Com visita, Dilma tenta reverter fase ruim

Após episódios turbulentos na relação com a Igreja, governo federal busca se aproximar do eleitorado católico e desviar foco do noticiário

Rafael Moraes Moura / BRASÍLIA,

20 Julho 2013 | 17h14

Se tudo der certo, a visita do papa Francisco será um presente para a presidente Dilma Rousseff. Em momento crucial de seu governo, que se vê confrontado com queda de avaliação, protestos nas ruas, tensões na base aliada e pessimismo na economia, Dilma aposta na vinda do pontífice para se reaproximar do eleitorado católico, capitalizar politicamente a Jornada Mundial da Juventude e desviar o foco do noticiário nacional. 

 

Além das orações, a missa em Guaratiba, no dia 28, vai marcar a volta de Dilma às multidões, após a vaia na Copa das Confederações, em junho. 

 

Dilma vai se encontrar com o papa em ao menos três ocasiões: na recepção na base aérea do Galeão, amanhã; no Palácio Guanabara, com discursos dos dois; e domingo, na missa em Guaratiba, para a qual foram convidadas dez autoridades da América do Sul (a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, confirmou que vai). 

 

O governo tentou dar à visita um caráter oficial, com uma ida a Brasília, mas, diante das resistências do Vaticano, se contentou com uma “visita pastoral”. 

 

Dilma vai aproveitar o evento no Palácio Guanabara para ter uma audiência reservada com o papa. A reunião será aberta posteriormente para os familiares da presidente, como a filha, Paula, e o neto, Gabriel. A presidente não é católica praticante, mas tem sua “referência de fé”. Tem no gabinete três imagens de Nossa Senhora Aparecida. 

 

“O Brasil vai ser durante sete dias o centro das atenções em boa parte do mundo, vem para cá uma energia extremamente positiva”, disse ao Estado o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho.

 

Relação. Dilma e a Igreja têm uma relação pontuada por turbulências. Em fevereiro, a presidente foi criticada pela demora em se pronunciar sobre a renúncia de Bento XVI. O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Raymundo Damasceno Assis, falou que seria de “bom tom” que ela se pronunciasse. “Ao findar o seu papado, manifesto o meu respeito pela decisão de Vossa Santidade de renúncia”, informava a curta nota, 17 dias depois do anúncio. 

 

Mais efusiva, a presidente comentou em março a eleição de Francisco: “Esta visita, em um período tão curto após a escolha do novo pontífice, fortalece as tradições religiosas brasileiras e reforça os laços que ligam o Brasil ao Vaticano.” Depois, a presidente e uma extensa comitiva foram ao Vaticano para a missa inaugural do papa.

 

Eleitor. O Palácio do Planalto sabe da influência do eleitorado católico - vide a reação, nas eleições de 2010, à posição da então candidata sobre aborto. Pressionada, Dilma assinou carta em que dizia ser pessoalmente contra a prática e a favor da manutenção da lei sobre o assunto. 

 

O tema voltou em fevereiro de 2012, ao indicar Eleonora Menicucci para a Secretaria de Políticas para as Mulheres, que havia defendido a descriminalização do aborto.

 

Na avaliação do professor da Universidade de Brasília (UnB) e doutor em Filosofia da Religião Agnaldo Portugal, a visita do papa ocorre em um momento oportuno, quando os poderes políticos e a legitimidade daqueles que os exercem são fortemente questionados no Brasil. “Mesmo que não haja essa intenção, a visita do papa pode trazer consequências políticas.”

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