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Brasil

Crise da água

Cariocas gastam 75% mais água do que paulistanos

Levantamento mostra que morador do Rio gastou, em média, 329,78 litros por dia em 2013, ante 188,03 do consumidor de São Paulo

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Fabio Leite e Fábio Grellet,
O Estado de S. Paulo

19 Janeiro 2015 | 07h40

RIO - Um diagnóstico nacional sobre saneamento recém-divulgado pelo Ministério das Cidades revela que cariocas consumiram 75% mais água do que paulistanos em 2013, antes da pior crise hídrica da história dos mananciais que abastecem os dois municípios. Segundo o levantamento, cada habitante da cidade do Rio gastou, naquele ano, 329,78 litros de água por dia, ante uma média de 188,03 litros diários registrada pelo morador de São Paulo.

Os números mostram que o consumo de água das populações das maiores e mais ricas cidades do País ficou acima da média brasileira em 2013, que foi de 166,3 litros diários por pessoa, e extrapolou de longe os 110 litros per capita por dia recomendados pela Organização das Nações Unidas (ONU), com base em padrões europeus de consumo.

Os dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) são fornecidos pelas próprias companhias de abastecimento, Cedae, no Rio, e Sabesp, em São Paulo.

Tanto Rio quanto São Paulo sofrem com a seca extrema em seus mananciais, o Paraíba do Sul e o Sistema Cantareira, respectivamente. A situação paulista, contudo, é bem mais crítica, porque desde maio de 2014 a Sabesp já capta água do volume morto do Cantareira, o principal sistema, para garantir o abastecimento na Grande São Paulo. Hoje, ele é responsável por atender 6,2 milhões de pessoas e está com nível 23% abaixo do mínimo operacional, além de a estiagem nas represas neste mês estar pior do que no início do ano passado. O Alto Tietê, o segundo maior, também está próximo do colapso.

O Rio depende exclusivamente da Bacia do Rio Paraíba do Sul, cujas represas ficam em São Paulo, para abastecer dez milhões de pessoas. A capacidade de armazenamento do manancial chegou a 2%, a pior da história. A situação é melhor porque as represas são maiores e ainda preservam suas reservas profundas.

Na sexta-feira, a Agência Nacional de Águas (ANA) e os secretários estaduais de São Paulo e Rio aprovaram novas regras de operação da bacia e a obra de transposição de água da Represa Jaguari, no Paraíba do Sul, para a Represa Atibainha, no Cantareira.

O novo secretário do Ambiente do Rio, André Corrêa, disse na semana passada que o Estado está discutindo novas regras tarifárias para o consumo de água que beneficiem quem gasta pouco e sobretaxem quem consome mais. "Essa fórmula tem de ser permanente, não usada apenas nos momentos de racionamento", disse no discurso de posse. Desde fevereiro de 2014, a Sabesp dá desconto de até 30% na conta para quem economizar água e neste mês começou a vigorar multa de até 100% para quem gastar mais do que a média antes da crise. A medida é questionada na Justiça.

Os dados do SNIS mostram que o Estado do Rio aumentou o consumo em 3,7% em relação a 2012 e foi novamente o campeão em gasto no País em 2013, com uma média de 253,1 litros por dia, 52,2% acima da média nacional. Além do Rio, Maranhão, Amapá, Espírito Santo, Distrito Federal, São Paulo e Rondônia apresentaram em 2013 um consumo maior do que a média do País, de 166,3 litros por habitante/dia.

Banhos. Sob o calor escaldante do Rio, mesmo com o risco de faltar água em um futuro próximo, é difícil alguém que resista a tomar vários banhos por dia.

A gestora de projetos Ingrid Lins da Silva, de 33 anos, costuma tomar quatro por dia. "Não tenho ar-condicionado e a obra de instalação exigiria a reforma da fiação elétrica do apartamento, que é alugado. Por enquanto, os banhos são a melhor forma de me refrescar", afirmou Ingrid. "Em geral gasto pouquíssima água e me preocupo em tomar banhos rápidos. Nem de longe é um gasto abusivo."

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