Depois de 3 meses, Banco Central volta a atuar no mercado futuro

Antes de baixar norma para conter especulação, governo atua no mercado de derivativos por meio de operação financeira

Fabio Graner e Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2011 | 00h00

Algumas horas antes de anunciar a medida que vai limitar as apostas dos bancos na valorização do real, o Banco Central já havia aumentado sua agressividade no mercado cambial. A autoridade monetária retomou, depois de pouco mais de três meses, os leilões de um instrumento que equivale a compra de dólares no futuro, o chamado swap cambial reverso.

O uso desse mecanismo, no entanto, já provocou neste ano um prejuízo aos cofres públicos de R$ 1,73 bilhão. A perda é decorrente da valorização do real em relação ao dólar, já que, nesses contratos, o BC só ganha quando a moeda nacional perde valor, o que não tem acontecido, enquanto o mercado ganha se o dólar cai.

Segundo o próprio BC, foi a primeira vez desde 1.º de abril que um leilão desse instrumento ocorreu sem ser para renovar (rolar) contratos que estavam vencendo. Ou seja, ontem ocorreu de fato uma intervenção no mercado de derivativos.

A atuação, mesmo tendo tido uma baixa adesão de investidores (apenas um terço do total ofertado foi comprado), teve um impacto, ainda que pequeno, no mercado de câmbio e o dólar fechou em alta.

Segundo uma fonte ouvida pelo Estado, ao entrar no mercado futuro ontem com um instrumento que tem se mostrado pouco efetivo, o BC tentou agradar o Ministério da Fazenda.

Como o fluxo de dólares à vista para o Brasil já entrou no terreno negativo e mesmo assim o real seguiu em alta, a mira se voltou para atacar o "problema" por meio do mercado futuro (derivativos). A iniciativa foi complementada à noite com a maior limitação das apostas dos bancos na alta do real, que deve ter algum reflexo também no mercado futuro.

Apoio político. O esforço dos que querem uma ação governamental mais eficiente para segurar o dólar é para se construir consenso em torno de medidas duras focadas nesse segmento. As alternativas mais agressivas, no entanto, enfrentam resistências dentro e fora do governo. Por isso, a área econômica avalia que precisará de apoio político, para adotar tais medidas.

Uma das alternativas levantadas por uma fonte governamental é criar travas que impeçam estrangeiros de operar um volume muito grande de contratos de câmbio - que influenciam o valor da moeda americana - com base em garantias muito baixas. É a chamada alavancagem dos investidores, especialmente estrangeiros.

A iniciativa não é fácil de ser implementada e esbarra em problemas como o fato de a Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&FBovespa) estar fora da alçada do BC. A ideia conta com focos de resistência dentro da própria área técnica do governo, que estuda o assunto.

No final do ano passado, a Fazenda já interferiu no mercado futuro, ainda que apenas levemente, ao taxar com 6% de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) as garantias depositadas por estrangeiros na bolsa.

Um caminho apontado por analistas seria aumentar mais agressivamente esse tributo, encarecendo a tomada de posições especulativas por estrangeiros.

A discussão de novas iniciativas no câmbio, contudo, é permeada pela questão da inflação, pois a queda do dólar ajuda a amenizar os índices de preços. Nessa semana, os números mais recentes mostraram inflação ainda com taxas acima do desejável para quem quer vê-la de volta à meta de 4,5%.

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