BRUNO KELLY / ESTADAO
BRUNO KELLY / ESTADAO

Crise persiste nas penitenciárias, com avanço das facções e violência nas ruas

Um ano após as chacinas que vitimaram mais de uma centena de presos, a realidade das cadeias ainda é marcada pela precariedade. Organizações criminosas estendem a atuação pelo território, com confrontos mais frequentes fora dos presídios

Marco Antônio Carvalho, Enviado especial

29 Dezembro 2017 | 22h00

MANAUS, BOA VISTA, NATAL E SÃO PAULO - A morte de 119 pessoas em um intervalo de duas semanas, em massacres em cadeias de três Estados, não foi suficiente para que o sistema penitenciário passasse por um choque de gestão. Um ano depois dos assassinatos marcados pela crueldade, com decapitações e esquartejamentos, a superlotação e as condições precárias ainda são uma realidade quase intocada nos presídios, em meio ao fortalecimento das facções e uma violência que avança nas ruas de Manaus, Boa Vista e Natal.

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Das investigações referentes aos três massacres, somente em um dos casos houve apresentação de denúncia criminal. Em Manaus, 213 pessoas responderão na Justiça pelo homicídio triplamente qualificado de 56 presos. Em Boa Vista, o inquérito corre sob segredo e ainda não foi finalizado, assim como em Natal, onde a Penitenciária de Alcaçuz, palco do massacre, tem hoje o dobro de presos que tinha em janeiro passado.

Maria Laura Canineu, diretora do escritório brasileiro da Human Rights Watch, observatório de direitos humanos, ponderou que um ano não é tempo suficiente para realizar as medidas necessárias contra um problema histórico. Por outro lado, disse que o senso de urgência que mobilizou órgãos governamentais nos primeiros meses parece ter se arrefecido. “A urgência que o problema demanda não permaneceu após os primeiros meses e parece que o tema já saiu um pouco do cenário. Questões centrais foram deixadas de lado e as promessas acabaram não sendo completamente implementadas”, diz.

Para ela, a infraestrutura das penitenciárias está ligada à força das facções. “Onde não há Estado, estão as facções. Onde há negligência e maior descontrole, há mais força das facções. A superlotação está ligada ao massacre. O problema é crônico e existe em diferentes Estados, geridoss por diferentes partidos, em que prevalece uma situação semelhante de absoluta precariedade”, acrescenta.

Relatório elaborado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e divulgado em dezembro constatou que ao longo do ano unidades prisionais de 11 Estados registraram rebeliões entre outubro de 2016 e maio de 2017. Em 78% dos casos, a rebelião aconteceu em uma cadeia com superlotação. Mesmo com esse cenário, mais de R$ 1 bilhão liberado pelo Fundo Penitenciário (Funpen) aos Estados só tiveram 3% gastos em mais de 12 meses, como mostrou o Estado na semana passada.

Lembranças. As famílias ainda aguardam as indenizações prometidas, com poucos casos vitoriosos na Justiça, enquanto convivem com o medo e a lembrança marcada pela imagens dos mortos distribuídas pela WhatsApp. Do filho, Joniarlison Feitosa dos Santos, o que a doméstica Divaneide de Jesus Feitosa, de 52 anos, mais se recorda é o amor dele pelo Flamengo, do respeito com os pais ao pedir diariamente a benção ao vê-los, e as demonstrações de carinho.

O segundo mais novo dos sete filhos de Divaneide ainda tem o quarto intacto na casa de madeira, no bairro de Cidade Nova, um dos mais populosos de Manaus, na zona norte. Santos estava preso no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) há um ano, cumprindo uma condenação de oito anos por tráfico de drogas. A mãe se lembra do dia que começou na madrugada, com a entrada da Polícia Militar na sua casa para pegá-lo. Com ele, não encontraram nada, mas o acusaram de formar uma quadrilha para vender drogas. No celular, Divaneide guarda a foto da apresentação que a polícia fez, com as trouxinhas de maconha sobre a mesa de uma delegacia.

Ela nega que o filho pertencesse ao Primeiro Comando da Capital (PCC), alvo principal dos integrantes da Família do Norte (FDN) naquele 1.º de janeiro em que a ala de segurança do Compaj foi invadida, deixando mortos 22 dos 26 detentos; quatro se esconderam em buraco que serviria para uma fuga de emergência, mas que não foi concluído a tempo - no total, 56 morreram naquele dia e outros quatro na semana seguinte em uma unidade para a qual haviam sido transferidos buscando proteção.

“Bateram demais no meu filho. Quem mandou fazer isso não tem pai nem mãe. Ele podia ter feito algo errado, mas estava pagando por isso. Não tinha nenhuma morte, não fazia parte de nenhuma facção”, lamenta a doméstica, chorando sentada à mesa da sala com a neta de 1 ano e 7 meses no colo. A filha de Joniarlison nasceu um semestre antes da morte do jovem e foi para comprar roupas e brinquedos para ela que Divaneide sentou-se novamente na frente da máquina de costura, hábito que havia abandonado desde a data do massacre.

O pai, o pedreiro Manoel de Souza, de 65 anos, diz que o tráfico que persiste na vizinhança ficou assustado com o massacre e agora evitar se denominar do PCC. “O que andam falando é que na virada deste ano vai acontecer tudo aquilo de novo”, diz. A família diz não acompanhar os desdobramentos da investigação, que poderá levar ao maior júri popular já visto no Amazonas. “Eles podem pegar mil anos de prisão, mas meu filho não volta mais. Deus vai cobrar”, desabafa Divaneide.

Tensão. Nas ruas de Manaus, a tensão permanece. Na noite da terça-feira, 12 de dezembro, homens armados chegaram a um campo de futebol no bairro da Compensa, conhecido reduto da FDN, e abriram fogo, matando seis pessoas e ferindo outras nove. A Secretaria da Segurança diz que um dos clubes, o T5 Jamaica, era mantido por membros de uma organização criminosa e “as investigações apuram se as mortes decorrem de um racha interno do grupo, de uma disputa entre facções rivais pelo controle do tráfico de drogas ou de retaliações por outros homicídios praticados na cidade”. A polícia já acredita num racha dentro da FDN. Uma pessoa foi presa.

Em 2017, com dados até outubro, o Estado já ultrapassou os registros de homicídio em todo o ano passado: em 2016, foram 801 e neste ano, 815. Os crimes cometidos com crueldade continuam sendo a marca da disputa entre as facções. “As facções procuram fazer execuções emblemáticas, usando esse tipo de violência para aterrorizar os oponentes. Mas isso não é de hoje", disse em nota o titular da Delegacia de Homicídios e Sequestros, delegado Juan Valério. "Mortes com demonstrações claras de tortura, o que é um modo que as facções têm de tentar impor seu poder entre os integrantes adversários e até mesmo entre membros internos que atuam sem o consentimento da liderança criminosa.”

Em Boa Vista, na sexta-feira, 8 de dezembro, um assassinato estampava a manchete de um dos jornais locais: “Após sequestrar mulher, bandidos assassinam jovem de facção rival”. Os criminosos se apresentaram como integrantes do PCC e perseguiram um jovem de 23 anos, identificado como David da Silva Oliveira, supostamente integrante do Comando Vermelho (CV), matando-o na Rua Maria Martins no bairro Jardim Equatorial. Foi a rixa entre essas facções que levou o PCC a reagir, menos de uma semana depois do massacre em Manaus, e revidar com 33 mortes na Penitenciária Agrícola do Monte Cristo, em Boa Vista, no dia 6 de janeiro.

Crescimento. O procurador Márcio Sérgio Christino, do Ministério Público de São Paulo, diz que o conflito no começo do ano serviu para demonstrar o tamanho das facções, cujo tamanho até aquele momento “não tinha sido percebido”. “Essa foi a grande lição. Percebemos o quanto as facções cresceram e hoje estão espalhadas pelo Brasil inteiro com uma força muito grande”, diz.

Ele alerta para a continuidade da expansão das facções, apesar da relativa calmaria notada após os massacres de janeiro. “Os massacres foram demonstrações de força que até então era insuspeita. Mas o final das rebeliões não significa que as facções desistiram, mas, sim, que aquela forma de conflito se esgotou no momento.” Christino, quando promotor, investigou a formação do PCC no Estado de São Paulo. Hoje, ele acredita que a conscientização sobre a capilaridade dessas organizações criminosas tenha levado a uma articulação mais efetiva entre as forças de segurança, desembocando em operações mais precisamente executadas contra os criminosos.

Ao longo de 2017, a expansão das facções foi notada até em Estados onde historicamente as organizações não exerciam muita influência. De acordo com informações do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de Goiás, a quantidade de membros batizados pelo PCC saltou de menos de cem para mais de 500, segundo investigação da polícia e do MP. Uma operação conjunta deflagrada em dezembro prendeu 87 pessoa sob acusação de integrarem a organização criminosa.

“É um tipo de criminalidade que o Brasil não estava preparado para combater, diante da vulnerabilidade dos presídios, em que celulares continuam entrando e o comando do tráfico de drogas permanece na mão dos presos. Enquanto isso existir, associado ao modelo de visitas e contato com advogados implementado atualmente, o combate será mais difícil”, informou o Gaeco goiano. “São necessárias alterações legislativas.”

A operação deflagrada em dezembro encontrou R$ 85 mil em espécie no interior do presídio de Anápolis. Segundo o grupo, o modo de atuação dos membros do PCC em Goiás copia o formato paulista, já implementado em diversos outros Estados: “funciona da mesma forma. Quem está fora sustenta quem está dentro. E quem está dentro é que controla o tráfico”. “Hoje, todos os Estados possuem peculiaridades que interessam às facções, seja pela proximidade com as fronteiras, seja pela rota. Eles não estão mais escolhendo.”

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Análise: Em questão penal, Estado brasileiro é uma tragédia permanente

Especialistas criticam articulação de políticas para sanar problemas do sistema penitenciário, reforçando que, um ano após massacres, a tragédia continua se repetindo cotidianamente

Valdirene Daufemback e Felipe Athayde Lins de Melo, O Estado de S.Paulo

29 Dezembro 2017 | 22h00

A virada do ano se aproxima e com ela um triste aniversário: completaremos um ano dos mais recentes lampejos de visibilidade da tragédia prisional brasileira, visibilidade provocada pelos massacres de Manaus, de Roraima e do Rio Grande do Norte.  Infelizmente, as tristes cenas transmitidas pelas emissoras de TV e redes sociais em nada modificaram a condição do Estado: reincidente em soluções equivocadas, reincidente em ações reativas e superficiais, reincidente em se preocupar com a imagem das “autoridades” e não com os grupos vitimados. O Estado brasileiro é, em questão penal, uma tragédia permanente. Sem desconsiderar os esforços e as iniciativas bem-intencionadas, é evidente que a coragem para sair do ciclo vicioso da repressão-violência não apareceu. 

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Em Manaus, desde 2016 relatórios do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (MNPCT) e da Ouvidoria Nacional de Serviços Penais (OSPEN), em conjunto com o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP), já destacavam a necessidade de adotar “outro modelo de gestão prisional que não coloque a Secretaria do Estado refém de serviços privatizados, garantindo e prezando, sempre, pela transparência da informação acerca dos contratos firmados” e “assistência judiciária nas unidades penitenciárias do Estado prestada pela Defensoria Pública do Estado”. Passado um ano, o que vimos foi um movimento do Tribunal de Justiça e do Ministério Público de aumentar o número de juízes e promotores na execução penal e melhorar as condições administrativas, concurso de agentes penitenciários em andamento e a renovação do contrato de terceirização com a empresa Umanizzare, que recebe, em média, 80% do orçamento da Secretaria Estadual de Administração Penitenciária.

No caso de Roraima, a Penitenciária Agrícola do Monte Cristo (PAMC) já era objeto de análise de instituições nacionais e internacionais desde, pelo menos, fevereiro de 2014, quando recebeu medidas Cautelares, pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Em junho daquele ano, a OSPEN e o CNPCP, acompanhados da Ouvidoria da Secretaria de Direitos Humanos (SDH) e Ouvidoria da FUNAI, realizaram inspeção nos estabelecimentos prisionais do estado, evidenciando graves restrições na estrutura administrativa da Secretaria de Justiça e nas unidades prisionais, em especial alimentação insuficiente e de má qualidade, espaços de favelização, ausência de assistência à saúde e assistência social, precariedade no acesso à justiça, dificuldades de manter a rotina administrativa, escassos recursos, desinformação sobre as pessoas presas, maus tratos, entre outros fatores. Em outubro de 2014 a resposta dada pelo Estado foi a presença da Força Nacional da Segurança. Com relação às 47 medidas pactuadas, em 2015, entre Governo Federal, Governo do Estado e demais poderes, pouca avanço consistente.

No Rio Grande do Norte, há uma grave recorrência de crises, mortos e descaso, sempre combinados das mesmas respostas: investimentos em reformas, seguidos do aumento no número de presos; mais restrições de direitos dos presos e quase nenhuma efetivação de compromissos outrora assumidos, como implantação do serviços de alternativas penais e de monitoração eletrônica, entrega e funcionamento da Cadeia Pública de Ceará-Mirim (em andamento desde 2012), criação de um programa de capacitação para além de destreza no uso de armas e táticas de intervenção e implantação de um serviço de saúde para pessoas presas. De forma silenciosa, no decorrer de 2015, foram registradas mais de 60 mortes no sistema prisional do estado.

Nesses três casos, ocorreu o emprego da Força Nacional de Segurança Pública e, no RN, da recém-criada Força Nacional Penitenciária. Para todos os estados havia recomendações de controle de armamento e uso de munição que não foram implantadas. No Rio Grande do Norte e Roraima há indícios de desaparecimento forçado de presos com baixíssimo empenho em apuração dos fatos, reparação e medidas de não repetição. Não se cogitou discutir o modelo de gestão, o perfil profissiográfico, as carrreiras profissionais e programas de qualidade de vida para servidores. Nenhuma grande diferença se fez na articulação de políticas públicas intersetoriais. Investiram (e mal) em equipamentos e paredes, não em pessoas. A tragédia continua se repetindo na vida de presos, familiares e funcionários, todos os dias.

*Melo é consultor do PNUD e pesquisador do Laboratório de Gestão de Políticas Penais da UnB (LabGEPEN) e Valdirene é pesquisadora do LabGEPEN, foi ouvidora e diretora do Departamento Penitenciário Nacional (Depen).

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Inquérito que apura matança em Alcaçuz enfrenta entraves

Investigação da morte de 26 presos pode resultar em arquivamento caso a polícia não encontre provas dos assassinatos; 111 detentos chegaram a ser indiciados

Ricardo Araújo, Especial para o Estado

29 Dezembro 2017 | 22h00

NATAL - "Vai fazer um ano, dia 14 de janeiro de 2018, que degolaram meu marido". Jonas Victor de Barros Neto, que cumpria pena no Pavilhão 4 da Penitenciária Estadual de Alcaçuz, havia completado 39 anos poucos dias antes de ser brutalmente assassinado na maior chacina já registrada no Sistema Penitenciário do Rio Grande do Norte. Naquele dia de janeiro e por outros 14 seguintes, o duelo entre membros de facções rivais - Primeiro Comando da Capital (PCC) e Sindicato do Crime - deixou um complexo prisional destruído, saldo oficial de 26 detentos mortos - a maioria por degola - e expôs a fragilidade da Segurança Pública potiguar. 

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Aos 50 anos, a dona de casa Maria José de Souza, moradora da periferia de Natal, fala do companheiro com o qual dividiu 14 anos de vida com emoção. Relembrar como ele foi morto e, principalmente, como a família descobriu o homicídio, desperta um turbilhão de emoções. "Meu filho, eu reconheci meu marido pela televisão. O corpo dele em cima da fossa, sem cabeça. Ele tinha uma tatuagem no braço que todos nós reconhecemos. Eu recebi fotos no celular. Foi a coisa mais horrível da minha vida. Eu enterrei meu marido sem cabeça. Até hoje, não sabemos onde está a cabeça dele. Ninguém diz nada, ninguém faz nada por nós", diz enquanto as lágrimas percorrem o rosto marcado pelo sofrimento.

O assassinato de Jonas Victor e dos outros 25 colegas de prisão, poderá cair na vala comum dos processos criminais arquivados no Brasil. O inquérito policial que investiga o caso está longe de ser concluído, se isso ocorrer de maneira positiva. "Desde que aconteceu a matança, foi criada uma comissão de delegados para investigar o massacre. Nós tivemos uma boa evolução ao longo deste ano", afirma Marcos Vinícius, delegado responsável pela comissão. Fotografias, filmagens e mensagens compõem o arcabouço probatório analisado pelos agentes de Polícia Civil que trabalham no processo.

Apesar de detalhar "evolução", Marcos Vinícius afirma "que há entraves para que o inquérito seja mais rápido". Um deles é a falta de efetivo e equipamentos específicos para investigações complexas como a da matança de Alcaçuz. "Existiam entre 400 e 500 presos nos pavilhões envolvidos na confusão. Separamos, de imediato, cinco líderes do PCC que confirmaram a autoria dos crimes. Achamos armas, revólveres e artefatos usados nos assassinatos. Indiciamos outros 111 presos, mas o flagrante foi relaxado por falta de provas. É complicado. Tanto é que vai completar um ano e não conseguimos concluir", lamenta o delegado.

Até hoje, de acordo com Marcos Vinícius, 68 pessoas - entre presos, agentes públicos de segurança e familiares - foram ouvidos no processo. Composto por cinco volumes, 900 páginas integram o "quebra-cabeças" da investigação mais complexa até agora presidida pelo delegado que também atua na Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). "É muito difícil chegar a todos os envolvidos. Se não chegarmos a nada, recomendaremos o arquivamento. É um grande quebra-cabeças, é um processo muito complexo", declara.

Quase um ano após o massacre, o Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN) silencia sobre o caso. Hoje, dos quatro pavilhões de Alcaçuz, dois estão desocupados. Cerca de dois mil presos dividem celas dos dois pavilhões em funcionamento na unidade, além do de segurança máxima da Penitenciária Estadual Rogério Coutinho Madruga, chamada de Pavilhão 5. O número de presos atual corresponde a mais que o dobro da capacidade nominal do complexo e varia a cada dia. Desde o início do ano, a Secretaria de Estado da Justiça e da Cidadania (Sejuc/RN) fechou oito Centros de Detenção Provisória (CDP) em todo o Rio Grande do Norte e mais de 500 presos foram levados à Alcaçuz, que deveria receber somente presos sentenciados.

A Sejuc não reconhece como super lotação e afirma que irá distribuir os presos nos demais pavilhões logo que os 571 novos agentes assumirem os postos de trabalho. Além disso, diz que o número de presos varia diariamente, em decorrência de serem provisórios. Com a extinção dos CDPs, o efetivo de agentes penitenciários foi reforçado em Alcaçuz e no Rogério Coutinho Madruga.

Depoimento

Maria José de Souza, de 50 anos, viúva do detento Jonas Victor de Barros Neto

"Conheci meu marido quando fui visitar meu irmão que estava preso. Vi aquele homem sozinho, sem ninguém e fui ajudá-lo. Acabamos nos apaixonando. Ele foi preso a primeira vez no final dos anos 90, por homicídio. Foi sentenciado a 30 anos. Cumpriu 10 anos e 11 meses em regime fechado até sair na progressão. Ele era uma pessoa boa, mas não tinha ninguém por ele na cadeia. Ele pagou cadeia e saiu em condicional. Mas tinha medo de morrer no albergue e deixou de ir dormir lá. Foi quando ficou como foragido por seis anos. Um dia, ele foi pego com drogas e preso novamente. Desceu para Alcaçuz. Ele ia sair em junho desse ano, com a progressão da pena. Eu sabia que ele não iria mais voltar. Ficamos cinco anos sem nos ver. Sofri muito. Mas depois eu fui visitá-lo e tudo ficou bem. E ele me dizia que não iria sobrar nada de Alcaçuz, que ela ficaria rente com o chão.

Ele teria que partir para a guerra ou morrer. Eu tenho certeza que aquela chacina foi facilitada e que ainda tem preso morto, enterrado lá dentro. Cadê a cabeça do meu marido? Eu recebi o corpo dele podre, cheio de bicho, não pude nem reconhecer. O corpo dele ficou no chão, no relento do Itep por oito dias. Não recebi nenhuma ajuda do Estado. Só o caixão que a Prefeitura deu. Eu enterrei ele sem a cabeça. O povo nos mostrava fotos no computador para que a gente reconhecesse. Meu Deus! A minha dor eu entrego a Deus. Mas eu queria que o Estado fizesse alguma coisa. Faz quase um ano e até hoje eu não tenho o atestado de óbito do meu marido. Meu Deus! Meu Deus!". 

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‘Integrar-se a facção acaba sendo uma espécie de estratégia de sobrevivência’, diz Amazonas

Governo diz que presos são intimidados a integrar facções como a Família do Norte, mas que vem atacando o tráfico de drogas, principal fonte de renda das organizações criminosas

Marco Antônio Carvalho, Enviado Especial

29 Dezembro 2017 | 22h00

MANAUS - O governo do Amazonas disse em resposta a questionamentos do Estado parte da força da Família do Norte (FDN) vem da intimidação que os seus integrantes realizam contra outros presos. “A violência é, justamente, o maior mecanismo de dominância dessas facções, dentro e fora dos presídios. Devido ao tamanho que a FDN possui, o preso sabe que se desobedecer, corre risco de morte. Então se integrar a uma facção acaba sendo uma espécie de estratégia de sobrevivência”, diz a administração do governador Amazonino Mendes (PDT).

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A gestão, que assumiu o governo em outubro deste ano após a cassação do mandato de José Melo (PROS), diz que tem atacado o crime organizado de diversas formas. “Estamos atacando a principal fonte de renda do crime e das facções que é o tráfico e procurando aplicar o rigor da lei para colocar os criminosos na cadeia. Neste ano de 2017, o Amazonas apreendeu 13 toneladas de entorpecentes, entre cocaína e maconha, é o maior volume de drogas apreendidas da história”, informa. 

Sobre a situação do Compaj, listou uma série de mudanças, como recuperação das áreas destruídas e o reforço no sistema de monitoramento, possibilitando “pronta-resposta em casos de anormalidade detectada”. “A Polícia Civil conduziu as investigações sobre os envolvidos no massacre, com o inquérito concluído, o MPE denunciou 213 pessoas suspeitas de envolvimento com o massacre. Os 17 presos apontados como líderes do massacre foram transferidos para presídios federais, onde permanecem.”

Por fim, disse ter iniciado processo de licitação de obras de novos presídios em Manacapuru, Parintins e Tefé. “A projeção do Governo é construir mais cinco unidades no interior que, assim como as quatro já em licitação, funcionarão como cadeias-polo, evitando a transferência de presos para Manaus e a manutenção de carceragens em delegacias.”

'Seria utopia falar que não vai morrer mais ninguém', diz secretário de Roraima

O secretário-adjunto de Justiça do Estado de Roraima, o capitão PM Diego Bezerra, disse esperar melhorias significativas no sistema penitenciário ao longo do ano de 2018. Na sua sala na sede da secretaria, vizinha à Cadeia Pública de Boa Vista, Bezerra elenca os motivos que o levam a ter esperanças para o ano que vem: reforma da Penitenciária Agrícola Monte Cristo, retomada da construção da penitenciária de Rorainópolis, construção de um novo presídio nas proximidades da Monte Cristo e reforma do anexo da Cadeia Pública. Tudo isso, conta, deverá reduzir o déficit hoje existente de 1,2 mil vagas. O Estado tem um total de 2,7 mil presos.

Ao longo de 2017, as medidas tomadas consistiram em separar as facções, retirando os inimigos do PCC da Monte Cristo. “Hoje, não temos grupos opositores na mesma unidade prisional. Isso facilita o controle e diminui a possibilidade de um novo massacre”, diz.

Ele atribui os problemas que persistem na Monte Cristo a “mais de 20 anos de descaso, abandono e falta de investimento na área”. “Não é da noite para o dia que se resolve esse problema”. Sobre a demora em fazer tramitar os convênios com o governo federal para reforma e construção de cadeias, Bezerra diz que “ninguém constroi um presídio da noite para o dia”. “É algo que demora e temos de respeitar o trâmite.”

Questionado sobre os rumores de preparação para um novo massacre, conforme relatado ao Estado por parentes de presos e um agente penitenciário que trabalha no presídio, o capitão disse que acreditar que as mortes não se repetirão. “É claro que mortes em presídios vão acontecer, aqui em Roraima, como no Amazonas, em São Paulo, nos Estados Unidos. E as mortes vão continuar acontecendo porque infelizmente elas acontecem e acontecem em qualquer lugar do mundo. Seria uma utopia falar que não vai morrer mais ninguém. Vai morrer em Roraima, no Rio, nos Estados Unidos, no Canadá”, diz.

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Depoimento: “Todo dia 1º, fico muito transtornada”

Mãe de preso morto no Compaj relembra dia do massacre e conta sobre a rotina um ano após o caso

Marco Antônio Carvalho, Enviado especial

29 Dezembro 2017 | 22h00

MANAUS - Valdernilce perdeu o filho Kayro, de 23 anos, no massacre do Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em Manaus. Ao Estado, ela relembra o dia da chacina, as lembranças do filho e a rotina um ano após a morte do jovem. 

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‘Integrar-se a facção acaba sendo uma espécie de estratégia de sobrevivência’, diz Amazonas

Depoimento

Valdernilce Nascimento da Silva, de 46 anos, meio oficial de cozinha, mãe de Kayro Silva de Souza, de 23 anos, morto no Compaj"

"Estive no Compaj no dia 31 de dezembro. Ele havia engravidado uma menina e queria conhecer o filho. Me desesperei quando o menino começou a chorar, cheguei até a pedir para a esposa de um amigo dele amamentá-lo, mas ele não se contentou. Acabei saindo de lá, dizendo que voltaria, mas logo o guarda me avisou que quem saísse naquele horário não entraria mais para a pernoite, que começava às 16h. Mandei mensagem no celular dizendo que não ia dá para voltar e voltei para casa.

Olha, o Kayro era um menino muito bom, por muito tempo sua rotina era do trabalho, ele trabalhava como bombeiro hidráulico, para a igreja. Sempre morou com o pai, e quando pediu para viver comigo, disse que isso só aconteceria se ele terminasse os estudos, o que ele fez. Tinha uma letra bonita, só você vendo, os meninos lá dentro diziam que era uma letra mil grau e acho que foi isso que fez com que ele fosse o responsável por escrever aquela carta que apareceu no Jornal Nacional depois do massacre. A carta falava sobre as ameaças que eles estavam recebendo e pedia providências da diretoria. Numa visita, me disse que os manos tinham ditado e ele tinha escrito porque a situação lá estava cada vez mais difícil.

Nunca gostei de ir visitá-lo porque a humilhação na hora da revista é muito grande. As mulheres tem de tirar toda a roupa, se agachar para que as agentes olhem a gente. Um rigor, né? Mas ninguém sabe como entraram as armas que ajudaram no massacre. Isso é um mistério. O pai dele nunca foi visitá-lo e não era toda vez que eu ia também. Nas visitas, quando estava transitando, os outros presos do pavilhão ao lado faziam assim para eles, olhe (sinal com a mão de corte no pescoço). Para eles não se implicarem, foi fechada uma porta e o diretor mandou abrir outra para o outro lado, para eles não ficarem se comunicando muito. Ficava insossegada quando ia lá. Eles sempre faziam esse sinal, ficavam ameaçando.

Antes de ser preso, Kayro começou a mudar algumas amizades. Uma delas, a do Pequeno, foi a que o levou para a cadeia. Sempre via essa cara dentro de casa e já tinha dito que não o queria por perto. Com ele, meu filho abandonou tudo, largou a igreja. Certo dia, encontrei o Pequeno na porta da minha casa e disse que não queria ele lá, daí meu filho reagiu. “A senhora quer que eu saia da sua casa”. “Meu filho, não estou te expulsando. Só se afaste desse rapaz”. Ele puxou a bolsa, abriu a gaveta dele, levou três cuecas, três bermudas e três blusas. Com oito dias sem vê-lo, estava na igreja, orando, Deus me revelou que os dois estavam sendo presos. Fiquei inquieta e fui no Face da ex-esposa dele. Perguntei: ‘Tu sabe dizer do Pequeno?’. ‘Princesa, estava só esperando amanhecer para te dizer’. Foram presos, levados numa viatura e acabaram no pronto-socorro. A polícia diz que foi overdose, mas os médicos falaram que Kayro tomou tanto choque que desmaiou e, como tinha asma, teve de receber atendimento.

Diz que o Pequeno tinha pedido um carro de São Paulo e quando chegou aqui ele fez os documentos. Na cadeia, o Pequeno convenceu o Kayro: não podia ir para o Fechado (regime fechado no Compaj) porque senão morreria lá (Além desse crime, Kayro havia sido condenado em 2012 após roubar um celular). Kayro assumiu o crime e estava há quatro meses lá quando tudo aconteceu. Meu filho pagou o pato por ele. E o outro está solto até hoje. Kayro pegou 4,5 anos. O advogado disse que tinha como ele sair rápido, mas aí tinha de ter dinheiro. Para isso, tem que ter dinheiro. Ainda corri atrás para tirar ele. Todo dia pedia para sair mais cedo do meu trabalho para tentar tirá-lo de lá. O defensor disse que dia 5 de janeiro ele estaria solto. Não deu tempo.

No dia 31, quando cheguei, ele não estava na cela, comecei a chorar. Daqui a pouco lá vem eles, já tinham cavado um buraco, faltava só quebrar o muro, para eles saírem. Eles iam fugir antes da rapaziada chegar para matá-los. Faltava só quebrar o muro. Tinha um índio lá dentro que dizia: “Tia, a senhora não fique assim, não, que nós vamos lá para fora e vai ser mil grau”. Ainda sobreviveram três que pularam nesse buraco.

A minha nora foi visitá-lo no dia e o pessoal da Kombi falou que estava tendo rebelião no Fechado. Ela só pensou nele e me ligou falando. Não posso dizer que não tinha a ver com isso de facção porque eu não andava com ele. Ele estava naquela área pelo Pequeno, porque, quando caiu, o Pequeno era conhecido matador, e souberam que eles estavam juntos. Não dava para ficar na ala com o restante dos presos.

Nas visitas de Natal, tinha comprado para ele umas roupas, roupas de marca que ele gostava. Duas bermudas, duas blusas, duas cuecas. Infelizmente, foi isso que me levou a confirmar a sua morte porque, na medida em que eles iam matando, eles iam enchendo o WhatsApp de fotos e vídeos. Numa dessas imagens, tinha um corpo sem cabeça e sem braços com uma cueca vermelha e uma bermuda verde. Eram essas que tinha comprado para ele e dado no Natal. Tudo que eles faziam com o meu filho, lá, eles mandavam no Whatsapp. ‘Se foderam tudinho’, eles diziam.

Não quero que eles sejam condenados, não. Quero que todos morram. Eles vão morrer. Da forma que eles fizeram, eles vão morrer pior. Confio naquele lá de cima. A Justiça de Deus tarda, mas não falha. Não quero que sejam condenados, não, porque eles estão vivos e o meu filho está morto. Nunca mais vou vê-lo. Muita gente ali morreu de forma inocente.

No último ano-novo que passamos juntos, ele bebeu muito, fumou, usou drogas, sei lá. Fui lá brigar com ele porque ele estava descontrolado. Ele só disse que ia aproveitar: “ano que vem não estou vivo mesmo”. Para mim, acabou essa época. Só tenho um filho aqui comigo. O outro está preso, mas não vou visitá-lo.  A mulher de um preso contou estão só esperando esse reveillon para lombrar de novo. Não tem nenhum lugar seguro. Vou ficar sozinha aqui. Quero nem saber. Todo dia 1º fico muito transtornada. Lembro da data, beijo a foto dele, abraço. Vai passando o ano e a gente não esquece, não. Ninguém tem direito de tirar a vida de ninguém."

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