''Com divisões, oposição prepara novo fracasso''

Para professor, partido que Kassab quer criar não sinaliza nada de novo e tucanos se perdem em disputas internas

Gabriel Manzano, O Estado de S.Paulo

06 Março 2011 | 00h00

ENTREVISTA

José Alvaro Moisés, cientista político

Existe espaço, sim, para um novo partido no País. Mas não é, necessariamente, aquele que o prefeito paulistano Gilberto Kassab (DEM) anuncia. "O que se viu em 2010 foi um amplo universo de gente que não quis PT nem PSDB e levou a eleição presidencial ao segundo turno", analisa o cientista político José Alvaro Moisés, da Universidade de São Paulo. "É um segmento urbano e mais informado, com muitos jovens, mas político nenhum parou para se perguntar o que isso significa."

Grande parte desse eleitorado é conservador "e não apareceu nenhuma liderança disposta a tomar conta dele", prossegue Moisés. Nesse cenário, o anunciado Partido Democrático Brasileiro (PDB) de Kassab "é só uma saída para contornar uma limitação legal. Ele já nasce velho".

O que preocupa de fato o professor, no quadro partidário, não são os partidos novos, mas o esvaziamento das oposições. "Elas faturaram 44 milhões de votos no 2.º turno presidencial, mas não aprenderam as lições da derrota de 2010."

Com o PSDB patinando em conflitos internos e o DEM num processo de esfacelamento, "se nada for feito os oposicionistas estarão preparando o cenário para um novo fracasso em 2014". E aí o problema, segundo ele, é do País. "Nossa democracia, para ser estável, precisa de uma oposição forte."

Há lugar, hoje, para o partido que Gilberto Kassab quer criar?

Lugar há. A leitura do que aconteceu nas eleições presidenciais deixa isso evidente. Os quase 20 milhões de votos em Marina Silva revelam uma multidão que busca outro modo de fazer política. Mas esse novo PDB de Kassab não sinaliza nada de novo para o eleitor. Vai apenas contornar um impedimento legal para que o prefeito deixe o DEM sem riscos de punição.

Aonde vão dar os movimentos, no DEM e no PSDB, de líderes como José Serra, Aécio Neves, Geraldo Alckmin e Kassab?

Hoje prevalece a estratégia: "em primeiro minha carreira, em segundo o partido, em terceiro o Brasil". Não faz sentido, três anos e meio antes, já moverem peças pensando em uma estratégia para 2014. Se a oposição não superar logo suas divisões, estará preparando o cenário para outro fracasso. E quem perde é o País, porque não existe democracia estável sem uma oposição competente.

Sem Lula, não poderia surgir uma nova correlação de forças?

O que vemos neste início de governo é uma aliança PT-PMDB funcionando direito. Eles divergem sem perder o controle dos fatos. Negociam suas diferenças, ampliam os espaços. Do outro lado estão o PSDB perdendo tempo com suas intrigas internas e o DEM se esfacelando.

Onde o PSDB está errando?

Suas posições não são claras para o eleitor. Afinal, o que o diferencia das políticas sociais e macroeconômicas da coalizão governista? Por que ele não consegue dizer que foi o governo FHC que iniciou as políticas econômicas que estão tendo sucesso no País? Por que se recusa a fazer primárias para escolher seu candidato? Como pode se autodenominar social-democracia e deixar de lado a aproximação com os sindicatos?

São "lições de casa" que o PT fez para crescer?

Sim, o PT aprendeu com as derrotas. E conseguiu se tornar um partido com raízes na sociedade.

Como fica o eleitorado conservador que se mostrou em 2010? Sem lideranças. Muitos líderes do conservadorismo evitam definir sua identidade temendo serem classificados de "reacionários". O fato é que os conservadores, desde o regime militar, não enfrentaram a questão das desigualdades e as visões da esquerda se tornaram hegemônicas. Mas uma boa avaliação da história mostra que só em parte isso é procedente. Vargas, o "pai dos pobres", por exemplo, foi um líder do establishment que adotou políticas sociais de algum alcance em seu tempo.

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