Cidade de Deus desfaz cenário

Após visita de presidente dos EUA, lixo volta às ruas e comunidade retoma a rotina de problemas

Pedro Dantas / RIO, O Estado de S.Paulo

22 Março 2011 | 00h00

No dia seguinte à visita de Barack Obama, a Cidade de Deus retomou a rotina. O lixo está de volta às ruas e a favela volta a viver seus problemas, como a tensão entre moradores e policiais. Na Rua Israel, em frente à sede da Fundação da Infância e da Juventude (FIA), que recebeu a visita de Obama, o lixo voltou a se acumular na rua, para o desgosto do comerciante Edvaldo dos Santos, de 39 anos.

"Isso parece que nunca vai mudar. Já colocamos placas para sinalizar que não é o local certo para despejar o lixo, mas não adianta", lamentou Santos, que engrossa o coro dos otimistas sobre o futuro da Cidade de Deus. "Agora, os olhos do mundo estão voltados para a comunidade, porque recebemos o presidente americano", opinou ao lado do monte de sacolas com lixo orgânico, madeiras e plásticos.

Entre os vizinhos, que tentaram ver o homem mais poderoso do mundo durante a visita de 33 minutos, a decepção era grande. "Fiquei muito chateada. Limparam e pintaram tudo aqui e ele não veio brincar com as crianças que estavam na quadra", disse Janice Alves de Souza, de 42 anos. Moradora de uma pequena casa em frente a um rio assoreado pelo lixo e transformado em valão, ela sonha. "Dizem que muita coisa vai mudar. Falam que vão transformar a comunidade em um condomínio e fechar o valão. Aqui é um lugar nobre e chique. Não me sinto favelada. Somos vizinhos da Barra da Tijuca", afirmou referindo-se ao bairro dos ricos emergentes na zona oeste.

Enquanto o Serviço Secreto, o Exército e a Polícia Federal discutiam a segurança de Obama, o comandante das Unidades de Polícia Pacificadora, coronel Robson Rodrigues, passou a véspera da visita do presidente americano mergulhado em reuniões com líderes comunitários e policiais na favela.

Ele definiu os últimos ajustes para o uso de armas não letais (spray de pimenta, balas de borracha e granadas de luz e som) no policiamento da comunidade. As abordagens agora serão filmadas pelos policiais. As mudanças ocorreram depois que no carnaval um morador foi espancado e um grupo de policiais da UPP atirou para o alto durante o tumulto em uma festa na favela. A cena foi filmada por um fotógrafo que mora na comunidade e os policiais foram afastados.

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