colegas de paróquia e viveram sob o mesmo teto, em Ballarat. "Nunca soube que ele estava abusando de crianças", afirmou Pell. 

Em um dos momentos mais controversos do depoimento, Pell disse à comissão que o comportamento criminoso de Ridsdale era "uma história triste". "Sobre a qual nunca me interessei muito." 

O cardeal disse que não acredita que pessoas que desconheçam abusos, como é o caso dele, devam ser responsabilizadas por não proteger as crianças, rebatendo assim a afirmação da comissão de que ele estava "se excluindo das responsabilidades". 

Pell também negou aceitar qualquer responsabilidade pelo fato de que Ridsdale foi transferido de uma paróquia para a outra em vez de ser banido da Igreja. Quando foi colocada a situação de que era improvável que ele não soubesse que a razão pela qual o sacerdote estava sendo transferido frequentemente de paróquia era os abusos sexuais que ele cometia contra crianças, Pell respondendo que a colocação era "completamente non-sense". 

Pell. Cardeal desde 2003 e nomeado prefeito da Secretaria de Economia do Vaticano - uma espécie de Ministro da Fazenda - em 2014, Pell já foi apontado como um dos principais opositores do papa Francisco, adjetivo que ele nega.

Membro do chamado C9, grupo de cardeais consultores que colaboram com o sumo pontífice nas reformas dentro da Vaticano, o australiano foi um dos signatários da carta enviada ao papa dias antes da abertura do Sínodo dos Bispos sobre a Família, encontro da alta cúpula da Igreja ocorrido em outubro, no Vaticano. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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