Carnaval bem-comportado

Pode ser um sinal dos tempos, ou uma tendência conservadora de comportamento, mas no desfile das escolas de samba, um ambiente de pouca roupa e muita sensualidade, contavam-se nos dedos as mulheres com os seios nus. Saudosistas lembravam de Luma de Oliveira e sua comissão de frente sambando diante da bateria como cena de velhos carnavais.

Nelson Motta, O Estado de S.Paulo

11 Março 2011 | 00h00

É verdade que a preferencia nacional, ao contrário da americana, nunca foi por seios. E tanto as feministas americanas como as brasileiras odeiam esse assunto. Mas o interesse é antropológico: este ano nem as madrinhas de bateria mostraram seus troféus de silicone. Além de Waleska Popozuda, só algumas raras figurantes se exibiam de peito aberto. E a devassa dos camarotes era a Sandy.

Parece mentira, mas há 20 anos, nos áureos tempos de Joãosinho Trinta, as escolas estavam saindo tão peladas que provocaram a célebre polêmica sobre "genitálias desnudadas" na transmissão do desfile pela televisão. O que mostrar ? De que ângulo ?

Há 15 anos fez grande sucesso - como um quadro do familiar Fantástico - uma série de programas de 10 minutos com histórias baseadas em A vida como ela é, de Nelson Rodrigues. Escrita por Euclydes Marinho e dirigida por Daniel Filho, a série desnudou quase todas as jovens estrelas da Globo na época.

Hoje é algo inconcebível na TV aberta, em qualquer seriado ou novela. Como a abertura de Tieta, de 1989, protagonizada por uma morenaça nua em pelo dançando sob o coqueiral. Nudez agora só por assinatura.

Em compensação, nas últimas novelas, notei que alguns personagens, quando furiosos, já são autorizados a dizer "merda", e já se ouve "babaca" com alguma frequência. Há 20 anos, novela não tinha palavrão, seria um escândalo, um desacato às famílias que assistiam pela televisão ao desfile de seios e genitálias desnudadas.

A TV aberta é o melhor termômetro popular, é um raro espaço em que o povo está de fato no poder: as emissoras fazem todas as suas vontades para garantir a audiência e a publicidade. Entre velhos palavrões e novos pudores, a moral familiar nacional revela os seus valores na Era Lula/Dilma.

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