Censo 2010: população asiática no Brasil cresceu 177% em dez anos

Retorno de brasileiros que moravam no Japão e imigrantes chineses são causas para forte aumento

Luciana Nunes Leal, O Estado de S. Paulo

22 Julho 2011 | 17h37

RIO - O Brasil viveu, na última década, uma explosão da população de origem asiática, explicada em grande parte pelo retorno de brasileiros que moravam no Japão e pela chegada de imigrantes vindos principalmente da China. Dados do Censo 2010 apontam 2,084 milhões de residentes no País que se declararam de cor ou raça amarela, um aumento de 1,322 milhão de habitantes - equivalente ao município de Guarulhos - em relação ao ano 2000. Em dez anos, os "amarelos" cresceram 177%. Embora a proporção ainda seja muito pequena, os orientais e seus descendentes passaram de 0,45% para 1,09% da população.

 

O pesquisador Kaizô Beltrão, professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas e especialista em estudos demográficos, aponta, além das mudanças migratórias, uma terceira razão para o aumento "drástico" desta população: maior identificação dos mestiços com suas origens, o que pode ter levado filhos de brasileiros com asiáticos a se declararem amarelos em vez de brancos.

 

 

No novo desenho da distribuição dos asiáticos e seus descendentes, o Nordeste, e não mais o Sudeste, apresentou a maior proporção de população amarela, embora em números absolutos a concentração continue no Sudeste. São Paulo, que tem a maior comunidade japonesa do País, deixou de ser o Estado com maior porcentual de asiáticos e descendentes e caiu para sétimo lugar, apesar de ter tido aumento no número absoluto. A atração pelo Nordeste pode ser explicada pelo aquecimento econômico da região, com investimentos em infraestrutura e serviços e aumento da demanda por mão de obra.

 

Na população nordestina, o número de amarelos ficou quase dez vezes maior: passou de 67 mil em 2000 para 631 mil em 2010. No Sudeste, o crescimento foi de 73%, de 514 mil em 2000 para 890 mil em 2010.

 

Embora o grande número de imigrantes ilegais dificulte a contagem dos estrangeiros no País e detalhes do Censo 2010 sobre nacionalidade ainda não estejam disponíveis, alguns números oficiais dão pistas para o aumento da população amarela. Segundo informação do Ministério da Justiça, o número de chineses legalmente residentes no Brasil aumentou 25% em apenas um ano, entre 2009 e 2010, passando de 28,5 mil para 35,2 mil. O Censo 2000 registrou a presença de 15 mil chineses no País.

 

Investimentos da China especialmente em agricultura e energia têm trazido profissionais mais qualificados ao País. Além disso, há um grande número de chineses que chegam com visto de turista e se acabam se radicando no Brasil. Atuam na economia informal especialmente em comércio de importados e no setor de alimentos.

 

Segundo o Censo 2010, o Piauí passou a ser o Estado com maior proporção de asiáticos, com 2,3% da população total. Segundo o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico e Tecnológico do Piauí, Warton Neiva, há um grande número de asiáticos trabalhando no agronegócio, especificamente na pecuária. Em Teresina, é perceptível a presença de famílias chinesas em lanchonetes improvisadas para venda de pastel e caldo de cana. Na capital piauiense, o número de asiáticos e descendentes aumentou mais de 14 vezes, de 1.446 habitantes para 20,8 mil. Em Fortaleza, o aumento também foi impressionante, de nove vezes, de 3.500 para 33 mil.

 

Na tentativa de evitar o aumento de imigrantes ilegais, o Itamaraty recomendou à embaixada brasileira na China atenção redobrada nos pedidos de vistos feito por chineses em viagem ao Brasil. Por enquanto, não há uma recomendação formal de restrição aos vistos, mas apenas orientação para maior rigor na checagem da documentação exigida e também a verificação se o visto para determinado viajante já tinha sido negado anteriormente.

 

Outro dado que comprova a vinda de asiáticos para o Brasil são as autorizações concedidas pelo Ministério do Trabalho a estrangeiros. O número de autorizações para trabalhadores filipinos, também da raça amarela, pulou de 1.542 em 2006 para 4.825 em 2008 e 6.531 em 2010.

 

Uma terceira informação reforça a tese de que o aumento da população amarela se deve ao retorno de brasileiros. Dados da Associação Brasileira de Dekasseguis indicam que o número de brasileiros no Japão caiu 14,4% em 2009. Naquele ano, havia 267,4 mil brasileiros residentes no Japão, 45,1 mil a menos que os 312,5 mil registrados em 2008. "Tem uma população mestiça que estava meio escondida. O movimento dekassegui aumentou a identidade dos mestiços que antes podiam se declarar brancos e passaram a se declarar amarelos", diz Kaizô. / COLABORARAM TIAGO ROGERO E BRUNO BOGHOSSIAN

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.