Cartas do Sol Nascente

Depoimentos de moradores da Chácara do Padre fazem parte de processo que pede reparação do governo

André Borges e Luísa Martins, O Estado de S. Paulo

15 Janeiro 2017 | 03h00

Veja a seguir trechos de cartas escritas por moradores da "Chácara do Padre", região do Sol Nascente que foi alvo de desocupação em outubro. As cartas fazem parte do processo judicial que pede reparação do governo e respeito aos direitos de moradia da população.

Sheyla Oliveira de Miranda

"Declaro que passamos por uma derrubada em que muitas famílias e eu ficamos sem ter onde morar. Hoje vivo morando de favor, juntamente com meus três filhos e esposo. Passamos por um momento de felicidade, quando os órgãos do GDF (Governo do Distrito Federal) passaram medindo as ruas e a Caesb (Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal) passou para colocar esgoto e água. Mas logo em seguida fomos surpreendidos pela Agefis e policiais, começando ali um pesadelo onde nossas casas foram derrubadas. Vi meu sonho sendo enterrado debaixo dos destroços. Agora não temos quem olhe por nós. Aí fica a questão: onde está o direito dos que não têm onde morar? Foi terrível ver meu lar, o canto dos meus filhos, no chão. A Agefis, sem dó nem piedade, nos dias 5 a 14 de outubro, passou por cima de muitas casas, destruindo meu lar e das demais famílias que ali vivem. Hoje estou tentando erguer meu lar sem água e sem luz. Passar por uma derrubada mexe com sonhos e projetos. Lutamos, choramos, gritamos e ninguém nos ouviu. Quantas famílias sem lar que viram seus sonhos destruídos..." 

Donisete Moreira Meneses

"A Agefis derrubou minha casa, mal deu para tirar as coisas, não sabia se tirava os móveis ou socorria minha esposa, que passou muito mal. Investi no sonho de uma vida inteira e isso se transformou em um pesadelo. Aguardamos por Justiça."

Maria Francinete Costa Aguiar

"Recentemente aconteceu uma derrubada, ocasião em que veio abaixo minha casa. O lote onde a minha casa se encontrava foi comprado através de economias feitas por mim. Logo depois, construí minha casa com muito esforço, mas um dia a Agefis chegou para derrubar tudo, com tratores e muitos policiais que, sem dó, lançavam bombas, spray de pimenta nos moradores, entre eles crianças, algumas recém-nascidas. No fim, acabou vindo abaixo a casa de todos, inclusive a minha, me deixando sem ter para onde ir com meus filhos, isso porque o governo não preocupou-se em providenciar uma moradia alternativa para ninguém, e hoje eu me encontro tendo que suar para pagar aluguel, sem ter condições."

Everton Paulo Oliveira de Almeida

"É com lamento e aperto no coração que escrevo essa carta, mas também com esperança de que dias melhores virão. No momento difícil em que o Brasil se encontra fomos retirados das nossas casas e deixados na rua por um governo corrupto, incompetente, mentiroso. Como podem deixar famílias passarem fome?"

Mérlia Cristina Costa e Silva

"Hoje me encontro dividindo uma casa com 11 pessoas, tive que dar o pouco que tinha e ficar só com o necessário. Meu maior pesadelo começou dia 5 de outubro, onde o maior sonho da minha vida virou escombros. Estava no trabalho quando recebi um vídeo que mostrava cenas de uma verdadeira guerra civil. Tratores, funcionários truculentos da Agefis, policiais tratando famílias como bandidos, spray de pimenta, gás de efeito moral, tropa de choque, casas no chão e pessoas nas ruas. Como uma cidadã brasileira, hoje eu não acredito  mais na Constituição Federal do Brasil. Estou morando em Brasília há 11 anos e todos esses anos foram de luta, batalhando para ter uma vida digna. Fiz um empréstimo bancário, todo mês fico com apenas R$ 200 para as contas do mês, mas esse dinheiro me ajuda, multiplica, porque Deus sabe da minha luta e mesmo assim minha maior felicidade era ter a minha casa! Hoje eu vivo a pior realidade junto com 370 famílias, sem perspectiva nenhuma e sem nenhum reparo legal. Rogo a Deus que toque no coração das autoridades, que elas se sensibilizem com essa tragédia e façam valer a dignidade humana."

Irlene Rodrigues Coelho

"Construí minha casa no ano de 2013 na Chácara do Padre. Minha casa foi conquistada com muito suor, pois trabalhei muito para ter um lar. Durante a construção, ninguém da Agefis ou qualquer outra pessoa veio até nós para dizer que não poderíamos construir nada naqueles lotes. Vendi meu único bem que era meu carro para ter um barraco digno para morar junto com minha família. Não tenho emprego fixo, pois trabalho como freelancer. Todo dia ia para o trabalho com um sonho de que logo teria minha casa sem ter a preocupação de morar de aluguel. Gastei o que não tinha. Um dia, a Agefis simplesmente chegou já tirando nossas coisas de dentro de casa. Sem nenhuma ajuda do governo para nada, fomos tirados das nossas casas pior que cachorros. Sem ao menos nos dar uma resposta. Detalhe: quando derrubaram minha casa eu estava viajando a trabalho, não tive nem tempo de reclamar, porque essa é a vida do pobre: não poder reclamar."

José William Lima da Silva

"Sou solteiro, morava na Chácara do Padre desde 2013, construí minha casa, gastei tudo que tinha pela esperança de moradia. Chegaram destruindo tudo, não deram nem um aviso antes pra gente poder procurar outra moradia, se organizar e tudo. Jogaram nossas coisas na rua, ficamos com uma mão na frente e outra atrás. Queremos a certeza de nossas moradias ou reembolso de quanto gastamos na casa. Moro com 4 pessoas."

Marilia Costa Silva

"Se existe Justiça, eu não creio, pois estava de resguardo da minha segunda filha e, no dia da derrubada, aconteceu o inesperado: policiais entrando jogando gás de pimenta dentro do lote que eu estava com meus filhos. Comecei a ficar sem ar, desmaiei com o bebê nos braços, pois não aguentei o cheiro. Meu esposo, com o pano, colocou-o no rosto dos meus filhos. Quando acordei, estava na casa dos vizinhos e meus filhos com os rostos inchados. Quero saber onde estão nossos direitos. Como seres humanos, no lixo. O governador acabou com meus sonhos e dos meus filhos: nossa casinha!"

Gleisson de Souza

"Me deparei com a tropa de choque da Polícia Militar em conjunto com a Agefis e tomei o maior susto da minha vida. Eles não nos notificaram e pegaram todos de surpresa. A ação começou e o pesadelo junto, muito desespero das famílias, idosos passando mal, crianças chorando na rua e meu sonho morreu naquele dia."

Luciana Cristina Lôpo Araújo

"Há cerca de 3 anos investi o pouco que tinha para comprar um lote na Chácara do Padre. Aos poucos, eu e meu marido fomos construindo nossa tão sonhada casa. Eu desempregada com um filho de 3 anos enfrentando muitas dificuldades, mas nunca deixamos de sonhar. Foi então que, no dia 4 de outubro, nosso sonho e único lar se acabou. Perdemos o pouco que tínhamos e hoje vivemos de favor, de casa em casa. O governo nos tratou como lixo, não fomos avisados, não tivemos qualquer ajuda nem mesmo na mudança. Hoje, 16/11, 1 mês após, faço tratamento com psicóloga por ter pânico de ouvir helicóptero ou polícia, de tão feia que foi a derrubada. Eu, meu marido e nosso filho não temos um lar, vivemos nos humilhando para ter onde dormir e ainda devemos R$ 40 mil para o banco, que foi de onde tiramos o dinheiro para realizar nosso sonho. Hoje preciso de remédios para dormir e não sou mais a mesma, tenho depressão e medo das pessoas devido à guerra que vivemos." 

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