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Clínica de saúde cobra preços populares em SP

Agencia Estado

27 Maio 2002 | 05h 43

Encravada no coração de Paraisópolis, uma mansão de 3 mil m2 funcionou durante seis meses - até março -- como o Centro Médico de Atendimento Primário, recebendo pessoas carentes e cobrando preços acessíveis. Depois de dois meses fechada, a clínica pode voltar - e com capacidade de atendimento mutiplicada. O centro foi idealizado por Beni Schmidt, de 45 anos, chefe do Ambulatório Neuromuscular e professor adjunto do Departamento de Anatomia Patológica da Escola Paulista de Medicina (Unifesp). Um projeto batizado de Isto É Saúde prevê a implementação de 48 clínicas médicas de atendimento primário, a preços populares - e, segundo Schmidt, praticando medicina de bom nível - em 48 regiões carentes da Grande São Paulo, que totalizam 3 milhões de pessoas. Quem está viabilizando o projeto junto a instituições econômicas e financeiras, que, no momento, ainda mantêm-se no anonimato, é a Full Jazz Comunidade, uma das empresas de marketing líderes do mercado, capitaneada por Christina Carvalho Pinto. "Observando os ambulatórios da Escola Paulista de Medicina e outros da rede pública, sempre me incomodou o fato de as pessoas carentes serem mal atendidas", explica Schmidt. "Assim, quando surgiu a possibilidade de montar um centro médico primário no meio de uma favela, não pensei duas vezes em aceitar o desafio." A clínica-piloto instalada na mansão - vazia e apartada do resto do Morumbi - custou R$ 200 mil. "Tirei o dinheiro do bolso para adequar a casa à nova função, comprar os aparelhos e inaugurar o Centro Médico de Atendimento Primário Benjamim Schmidt, em homenagem ao meu pai", relata. "Nesses seis meses, proporcionamos atendimento em clínica geral, neurologia, ortopedia, pediatria, ginecologia, diariamente, das 8h às 17h. Escolhi o corpo médico a dedo, dispensando os que não estavam dispostos a atender pacientes em uma favela e praticar uma medicina humanista", diz ele. A clínica dispunha de exames de laboratório e ultrassom. "No primeiro mês, consultas e exames eram gratuitos, mas não atingimos um número elevado de consultas, por causa do próprio aspecto cultural da pessoa carente. Conversando com os líderes da comunidade, a partir do segundo mês, começamos a onerar com preços populares tanto as consultas quanto os exames. Os honorários foram estipulados pela própria comunidade, que passou a aceitar bem a idéia do centro médico", revela. A clínica passou a cobrar, num caso de amidalite, por exemplo, cerca de R$ 25, compreendendo consulta, exames de laboratório, ultrassom e medicação. O centro dispunha também de um dispensário farmacêutico, praticando as chamadas "doses unitárias". Uma aspirina poderia custar por volta de R$ 0,2. "Pra que ter que comprar um vidro inteiro de remédio, quando uma ou duas pastilhas podem resolver o problema?" Quando o projeto original foi desativado em Paraisópolis, já que o proprietário do imóvel o pediu de volta, a população carente local sentiu-se desamparada. "Nos seis meses em que a clínica-piloto funcionou, o que mais ouvimos dos pacientes foi: ´Doutor, aqui nós nos sentimos gente´", relata Schmidt.

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