Chuvas no Rio reavivam debate sobre remoção de favelas na cidade

Especialistas discordam sobre anúncio de Paes de que irá remover moradores do Morro dos Prazeres e do Bairro Laboriaux

07 Abril 2010 | 22h28

Wilson Tosta, da Sucursal Rio

 

RIO- Remover favelas, assunto tabu no Rio desde o governo Carlos Lacerda na Guanabara (1960-1965), voltou a dividir opiniões nesta quarta-feira, 7, depois que o prefeito Eduardo Paes (PMDB)anunciou a remoção total da favela do Morro dos Prazeres, em Santa Tereza, e do Bairro Laboriaux, na Rocinha.

 

Veja também:

linkPrefeitura do Rio terá que acelerar remoção de pessoas de áreas de risco

mais imagensImagens sobre o drama da chuva

especialAs áreas afetadas pela tragédia

blogDava para evitar a tragédia?

 

Para o coordenador geral do Observatório de Favelas, Jorge Luiz Barbosa, deve-se fazer o possível para, por meios técnicos, melhorar as condições de habitação nas comunidades pobres, só removendo moradores como último recurso, e mesmo assim para lugares próximos dos originais.

 

Já o presidente do Clube de Engenharia, Francis Bogossian, avalia que a prioridade deve ser a segurança, porque as construções em encostas, sob chuvas, ficam sob extremo risco de desabar.

 

"A remoção é sempre algo arbitrário", disse Barbosa. "Em situações como estas, de risco de vida, precisamos pensar não em remoção, mas em qualificar as habitações. Se não for possível ficar, que vão para lugares perto, para manter as relações de vizinhança e de parentesco e deixar as pessoas próximas dos seus locais de trabalho. E sempre negociando com a comunidade."

 

O coordenador-geral do Observatório declarou ainda que um eventual aproveitamento, por parte das autoridades, da tragédia do Rio para fazer remoções em massa seria "uma forma perversa" de transformar uma questão técnica e humanitária em "segregação".

 

"Vamos acompanhar isso e estaremos atentos", disse. "Vivemos um cenário completamente diferente do passado, quando apenas determinados pontos apresentavam risco e eram feitas remoções de áreas inteiras." Segundo ele, as condições atuais são totalmente diferentes dos anos 60. "Era uma ditadura, agora temos governos eleitos", disse.

Reavivam

Já Bogossian, que é engenheiro geotécnico, afirmou que as duas remoções anunciadas seriam "um presente para os menos desfavorecidos". "Eu não gostaria de morar lá", afirmou ele, referindo-se ao Laboriaux, onde, disse, "todos os moradores estão sujeitos a escorregamento".

 

O engenheiro explicou que, com a água, os parâmetros de resistência (atrito intragranular e atração intermolecular) da terra "caem a zero". "A água satura o solo, aumenta o peso e anula a resistência interna", explica.

 

Além da remoção, outra solução seria suavizar a encosta, por obras, mas isso é impossível. "Está tudo ocupado", disse. "O Morro dos Prazeres é um negócio de apavorar."

 

Segundo ele, se a construção estiver em cima da "rocha-mãe", não há perigo. "Agora, se o apoio for em cima de uma pedra fissurada, pode haver deslocamento. E, se for direto no solo, nessa situação, escorrega", disse.

 

Outro fator de aumento dos riscos de desabamento é a falta de esgoto e de recolhimento de lixo, o que aumenta a instabilidade. "O lixo entope as valetas por onde desceria a água", declarou.

 

Bogossian reconheceu que há resistências às remoções, porque as pessoas não sabem para onde iriam e temem ficar longe dos empregos, o que os levariam a gastar mais em transporte. "É preciso fazer a remoção para dentro da cidade, há vários locais que podem ser aproveitados", disse. "Sob ponto de vista de segurança, não tem dúvida que tem que remover."

 

A vereadora Andrea Gouvea Vieira (PSDB), que esteve no Bairro Laboriaux, também defendeu a remoção. Ela relatou que uma fenda, em todo o percurso do local, já causou desabamentos que levaram a duas mortes e podem gerar um acidente de grande proporção.

 

"É uma situação inaceitável, Aquilo está-se descolando, um pedaço do Laboriaux. Tem que haver uma evacuação urgente." Segundo ela, a lei é muito clara e protege quem está morando nos locais há mais de cinco anos. "É uma situação de risco e novas construções não podem ser feitas", disse ele, destacando que os ecolimites do local já foram superados.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.