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De menor, se mudasse a lei, e eu tivesse que ir pra cadeia, eu ia pensar duas vezes antes de ir para o crime’

O Estado de S.Paulo

13 Abril 2014 | 03h 00

Rapaz de 24 anos, condenado a 56 anos, afirma que a prisão é muito pior que a ‘Febem’

A.D., 24 anos

O que fez: matou um homem e foi acusado de matar um policial. Confessou na entrevista ter matado uma mulher.

Idade ao cometer latrocínio: 21 anos

Pena total: 56 anos e 8 meses (26 por latrocínio e o restante por roubos)

O que o fez ir para o crime: chamado de louco pela professora, ateou fogo na escola, foi para a Febem e saiu de lá assaltando

O que o teria evitado: ter morado com o pai

Só pelo vulgo de D. que eu tenho a polícia falou que eu matei um policial da força tática em São Bernardo do Campo. Só que entrei em um BO por causa de uns amigos. Eles falaram para a polícia que eu era o mais criminoso, porque realmente eu tenho uma quadrilha, minha, de assalto. Faço assalto, realmente. A polícia da força tática pegou o menor e falou assim: "Vamos trocar cabeça. Nós não quer você. Nós quer o maior, que é o D.".

Eu estava na minha casa quando deparei com dois alemão. Era a força tática. Tava à paisana. E eu, com revólver, dei de frente com ele e apontei o revólver para ele. Ele saiu da casa e eu pedi: "Chama a mídia se não me entrego", que eu sabia que os cara ia me matar mesmo.

Até o juiz puxou o nome deles, eles é foragidos. Pode isso? Ter polícia no meio que não é policiais, invade sua casa sem mandato e quer matar você? Chegou no riacho, eles falaram pra mim assim: "Vai morrer, D., nós não quer você vivo". Falei pra ele: "Tá bom, senhor. Mas o senhor quer saber o quê? Que eu matei? O senhor tá me forçando a falar que eu matei polícia?" Aí foi quando eu apanhei, apanhei, apanhei e falei pra eles: "Não, matei mesmo, já era". Poucas ideia. E foi isso o que aconteceu.

Eu tive uma briga, mas foi caso de momento, mas não matei. Só briga, só. Dei umas paulada no cara. Só isso.

Mas roubar, eu roubo. Roubo bem. Não vou mentir. A minha quadrilha era seis cara. Sou o líder. Alguns eram mais velhos que eu.

Hoje em dia tem o tal do funk, que fala sobre ouro, corrente, diamante, dinheiro, nave, muitas mulher, poder. Poder não é você ter e nem querer. É como eles diz: agir. E numa quadrilha você sendo o chefe todas as mulheres, a maioria, paga uma madeira pra você, porque você é o mais mais, elas falam. Você é o homem do dinheiro, então é do ouro, elas dizem.

Não tem serviço. Se o Brasil, todos os governo, desse uma chance pra ex-presidiário, numa empresa, não existia mais ladrão no Brasil. Eu saí da cadeia em 2009. Fui a uma empresa e perguntei como fazia para trabalhar lá. Disseram para eu entregar um currículo. Entreguei e disseram: "Espera te chamar". Só que isso é mentira, ficar esperando que nem bobo. Aí vai aonde? Eu não tenho filho, mas tem minha namorada. Gosto muito dela, a Suelen. Uma mulher chama roubo. Chama tudo.

Mas acaso, um cara chega ni mim e fala que vai me matar, eu mato ele primeiro. É minha vida que tá em jogo.

Em outro assalto, faz muito tempo, eu enquadrei o cara. Eu estava com revólver calibre 38. Quando ele bateu a mão assim, aí eu soltei... disparou o revólver - "pá" - no peito. Naquela hora, perdi a cabeça. Estava drogado. Cocaína. Perdi o controle. Olhei assim, no chão, ele já tava caído. Fui embora pra casa. Me escondi. Quando passou o efeito da droga, falei na minha mente: "Tenho que pagar, né?" Um dia você tem que pagar os erros que comete. Você mente para o homem, para Deus, não. Deus sabe o que faz. Não sei se teve BO. Falaram para mim que ele era policial.

Era tudo ou nada. No assalto, você já vai com a mente que você tem que voltar. Mesmo baleado. Você não vai deixar o cara te matar. Cê tá na vida errada, cê tá no crime. O crime é feito pra isso: é tudo ou nada. Vamos supor, eu tô num assalto. Um amigo fala: "Olha lá, tô vendo aquele cara no carro ali, ó, tá olhando nós". Se nós enquadrar ele, e ele reagir, é a vida dele ou a minha. Ele vai primeiro. E depois, eu.

Eu não vou falar pra você que eu vou roubar um cara ali, o cara vai me dar tudo e eu vou matar ele. Não posso ser assim. O cara me deu as coisa, vai ficar sossegado. Eu revisto ele, dou geral, olho o porta-luva do carro, pra ver se tem uma arma, olho o documento, pra ver se é policial... porque, se ele for polícia, aí é outra coisa. Se você roubar ele, ele vai vir te buscar, e é o dobro.

Eu entrei pro crime com 14 anos, quando fui preso num assalto, e numa troca de tiro de menor fui pra Febem. Aí é suave, né? De menor, se mudasse a lei, e eu tivesse que ir pra cadeia, eu ia pensar duas vezes antes de ir para o crime. A cadeia não é a mesma coisa que a Febem. A boia que paga aqui não é a mesma coisa que lá. É ruim demais. Não tem condições. Febem é mais tranquila. São quatro refeições num dia. Aqui são três só: café, almoço e janta. Às vezes nós sente fome. Nós é ser humano. Na nossa casa, nós come à vontade. Na cadeia, já não come.

Fico pensando na família: por que não vem me ver? Será acaso que estão com medo de alguma coisa? Acho que a própria polícia diz para a minha família não vir. Minha família não tem nada a ver com isso.

Eu estava na 3a série com 14 anos. Vivia numa sala especial, para pessoas com dificuldade de aprender. A professora me chamou de louco. Levei gasolina e taquei fogo na escola. Me encaminharam pra uma psicóloga. Ela não fez teste comigo. Só conversou e falou que eu ia na sala especial. Só que louco eu não sou, não.

Fumava cigarro já. Era molecão. Já encostava nas vidas errada mesmo, via outros parceiro, no meio da rua. Um amigo meu me mostrou um revólver. Eu nunca tinha visto. Fomos na lage e ele me ensinou a atirar. E me chamou para ir roubar um carro no Parque São Lucas. Falei: "Demorou". Molecão, né? Chegamos na hora da cena, enquadrei a vítima, falei: "Perdeu, perdeu, senhor!" Ele: "Ah, não, calma, calma, calma". Nisso a viatura virou pra outro lado, eu: "Tá, tá, tá". Dei uns três tiros e saí correndo dentro da casa. Perguntei: "Cadê a chave?" O parceiro procurando. Olhou para trás e a polícia já tava em cima dele. E eu, correndo, dentro da casa. Falaram para mim: "Sai daí. A imprensa vai vir. Ninguém vai fazer nada com você. Aí veio a imprensa. Só que não filmaram eu, porque eu era menor.

Quando fui no 42 DP Parque São Lucas, a polícia me bateu demais. Aí fui para a Febem, no Tatuapé. A Febem era dominada pelos menor. Nós catava os funcionário. Eles batia em nós também e nós descontava neles.

Fiquei um ano na Febem. Piorei mais lá, porque você é maltratado pelos funcionários e pela polícia. Eles deixa nós só de cueca no chão gelado. E se você não pedir: "Licença, senhor, deixa eu ir ali no banheiro, senhor", você apanha. Isso revolta os menor.

A polícia é muito folgada. Não quer dialogar uma ideia. Só quer espancar na Febem, só borrachada. Quando o choque invade, é pra valer. É tiro de borracha. Onde pegar, arregaça.

Saí da Febem com 15 anos. Dos 15 aos 18, roubava bem. Uns sete, oito carros por dia. Tirava som, roda, banco, escalpelava o carro. Vendia para o desmanche.

Fui para a igreja Mistério do Belém. Sou batizado nas águas do Espírito Santo. Na igreja, quando tinha 18 anos, conheci uma menina e gostei muito dela. Pedi para o pastor: "Dá uma força pra mim. Nunca trabalhei numa firma grande". Ele era encarregado de uma metalúrgica. Trabalhei lá uns três mesinhos. Quando peguei o dinheiro, usei tudo de droga. Eu era viciado em cocaína e cachaça. Comecei a usar cocaína com 17 anos e fui parar com 21, quando fui preso.

Embaralho. Você vai na favela, pega uma farinha, umas mulher, cachaça, fica locão, no outro dia não vai trabalhar.

Gosto muito da Suelen. Fiquei três anos com ela. Não sei agora o que ela pretende da vida dela, né? Ela não me visita. Eu não terminei com ela. Fui preso e não falei mais com ela, nem por carta nem nada. Esqueci o número de telefone da casa dela. Estou preso há três anos. Namorava firme. Ela criticava muito os roubos. Falava: "A., para com isso! A polícia vai te pegar, você vai sair na mídia e não sai mais da cadeia, você sabe disso, com o tanto de BO que você tem". Eu falava: "Me deixa em paz. Deixa eu fazer minha vida. Eu gosto de você. Você tem que gostar do jeito que eu sou".

Ela dá um trampo no Mac Lanche.

Eu roubava pra mim mesmo. Pra me manter os kit: relojão de ouro, corrente.

Minha família tentou me tirar dessa vida.

A minha mãe criticava muito. Ela ficava a maior sujeira: "Aqui na minha casa, não quero nada de errado".

Meu tio é cristão, pastor de igreja. Ele falava: "Não quero nada de errado, A., dentro de casa. Porque, se tiver alguma coisa de errado, eu mesmo chamo a polícia." Ele sempre avisou eu: "A., para com essa vida, filho. Trabalha comigo".

Eu falava: "Mas que vida?"

Ele: "Eu não sou bobo. Deus me mandou te falar que se você cair preso agora você não sai mais".

Só que eu olhei na cara dele e falei: "Eu não tô fazendo nada de errado".

Quando vim preso, ele viu pela televisão. Acho que ele deve ter pensado: "Puxa, meu sobrinho é meio louco, não sei".

Eu escondia tudo de todo mundo. Ninguém sabia o que eu fazia nem de noite nem de dia. É vergonha um tio criar você e ao mesmo tempo você ir pras parada errada. Eu me sentia envergonhado.

Eu tava roubando. Lógico que é errado. Nós não rouba quem não tem. Nós rouba quem tem. Não é esses cara que tem carrinho velho, não. Nós vai na fita alta: R$ 30 mil, R$ 80 mil, R$ 100 mil. Só bagulho gringo. Nada de pegar pai de família, fazer sequestro, coisa que muitos tão fazendo na televisão hoje em dia. Cara vai na pizzaria, pegou a carteira do cara e "pá", matou o cara, foi lá e voltou e "tá, tá", deu em mais dois... Eu como ladrão não aceito isso.

Nós ia pros lugar que tem dinheiro. Não é difícil (assaltar). Difícil é saber lidar com muitos cara. Tem um ou outro que, ao mesmo tempo em que estão com você na fita, te roubam e "pá", matam você. Então cê não pode deixar eles chegar nesse ponto, de crescer os olhos e matar você. Você tem que pegar o malote, chegar, contar: "Amigo, esse é seu, esse é seu. Não fica longe. Entra em contato". Nós fica de carro andando e os amigo entra em contato: "Olha, tem uma fita pra nós fazer ali. Nós ia lá e "pfu", metia o revólver.

Só reagiram uma vez. Eu era de menor. Fui roubar um carro, a mulher abriu a porta, saiu do carro, me abraçou e soltei o dedo. Dei três tiros nela. Ela caiu. Ficou deitada lá. Levei o carro embora e deixei ela lá. Só Deus sabe o que aconteceu com ela. Acho que ela me abraçou pra tomar o revólver, porque eles vê que nos era muito menino, achava que não tinha arma.

Já sonhei com essas pessoas (que matei). Eles falando que vinham me buscar. Na cadeia, você não dorme, fica meio "fff". É punk. Sinto pavor de estar num lugar, e você sabe que a pessoa está até morta, não sei. Medo de um dia chegar a morrer e eles puxar você também, no caminho.

Eu acredito em Deus e no Diabo também. O Diabo veio pra roubar, matar e destruir. Você acha que as pessoas hoje em dia no mundo aí mata e rouba é por causa deles (balança a cabeça negativamente)? Possuído. Ou droga, cachaça, espírito maligno.

Moro com meu tio, na Vila Industrial, Zona Leste. Minha mãe mora no mesmo terreno. São quatro ou cinco casas. Moram minha mãe, meus irmãos, minha prima e meu tio.

Meu pai, não sei onde está. Não conheci. É isso que revolta mais a pessoa (e leva a) viver no crime, devido a você não conhecer seu pai.

Tenho seis irmãos. Todos os outros conheceu o pai deles. Só eu que não.

Não passei por psicólogo nem assistente social na Febem nem na cadeia. Passei quando estava na escola depois que toquei fogo na escola.

Ter morado com o meu pai poderia ter dado outro rumo para minha vida.

Eu sabia que ele morava em São Caetano. Eu tinha uns 7 anos e ele tinha uma padaria lá. Ele falou pra minha vizinha: "Deixa o A. aqui comigo, que eu vou levar ele pra morar comigo. Não sei onde vou morar".

A vizinha respondeu: "Não, mas a vó dele tá criando ele. Não posso deixar você levar ele".

Quando minha vó trabalhava no restaurante, essa vizinha praticamente criava nós.

Lembro pouco dele. Nunca mais tive notícia dele. Minha mãe não fala dele (A. tem os olhos marejados). A vizinha falou que não sabe também dele. Acho que se eu tivesse ficado com ele talvez eu não estaria aqui, nessa tristeza.

Eu via meus amigos. Um pai não dá tanta atenção que nem um tio. Um tio gosta de você muito. E considera você como um filho dele. Você gosta dele. Mas ao mesmo tempo está no seu coração e na sua mente o seu pai, o verdadeiro. Eu gosto do meu tio. Mas é meu tio.

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