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Defesa dos acusados pela morte de Bernardo estuda diferentes estratégias

Elder Ogliari - O Estado de S. Paulo

23 Abril 2014 | 20h 20

Advogado do pai informou à polícia que ele abre mão de sigilos para provar inocência; defesa de assistente social nega participação na morte; madrasta ainda não prestou depoimento

PORTO ALEGRE - Constituídos entre o final da semana passada e o início desta, os advogados dos três suspeitos de envolvimento no assassinato de Bernardo Boldrini, de 11 anos, preparam diferentes estratégias de defesa para seus clientes. Vanderlei Pompeo de Mattos, defensor da madrasta Graciele Ugulini, que ainda não prestou depoimento, vai pedir para ela falar alguma coisa para acabar com as especulações sobre a participação que teve no crime.

Jáder Marques, representante do pai, o médico Leandro Boldrini, avisou à polícia que seu cliente abre mão de seus sigilos para contribuir com a investigação e mostrar que é inocente. E Demetryus Eugenio Grapiglia, nomeado pela assistente social Edelvânia Wirganovicz, vai tentar desconstituir o depoimento dela, alegando que foi prestado sem a presença de um advogado e sustentar que ela reconhece ter participado da ocultação do cadáver, mas não do "evento morte" do garoto.

O corpo de Bernardo foi encontrado em um matagal no interior de Frederico Westphalen em 14 de abril, dez dias depois de seu desaparecimento em Três Passos, cidade de residência da família. A polícia prendeu o médico, a madrasta e a assistente social e vem manifestando convicção de que os três têm algum tipo de participação no crime, mas com a ressalva de que a investigação ainda não conseguiu estabelecer qual foi a conduta de cada um. Os dados já tornados públicos indicam que Graciele e Edelvânia saíram da área urbana de Frederico Westphalen acompanhadas de Bernardo e voltaram sem ele no dia 4 de abril.

Defesa. Na noite desta segunda-feira, 21, dois delegados tentaram tomar depoimento de Graciele no presídio, mas, segundo Mattos, que estava junto, ela se mostrou abalada, chorou muito e acabou não falando. "Eu vou tomar conhecimento do que já está no inquérito e depois sugerir que ela diga alguma coisa para acabar com a especulação", afirmou o advogado. "Quem sabe ela não tenha uma notícia surpreendente para nos dar."

Mattos disse que assumiu o caso a pedido do pai de Graciele, que mora em Santo Augusto, mas admite que ainda não tem conhecimento suficiente para falar na tese de defesa. "Pela procedência e criação dela, não se poderia cogitar a prática do ato que estão atribuindo à ela", afirma o advogado. A madrasta é suspeita de ter premeditado o crime, pedido ajuda da assistente social em troca de dinheiro e aplicado uma injeção letal no garoto.

O advogado de Edelvânia nega que ela tenha participado ou presenciado a morte do garoto e admite que a assistente social ajudou a ocultar o cadáver, mas não por dinheiro e sim porque teria sofrido pressão psicológica de Graciele, até mesmo com ameaças a familiares.

O representante de Leandro prometeu entregar a senha do celular do médico à polícia e informou que seu cliente abre mão espontaneamente de todos os seus sigilos legais para colaborar com a investigação. Marques afirmou nesta quarta-feira que, ao contrário da versão vazada pela polícia, o médico não foi frio, mas "desabou" no momento em que foi informado da morte do filho e preso. "Isso ocorreu quando ele entendeu o que estava acontecendo", disse Marques, que também é advogado de Elissandro Spohr, réu do processo pela morte de 242 frequentadores da boate Kiss, em Santa Maria.

Marques entregou requerimento à delegacia de Três Passos pedindo que três policiais que prenderam Boldrini sejam ouvidos no inquérito para narrarem formalmente qual foi a reação do médico quando foi informado da morte do filho. O advogado sustenta que os dados do celular vão mostrar que o médico trocava constantes mensagens com o filho e que não tratava o garoto com descaso. "Ele (Boldrini) não teve nenhuma participação (no crime)", afirma.

Investigação. A madrasta, a assistente social e o médico estão em celas individuais de um presídio da região de Três Passos. A delegada Caroline Bamberg disse nesta quarta-feira que faltam 20% do trabalho para a conclusão da investigação. O documento vai apontar as responsabilidades individuais de cada envolvido com o assassinato. A policial admitiu ter pedido prorrogação do prazo de 30 dias para finalizar o inquérito.

Entre os itens que ainda dependem de esclarecimento estão as análises da perícia, que pode confirmar qual foi a substância que matou o garoto e quem esteve nos automóveis usados pelos suspeitos no dia do crime. Não está descartada a hipótese de uma quarta pessoa também ter participado ou ocultado o crime.

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