Celebração da vida

Conheci José Alencar na tarde de 27 de novembro de 2008. Naquele dia, o então vice-presidente da República aceitara meu convite para comparecer ao Instituto Nacional de Câncer (Inca) e participar da comemoração do Dia Nacional de Combate ao Câncer. Desde o diagnóstico inicial, em 1997, quando descobriu dois pequenos tumores malignos no rim direito e no estômago, até o momento em que deu aquela palestra no Inca, Alencar havia passado por mais de dez cirurgias. Mesmo assim, aos 77 anos, falou de pé por quase uma hora a uma plateia de médicos, jornalistas e profissionais de saúde. A principal mensagem: os pacientes de câncer podem e devem ter esperança na batalha contra a doença. E isso sem abrir mão da qualidade de vida.

Luiz Antonio Santini, O Estado de S.Paulo

30 Março 2011 | 00h00

A forma otimista e, sobretudo, corajosa com que José Alencar enfrentou a doença mudou a percepção das pessoas que passam por um tratamento contra o câncer. Com suas entrevistas e a maneira aberta de enfrentar a doença, José Alencar conseguiu superar a sentença de condenação geralmente associada ao diagnóstico de um tumor maligno. Afinal, não era a opinião de um especialista. Era o depoimento - e o exemplo - de quem lutava havia mais de uma década contra a doença.

Anualmente, cerca de 500 mil pessoas recebem diagnóstico de câncer no Brasil. A disposição de enfrentar a doença, aceitar e seguir os tratamentos prescritos, assim como perseverar no controle de recaídas, é fundamental. Também é fundamental a detecção precoce. José Alencar usou sua condição para levar essas mensagens ao Brasil. O comportamento dele levou a uma atitude mais positiva das pessoas em relação ao câncer.

Mas ele foi além. Todas as declarações que dava em público, muitas vezes contando em detalhes os procedimentos realizados, mostravam otimismo e vontade de superação. Entre 12 e 19 de janeiro de 2008, Alencar ficou internado no Hospital Sírio-Libanês, por conta de uma infecção decorrente da quimioterapia. Recebeu alta. E, ainda debilitado, manteve o bom humor. Em uma de suas primeiras declarações, disse que queria almoçar em uma churrascaria.

Alencar se tornou a prova de que é possível enfrentar o câncer e seus tratamentos sem perder o gosto pela vida. Mais ainda, o ex-vice presidente demonstrou aos brasileiros como, apesar das dificuldades, é possível não deixar a doença - por mais dolorosa que se torne - virar a protagonista de uma história.

É DIRETOR-GERAL DO INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER (INCA)

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.