Com Collor, uma relação conturbada; com FHC, a mágoa

Itamar sentiu-se várias vezes desrespeitado como vice; em relação a FH, dizia que o tucano lhe devia a ascensão política

Rosa Costa e Eduardo Kattah, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2011 | 00h00

A trajetória política de Itamar Franco rendeu-lhe a fama de um homem de sorte,"virado pra lua", como diziam seus amigos. Mas o cenário era outro no ano de 1989, antes de ele concordar em ser vice do candidato do PRN à Presidência da República, Fernando Collor de Mello. Naquele ano, no final do mandato de senador, Itamar não tinha chance de se reeleger e tudo indicava que sua carreira política terminaria.

Itamar até se esforçou para ser o vice ideal. Mas seu relacionamento com Fernando Collor sempre foi difícil, em parte devido ao gênio difícil dos dois. Ainda na campanha presidencial, logo que alcançou a marca de candidato imbatível, Fernando Collor passou a se desfazer dele.

A crise chegou ao auge no lançamento do programa de governo, quando sua equipe simplesmente se esqueceu de avisar Itamar sobre a solenidade. Emburrado, Itamar Franco chegou ao local nos últimos minutos. No final do evento, disse a uma jornalista que estava renunciando. No dia seguinte, Itamar negou o que tinha dito e que estava na imprensa. Assessores de Collor contabilizaram aquela como sendo sua quinta renúncia.

Diante de uma relação tão conturbada, surpreendeu a declaração de Collor ontem no Twitter: "Itamar foi um companheiro inexcedível durante o período em que militamos juntos".

Este ano, com os dois no Senado, Collor tentou uma reaproximação. Itamar, porém, não demonstrava disposição para isso.

No mês de abril, por exemplo, o senador mineiro estava no cafezinho do Senado cercado por jornalistas, quando foi surpreendido pela iniciativa de Fernando Collor, de abraçá-lo. Itamar reagiu assustado, comentando, depois da saída de Collor do local, que não desejava proximidade.

"Traído". O sucesso do Plano Real impulsionaria a eleição de Fernando Henrique Cardoso, ministro da Fazenda de Itamar. Após a eleição de 1994, Itamar ganhou como prêmio as embaixadas brasileiras em Portugal e na Organização dos Estados Americanos (OEA), mas sonhava mesmo era em voltar ao Palácio do Planalto. Ele se sentiu traído quando o Congresso aprovou a reeleição e rompeu relações políticas com FH em 1998. Itamar acusou-o de interferir na convenção extraordinária do PMDB, que lhe tirou a chance de disputar a Presidência naquele ano.

Ao eleger-se governador de Minas, fez da oposição a Fernando Henrique seu lema, somada a atos espalhafatosos - como a operação militar contra a privatização de Furnas - e à frouxidão fiscal. Em 1999, Itamar decreta moratória da dívida de Minas com a União. O arroubo do ex-presidente provocou um abalo nos mercados financeiros internacionais, fazendo despencar as cotações dos títulos da dívida externa, num cenário que antecedeu a desvalorização do real.

Para ofuscar FHC, também flertou com o MST. Quase enviou tropas da PM para impedir a presença de soldados do Exército que protegiam as entradas da fazenda Córrego da Ponte, de familiares do tucano, em Buritis.

A dívida do governo mineiro com a União foi repactuada em 2000. O então governador foi obrigado a uma reconciliação com o Fernando Henrique. Após a costura de um acordo que previa a transferência da administração de estradas federais para o Estado, FHC foi recebido com tapete vermelho no Palácio da Liberdade. Em troca, garantiu repasse de recursos para o pagamento do 13.º. Em 2002, Itamar apoia Lula à Presidência.

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