Dados da caixa-preta negam arremetida, segundo deputados

Para especialistas ouvidos pelo ?Estado?, fato reforça a tese de erro humano, desencadeada por falha no avião

Patricia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

24 Julho 2007 | 00h00

Análises preliminares da caixa-preta do Airbus A320 da TAM indicam que o piloto do avião não tentou - ou não teve condições de - arremeter , ou seja, decolar de novo, ao perceber que não conseguiria frear nos limites da pista do Aeroporto de Congonhas, na zona sul de São Paulo. A informação foi passada ontem pelos deputados Efraim Filho (DEM-PB) e Marco Maia (PT-RS), integrantes da CPI do Apagão Aéreo da Câmara, que acompanham nos Estados Unidos a decodificação do equipamento. A FAB e a Infraero negaram a notícia e ressaltaram que esses dados ainda são desconhecidos. Para especialistas ouvidos pelo Estado, a falta de arremetida, aliada às imagens da Infraero que indicam aceleração do 3054 na pista, reforça a tese de falha humana, desencadeada por algum problema na aeronave. Um problema no reverso da aeronave pode ter contribuído com a tragédia. "Mas não há ainda elementos suficientes para dizer se houve exclusivamente falha mecânica ou exclusivamente falha humana. Com isso, a hipótese de a pista ser um fator contribuinte para o acidente continua em análise", afirmou Maia. "Quando a aeronave chegou à cabeceira, não fez trajetória de quem tentava levantar vôo, foi reto e caiu", disse. De acordo com os deputados, os técnicos do Conselho Nacional de Segurança de Transportes (NTSB, na sigla em inglês) já avançaram muito na extração das informações da caixa-preta de dados e de voz. "Terminaram a compilação de todos os dados selecionados", disse Maia. "Acreditamos que até o fim da semana devem estar concluídos os trabalhos aqui nos Estados Unidos." "Hoje (segunda-feira), os técnicos concentraram-se em extrair os dados da caixa-preta de voz. A partir de amanhã, farão a validação dos dados, sincronizando as informações das caixas de voz e dados. A parte mais complexa já foi concluída", disse Efraim. Na quarta-feira, os grupos de técnicos se separam para tirar conclusões e voltam a se reunir na quinta para verificar se precisarão ser extraídos mais parâmetros (categorias de dados) da caixa-preta. SIGNIFICADO Para o oficial da reserva Luiz Alberto Bohrer, especialista em segurança de vôo, a possibilidade de o piloto não ter tentado arremeter deixa questões em aberto. "Se ele não fez o procedimento de arremeter, significa que algo impediu a aeronave de frear. Mas não dá para saber ainda o que realmente aconteceu, se foi a pista, se foi o piloto, se foi falha mecânica... São apenas hipóteses. Só a degravação completa da caixa-preta vai mostrar o que aconteceu." A FAB e a Infraero apressaram-se a desmentir todas as declarações dos deputados. O chefe do Centro Nacional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), brigadeiro Jorge Kersul Filho, contestou a informação de que o piloto não teria tentado arremeter. E a FAB, em nota à imprensa, afirmou que os representantes da Aeronáutica em Washington não passaram nenhuma informação sobre a caixa-preta. Três fatores ainda levam os militares a suspeitar de que houve uma tentativa do piloto de arremeter (abortar o pouso e tentar decolar), antes de a aeronave se chocar com o prédio da TAM Express. Controladores que estavam de plantão na torre de controle de Congonhas dizem ter visto quando o Airbus tocou o solo e, repentinamente, "acelerou" na pista. Também reforçam a tese da Aeronáutica a velocidade com que o avião saltou a Avenida Washington Luís - cerca de 170 km/h - e o fato de o trem de pouso frontal (bequilha) não ter deixado marcas no gramado que divide a pista e a área de taxiamento. DISPUTA POLÍTICA Representantes da Aeronáutica, , da TAM e da Airbus, além de técnicos da NTSB, participam das investigações. Segundo o coronel Fernando Camargo (do Cenipa), a caixa de dados estava intacta e terá 100% de aproveitamento das informações. Já a caixa de voz pode estar um pouco danificada, por causa de superaquecimento. A falta de ranhuras na pista e a chuva também são fatores que estão sendo investigados pelos técnicos. "Ficou bem claro que a pista é um fator contributivo, que não tinha condições de segurança adequadas", disse o deputado Efraim. "Não ter o grooving e as ranhuras (sic) podem ter dificultado a aderência." Mas apesar de terem participado da mesma reunião, os deputados não chegaram a um acordo. "Com todo respeito ao colega, eu não concordo com o deputado Efraim", disse Maia. "Simplesmente, eles não descartam a hipótese de a pista ter contribuído para o acidente, mas não se trata de fator determinante." A terceira hipótese levantada pelos técnicos da Aeronáutica, ainda segundo os deputados, é uma falta de sincronização entre o computador de bordo e os dados inseridos pelo piloto. Às vezes, há uma falta no sistema e, por algum motivo, o piloto não insere os dados - ou comete algum erro na inserção. Essa foi a causa de um acidente com um Airbus no Aeroporto de Habsheim, em Mulhouse, na França, em 1988. Essa falta de sincronização poderia ter levado a aeronave a não responder a algum comando do piloto. PLANALTO Já em Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ordenou aos ministros que não se manifestem publicamente sobre a investigação e foi dada instrução ao Comando da Aeronáutica para que lembrasse apenas que o governo aguarda a conclusão da análise das caixas-pretas.

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