DEM recorre a tucanos para evitar efeito Kassab

Com apoio de Alckmin e de Aécio, sigla quer frear debandada na esteira do prefeito

Marcelo de Moraes e Julia Duailibi, O Estado de S.Paulo

01 Março 2011 | 00h00

Numa tentativa de minimizar as baixas políticas que a desfiliação do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, poderá provocar no DEM, o comando do partido pretende recorrer a tucanos aliados, como os governadores Geraldo Alckmin (SP)e Marconi Perillo (GO), além do senador mineiro Aécio Neves.

"Não haverá debandada no DEM", afirmou um dirigente do partido ao Estado. Em São Paulo, Alckmin não tem interesse no fortalecimento da posição política de Kassab, um adversário em potencial numa eventual campanha pelo governo paulista em 2014. O governador anda bastante insatisfeito com as articulações do prefeito para mudar de partido, principalmente o flerte com o PSB, legenda que compõe a sua base em São Paulo e que tem um secretário, Márcio França (Turismo).

Assim, a cúpula do DEM acredita que o tucano pode influenciar na permanência de deputados federais, estaduais e, principalmente, prefeitos que estudam a possibilidade de seguir Kassab na sua saída do DEM.

Dos oito deputados federais da bancada paulista do DEM, a direção do partido pretende garantir a permanência de seis. O comando da legenda dá como certa a manutenção de dois deles (Jorge Tadeu Mudalen e Alexandre Leite) e acredita que deve perder outros dois (Rodrigo Garcia e Guilherme Campos).

A ajuda de Alckmin seria determinante para manter Junji Abe, Eli Correia Filho, Eleuses Paiva e Walter Ihoshi. Todos os quatro podem pender tanto para um lado quanto para outro, a depender do esforço da articulação. Paiva e Ihoshi, por exemplo, acabaram assumindo os mandatos de deputado após Alckmin convidar parlamentares tucanos para compor o seu secretariado. Poderiam ceder a um apelo do governador com mais facilidade.

O apoio de outros tucanos para frear uma eventual debandada no DEM passa também pelo futuro do projeto nacional de oposição unindo os dois partidos. Com a maioria do DEM hoje preferindo apoiar a candidatura presidencial de Aécio Neves, o partido conta com sua atuação também junto a políticos da legenda para conter desfiliações e não enfraquecer um aliado.

No caso de Marconi Perillo, a ajuda é para conter a insatisfação do deputado Heuler Cruvinel, que tem cobrado maior espaço no DEM goiano. Ele teria reivindicado, por exemplo, o direito de comandar os diretórios nas cidades onde teve maior votação do que o deputado Ronaldo Caiado, sob pena de estudar a saída do partido.

Almoço. Na estratégia de reação, o futuro presidente do DEM, senador José Agripino Maia (RN), se reuniu ontem com Kassab em São Paulo, para confirmar sua disposição de se desfiliar. Durante um almoço na Prefeitura, o prefeito teria ponderado os riscos que corre de formar o Partido da Democracia Brasileira (PDB). A criação da sigla seria uma saída jurídica encontrada por Kassab para trocar de partido sem perder o mandato. Uma vez no novo partido, promoveria uma fusão da legenda, provavelmente com o PSB.

Mais uma vez, Kassab foi evasivo sobre seu futuro. O comando do DEM avalia que não há mais sentido em apelar pela permanência do prefeito na sigla. Ele reafirmou ontem que não pretende tomar nenhuma decisão antes do Carnaval.

Como viajaria ontem para os EUA, Agripino retornará ao Brasil nas vésperas da convenção nacional do DEM, dia 15 de março, data em que será confirmado na presidência. O senador avisou a Kassab que, se ele deixar a legenda, será preciso refazer a chapa da Executiva Nacional.

No pré-acordo montado com o grupo dos insatisfeitos, aliados de Kassab, como o deputado Guilherme Campos, foram incluídos na Executiva. Se o prefeito sair mesmo do DEM, dificilmente seus aliados permanecerão na Executiva.

Dirigentes do DEM preferem não confirmar a operação de redução de danos. Mas o presidente nacional do partido, deputado Rodrigo Maia (RJ), não vê motivos para pessimismo: "As dissidências serão muito menores do que se anda dizendo por aí".

Estatuto. A provável fusão de um novo partido de Kassab com o PSB tem despertado receio de tradicionais quadros do DEM que querem acompanhá-lo na mudança. Parlamentares do DEM sentem-se incomodados com o estatuto do PSB que, entre outros pontos, questiona a propriedade privada.

Janela

A "janela de infidelidade" permitirá que os deputados troquem de partido uma vez, seis meses antes do fim da legislatura na Câmara. No Senado, a janela ocorreria a cada três anos e meio.

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