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Corrupção é entrave contra crime

Bárbara Bretanha

27 Maio 2014 | 18h 01

Limpeza na polícia é uma das principais tarefas para reduzir a violência urbana e aumentar a segurança nas ruas brasileiras

SÃO PAULO - A corrupção na polícia é apontada como um dos entraves para combater a criminalidade. Países que investiram na estratégia de limpar a polícia, como Estados Unidos e Colômbia, chegaram a bons resultados. No ano passado, Nova York, por exemplo, alcançou o mais baixo índice de homicídios já registrado na cidade desde 1965. Foram 333 mortes. Em 1990, o número chegava a ser nove vezes maior, quase 3 mil.

No caso americano, a melhora é atribuída a uma mudança no plano de segurança pública, que contou com sete novas diretrizes, entre elas, a limpeza da polícia. Em 1995, foi criada a Comissão de Combate à Corrupção Policial, órgão independente, que monitora os programas e atividades anticorrupção do departamento.

Houve também uma espécie de cruzada educacional e foi instaurada uma política de tolerância zero de desvios funcionais por parte da corregedoria. Funciona assim: o policial que comete um deslize menor, como aceitar um almoço, recebe uma advertência na primeira vez. Na segunda vez é demitido.

Já na Colômbia, as autoridades também criaram, em 1991, um órgão para o monitoramento da segurança pública, a Fiscalía General de la Nación. Após a morte do narcotraficante Pablo Escobar, diversos membros da Polícia Nacional – a força policial unificada do país – foram demitidos. Os integrantes remanescentes receberam aumentos salariais e a formação do policial foi valorizada com um plano de carreira.

“A principal medida foi a legislação se adequar às mudanças necessárias de maneira estruturada”, afirma José Maria Beltrame, secretário de Segurança do Rio.

No Brasil, a Pesquisa Nacional de Vitimização de 2013, encomendada pelo Ministério da Justiça, aponta que, dos 78 mil entrevistados, 2,6% foram vítimas de extorsão por policiais militares e 0,8% por policiais civis. Além disso, mais da metade acredita que os PMs fazem vista grossa à desonestidade dos colegas e 33,2% temem serem extorquidos por eles. O índice é maior que o medo de sequestro, agressão sexual, ou de ter o carro roubado.

“O salário baixo e condições de trabalho ruins criam facilidades para a corrupção”, diz coronel José Vicente da Silva Filho, ex-comandante da Polícia Militar de São Paulo, e ex-secretário nacional de Segurança. “Investir na seleção e formação dos policiais, com supervisão constante, e em campanhas de incentivo para que a população denuncie são políticas que ajudam na mudança de valores da corporação.” Para o coronel, sem investimento, decisão política e envolvimento de todos os setores da sociedade não há mudança quando se trata de segurança pública. “Não vejo no Brasil prioridade no combate à corrupção.”

Rio. Há um desejo de mudança da realidade policial na própria corporação. No Rio, dois protestos levaram policiais às ruas esse mês. Cerca de 100 agentes, escrivães e papiloscopistas se reuniram em frente ao Museu de Arte do Rio (MAR), na Praça Mauá, região do porto, para reivindicar melhores salários, no início do mês. Onze dias depois, policiais federais saíram em marcha pela Avenida Atlântica, em Copacabana, em ato contra a corrupção. Os manifestantes pediam ainda uma reforma na segurança pública. E prometeram interromper as atividades durante a Copa.