Silvia Izquierdo/AP
Silvia Izquierdo/AP

Como a igreja Word of Faith Fellowship entrou no Brasil e cresceu

Seita começou atividades no País com missionário americano em MG; estratégia foi isolar os frequentadores do resto do mundo

Peter Prengaman, Mitch Weiss e Holbrook Mohr, Associated Press

25 Julho 2017 | 15h31

FRANCO DA ROCHA E SÃO JOAQUIM DE BICAS - Foi com John Martin, um missionário americano que se casou com uma brasileira no final da década de 1970, que a Word of Faith Fellowship chegou ao Brasil. Ele foi pastor em uma igreja batista próximo a Belo Horizonte. Os ex-membros afirmam que Martin conheceu Sam Whaley em um avião em 1986, iniciando uma relação que levou o casal Whaley e outros ministros de Spindale, na Carolina do Norte, a visitarem a igreja de Martin.

Martin fundou a Verbo Vivo em Belo Horizonte em 1987 e, gradualmente, ano a ano, os americanos tomaram o controle do grupo, segundo os ex-membros.

Em 2005, Martin mudou sua igreja para São Joaquim de Bicas, uma pequena cidade a cerca de 45 minutos da capital mineira. Naquele mesmo ano, dezenas de famílias da igreja se mudaram para um terreno em Betim, outro município da Grande Belo Horizonte. Os ex-membros dizem que o plano era claro: isolar o rebanho do mundo.

As crianças frequentavam a escola nas terras da igreja - uma propriedade protegida por uma cerca de 2,5 metros de altura com arame farpado por cima. Elas voltavam para casa em um bairro fechado por um portão e uma cerca também de 2,5 metros.

Os adultos tinham pouco contato com o mundo exterior, apenas iam ao trabalho e voltavam direto para casa na comunidade. Alguns ex-membros continuam vivendo no local, como a família de Juliana Oliveira. 

Integrantes atuais e antigos passam uns pelos outros diariamente sem se falarem.

Franco da Rocha

Cerca de 580 quilômetros ao sul, uma transformação parecida aconteceu. Ex-membros dizem que o casal de pastores evangélicos Solange Granieri e Juarez de Souza Oliveira conheceu os Whaley em uma conferência religiosa em São Paulo em meados dos anos 1980.

Em 1988, Juarez Oliveira abriu o Ministério Evangélico Comunidade Rhema, que inclui uma igreja e uma escola em Franco da Rocha, na região metropolitana de São Paulo.

Assim como em São Joaquim de Bicas, os integrantes na segunda comunidade eram estimulados a comprar terrenos em uma área remota fora da cidade, segundo ex-membros. Em ambos os locais, havia ênfase em construir comunidades fechadas assim como as da seita original na Carolina do Norte.

Em 2009, quase duas décadas depois da fundação de Verbo Vivo, o tratamento cada vez mais severo e as regras rigorosas impostas pelos americanos levaram a uma revolta de dezenas de integrantes em São Joaquim de Bicas.

Dois pastores brasileiros deixaram a seita e disseram na TV que Martin e outros ministros americanos visitantes faziam “lavagem cerebral” para controlar os integrantes seguindo ordens de Whaley.

Essas saídas criaram uma ruptura tão grande - e levou a tantas queixas - que o comitê de direitos humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais teve de realizar audiências.

Abusos e agressões

Duas dezenas de ex-membros testemunharam sobre abusos, indo do isolamento forçado até chacoalhões a agressões nas missas e na escola da igreja. Ex-estudantes afirmaram terem sido espancados com colheres de madeira. Eles também ouviram gritos por longos períodos diante dos colegas de classe.

Andre Gustavo Morais de Oliveira, que não é parente dos outros Oliveiras, afirmou ter sido levado a Spindale quatro vezes quando adolescente, começando aos 13 anos de idade. Ele disse que não trabalhou durante a primeira viagem de 27 dias e apenas passou os dias orando e aprendendo a doutrina da igreja.

“Nas viagens seguintes, fui obrigado a trabalhar como pintor, jardineiro, tudo para o bem da seita”, ele afirmou na audiência. 

Contatado pela AP, Morais de Oliveira confirmou seu testemunho, mas não quis ser entrevistado.

Pais também testemunharam que seus filhos foram enviados aos Estados Unidos e doutrinados ao ponto de se voltarem contra suas famílias.

Eduardo Gonzaga, um dos pastores que deixaram a igreja, disse que seu filho de 19 anos e sua filha de 22 tinham cortado o contato após a viagem à Carolina do Norte.

“Pai, não tente falar mais conosco”, disseram eles, segundo Gonzaga, em um telefonema de Spindale no Dia dos Pais. Toda comunicação a partir dali deveria ser feita por meio dos líderes da igreja em Spindale, ele afirma ter ouvido.

Gonzaga declarou que tentou contato com os filhos repetidamente e até viajou para Spindale. Como eles já são adultos, as autoridades americanas não interviriam.

As audiências no Brasil criaram tensão, mas no fim ninguém foi denunciado. Grande parte dos abusos se resumiram à palavra dos ex-membros contra a dos dirigentes da seita, assim como aconteceu nas investigações sobre a matriz da Carolina do Norte que acabaram paralisadas ao longo das décadas.

Martin, o pastor líder, negou as acusações e chamou as regras disciplinares de “orientações, e não proibições”, conforme a imprensa da época noticiou. Ele se recusou fazer novos comentários para a AP.

As turbulências levaram pelo menos a uma mudança: ex-membros afirmam que houve uma queda acentuada no número de membros da seita de Martin, de cerca de 600 para 300.

Apesar de o grupo de Franco da Rocha não ter sofrido o mesmo conflito interno, os membros que saíram nos últimos anos estimam que o número de integrantes caiu de 700 há uma década para 250 agora.

Naara Abe, de 51 anos, integrante da igreja de Franco da Rocha por 25, disse que as mudanças drásticas na igreja fizeram que ela desejasse sair uma década atrás, mas ela afirma só ter criado coragem no ano passado.

Seu ponto final foi uma conversa com Jane Whaley sobre seu filho adolescente, que gostava de uma membro da seita, mas não podia conversar com ela por causa da rígida separação de gênero. Se fosse uma boa mãe, disse Whaley a Naara, o filho seria punido.

Naara vive cheia de arrependimento - dos aniversários não comemorados porque a igreja proibia até a extrema tensão no seu casamento. Seu marido, que também frequentava a seita havia muito tempo, tinha dúvidas sobre a igreja e passou anos dizendo que eles deveriam sair.

“Pouco a pouco, a igreja faz com que você faça mais coisas, coisas sutis que você não chega a notar”, disse Naara, citando o corte de contato com amigos que não são membros. “Aí, você é como um animal enjaulado que não sabe mais como é viver fora.” /COLABOROU SARAH DILORENZO

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