'Cerimônias funerárias são importantes para quem fica'

Para Elaine Alves, do Laboratório de Estudos sobre a Morte da USP, velório virtual pode ser uma boa ideia para quem não consegue chegar a tempo

Entrevista com

Elaine Alves

Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo

26 Março 2017 | 03h00

Falar sobre a morte ainda é um tabu em nossa sociedade e isso dificulta lidar com o luto?

Fala de morte é um grande tabu e dificulta muito lidar com o luto. A morte ou o luto é o pior sentimento que o ser humano vai passar e ele não se prepara para isso. Mesmo com o preparo vai ser difícil, sem ele é muito mais doloroso. O ideal é que se possa falar mais sobre isso, inclusive, com as crianças porque é um acontecimento que faz parte do cotidiano. A gente evitar falar com as crianças sobre isso e levamos esse hábito por toda a vida. 

Cerimônias funerárias são importantes durante o processo de luto? Assistir a uma transmissão online pode ajudar as famílias? 

São extremamente importantes para quem fica. É um ritual de despedida, é a ultima vez que é possível estar com quem se ama. Orientamos as pessoas a ficarem o máximo de tempo possível nos velórios, que é o contrário do que tem acontecido já que as pessoas ficam o mínimo possível. Os velórios têm sido cada vez mais rápidos, na ilusão de que se vá sofrer menos por ter menor contato com o morto. É tentar desaparecer com a morte.

O velório virtual é uma boa ideia para quem não consegue chegar a tempo para a cerimônia. É claro que não é como estar pessoalmente, mas é uma maneira de se despedir e de estar próximo dos familiares até que se possa estar junto. No entanto, o que tem acontecido é que para algumas pessoas têm sido mais fácil acompanhar pela internet do que estar presente fisicamente. Ninguém gosta de ir em velório, mas ele é importante no processo de luto. 

Deve existir um cuidado das empresas funerárias que oferecem esse tipo de serviço para não ofender as famílias ou não extrapolar na exposição da família?

Para abordar uma pessoa em sofrimento sempre é preciso cuidado, as pessoas ainda estão conhecendo esse serviço e é possível que se ofendam. Antes de oferecer, é importante que se pergunte se há algum parente ou amigo longe e esclarecer o motivo da pergunta. A ideia não é que seja um show, um excesso de exposição, mas um instrumento para aproximar a família. 

A morte é desagradável, e quanto mais trágica, mais cara ela é. O que o serviços funerários buscam é oferecer a possibilidade de dar sua última homenagem a quem morreu. Mas é sempre importante que haja ética e respeito, não deve ser vendido como algo da moda. É um serviço ainda muito novo e me preocupo com as questões éticas, mas as famílias têm o direito de escolher. 

E é também, por isso, que é importante falar sobre a morte. Para que as pessoas possam falar sobre o que querem ou não no seu enterro. A morte nos pertence, todas as pessoas deveriam se apropriar da sua morte, do contrário, outras pessoas vão se apropriar dela e fazer coisas que nós não gostaríamos. 

Sobre as mensagens póstumas, elas podem ajudar os parentes durante o luto? E para idosos ou pessoas que têm doenças terminais gravar essas mensagens pode ser uma forma de lidar melhor com a morte?

É preciso cuidado porque nunca sabemos a mensagem que a pessoa pode deixar. Pode ser uma linda mensagem de amor ou uma mensagem de raiva. É preciso cuidado com o momento em que ela vai gravar isso. Deve ser feito com muito respeito e ética. 

Também é preciso pesquisar sobre os efeitos desse recurso, não sei se pode ajudar no processo de luto. Depende de como vai ser a relação de quem fica com essa mensagem. A ideia é que ao longo do tempo as pessoas se desfaçam dessas mensagens, deixar o morto ir embora. A dependência não é boa. 

Para quem grava a mensagem, pode ser bom pensar na própria morte, fazer de tudo para que ela ocorra da melhor forma possível, sem dor física ou psicológica. É o que eu digo sobre se apropriar da própria morte. 

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