Crimes levam medo à pacata Analândia

Cidade turística no interior paulista vive clima de faroeste após assassinato de vereador e atentados a adversários de ex-prefeito

José Maria Tomazela / TEXTO e JF Diorio / FOTOS, O Estado de S.Paulo

24 Outubro 2010 | 00h00

Ameaças, agressões, execução com tiros à queima-roupa e uma população assustada. O cenário de faroeste não está nos confins da Amazônia, mas em Analândia, cidadezinha turística localizada entre Campinas e Ribeirão Preto, a região mais desenvolvida de São Paulo, a 247 km da capital. Basta cruzar o portal de madeira e adentrar a área urbana de aparência pacata para sentir o clima de discórdia que envolve boa parte dos 4.471 moradores. No portão de ferro da casa número 350 da Rua Três, cartazes grafados à mão pedem justiça: "Mais uma vítima. Cadê os Assassinos?" e "Quem matou Nalin? Calaram a voz de um homem, mas não a de um povo", ou "Analândia quer justiça!"

Os cartazes foram pregados após a missa de sétimo dia pela morte do vereador Evaldo José Nalin (PSDB), de 49 anos, executado com sete tiros ali, no último dia 10. Nalin era também escrivão da Polícia Civil. Naquele sábado, por volta das 22 horas, ele via TV, esticado no sofá da sala de estar, ao lado da esposa Kátia. Os três filhos do casal estavam na praça ao lado. O vereador tinha o hábito de deixar a porta apenas encostada - era comum ser procurado por munícipes em casa, fora do expediente na Câmara. Os dois homens chegaram numa moto, entraram sem tirar o capacete e foram atirando. Um deles gritou para Kátia: "Fica na sua, não é com você." A maioria das balas atingiu a cabeça da vítima. Testemunhas viram os atiradores fugindo em direção à Rodovia Washington Luís. A polícia montou um cerco, mas ninguém foi preso. Kátia e os filhos foram embora e a casa permanece vazia.

Na cidade só se fala em crime político. Em abril deste ano, o vereador havia protocolado no Ministério Público de Itirapina denúncia de possível fraude em concurso da prefeitura para contratar 45 servidores. Entre os aprovados estão dois vereadores e o filho de um terceiro, todos da base de apoio à administração. "Um deles não consegue redigir um requerimento, no entanto teve nota máxima em português", afirma o vereador Rodrigo Balerini (PMDB), também da oposição. Nalin também denunciara um aumento excessivo no IPTU e desvio de R$ 300 mil na obra de uma avenida.

Dias antes de morrer, Nalin anunciou que entregaria ao Ministério Público uma relação com mais de 100 eleitores transferidos de forma irregular para Analândia. A cidade tem 331 eleitores a mais que o total de habitantes, segundo o Superior Tribunal Eleitoral (TSE). Por si só, isso não configura fraude. Ocorre que Nalin tinha descoberto que muitas transferências foram feitas com base em endereços falsos - a prova disso seriam contas de água fictícias.

Após a morte do colega, Balerini decidiu pedir proteção policial. "Já deram tiros na caixa d"água do meu hotel, retalharam a cerca da minha propriedade rural e botaram fogo no pasto."

Ameaças. Outros vereadores também se sentem ameaçados. Na segunda-feira, uma bomba caseira explodiu sob a janela da sala em que estava trabalhando, na Casa de Agricultura, o presidente da Câmara, Leandro Eduardo Santarpio (DEM). Ele é da oposição e acha que "o outro lado" quer intimidá-lo, pois também recebeu telefonemas com ameaças.

Na sessão da Câmara do dia 25 de agosto, o ex-prefeito e atual chefe de gabinete José Roberto Perin ameaçou com gestos o vereador. No dia seguinte, transferiu a mulher de Nalin, que é servidora municipal concursada. Beto Perin, como é conhecido, foi prefeito três vezes em Analândia e, na última eleição, lançou e elegeu um sobrinho, o atual prefeito Luiz Garbuio (DEM). A oposição diz que o chefe de gabinete continua "prefeito de fato" e o acusa de nepotismo. Duas irmãs dele são secretárias do prefeito e um irmão comanda a academia municipal de educação física. Uma cunhada é chefe da creche, outra administra a Unidade Básica de Saúde.

Os familiares têm salários bem acima da média, segundo a Organização Não-Governamental Associação Amigos de Analândia (Amasa) - que vem denunciando o que considera irregular na administração. A ex-presidente Sonia Maria Dotta foi obrigada a renunciar depois de receber ameaças e de ter sua casa apedrejada. No inquérito aberto pela Polícia Civil, ela conta que, naquele dia, foi abordada por Perin. Ele a teria mandado sumir de Analândia, senão sumiria com ela, conforme consta da denúncia.

A ex-prefeita Antonia Sodelli Graber, outra integrante da ONG, contou que também foi ameaçada pelo chefe de gabinete. Em poucos dias, ela foi vítima de três incidentes: sua casa foi invadida e revirada, seu carro, um EcoSport 2010, teve a pintura corroída por ácido e, numa noite, alguém tentou arrombar, com estrondo, o portão da frente. O presidente da ONG, Vanderlei Vivaldini Júnior, também representou contra um assessor de Perin que teria tentado atropelá-lo com o carro, em março. O inquérito está em andamento. Depois do assassinato do vereador, ele recebeu um telefonema alertando-o para se cuidar, pois seria o próximo.

A Amasa levou à polícia uma faxineira que teria sido contratada para o cargo de coordenadora do meio ambiente, com salário de R$ 2 mil. A mulher, no entanto, recebia R$ 550. Quando Nalin começou a investigar a possível existência de funcionários fantasmas, ela foi tirada da varrição de rua e colocada para trabalhar num computador. Como não sabia nem ligar o equipamento, foi obrigada a assinar uma advertência e procurou o vereador. Ele se preparava para denunciar o caso quando foi morto.

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