Desindustrialização e aumento do déficit serão grandes desafios

Problema é resolver as questões sem mexer no câmbio flutuante, nas metas de inflação e de superávit primário

, O Estado de S.Paulo

02 Outubro 2010 | 00h00

O presidente que assumir o poder no dia 1.º de janeiro terá de enfrentar um dilema. Como lidar com o real valorizado, o crescente déficit em conta-corrente e a suposta desindustrialização no País, sem alterar as sagradas ferramentas da estabilidade macroeconômica - o tripé "câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário"? Economistas à direita e à esquerda reconhecem que a valorização da moeda brasileira está levando a aumento de importações e perda de competitividade da indústria nacional diante de concorrentes como a China. Muitos se preocupam com a virada das contas externas - desde 2008, o Brasil tem déficit em conta-corrente, ou seja, gasta mais em bens e serviços comprados no exterior do que vende. Por isso, precisa de dólares entrando para se financiar.

Mas, enquanto concordam no diagnóstico, economistas divergem em relação à fórmula para lidar com o problema. Dilma Rousseff, candidata do PT à presidência, alinha-se mais com os economistas ditos conservadores, apesar de ser considerada desenvolvimentista. Os conservadores minimizam a ameaça da vulnerabilidade externa e pregam cautela para lidar com o câmbio valorizado. Eles não acham que o Brasil já esteja sofrendo de uma "desindustrialização", descartam intervenções mais drásticas no câmbio e pregam medidas macroeconômicas como reduzir o chamado "custo Brasil" e cortar gastos públicos para baixar os juros e, assim, conter a valorização do real.

Mais à esquerda, economistas acham que o País já passa por um processo de desindustrialização e que é necessário tomar providências mais enérgicas. "Reduzir custo Brasil não é suficiente: se continuar a atual dinâmica do mercado de câmbio, a taxa poderá continuar se apreciando e neutralizar todos os ganhos em termos de custo Brasil; é enxugar gelo", diz Nelson Marconi, professor de Economia da Fundação Getúlio Vargas.

No governo Lula, o País teve superávit em conta corrente nos primeiros cinco anos e déficit inferior a 2% do PIB em 2008 e 2009. Em 2010, deve acumular um déficit de 2,49% e, no ano que vem, 2,78%.

Por enquanto, cobrir essa lacuna não tem sido um problema. Hoje em dia, até sobra capital externo para financiar o déficit em conta-corrente - daí porque o real vem se valorizando, há mais dólares entrando, aumentando a demanda por real. O crescimento e a estabilidade do País atraem os capitais estrangeiros.

O problema é que a valorização do real está encarecendo os produtos da indústria brasileira, que não consegue competir. A fábrica de válvulas RTS despediu 70 de seus 180 funcionários nos últimos meses. Pedro Lúcio, presidente da RTS, diz que está muito difícil competir com os chineses. Ele gasta R$ 100 só com matéria-prima para fabricar sua válvula, mais R$ 30 com usinagem e pintura. O mesmo produto chega ao Brasil prontinho, da China, por R$ 50. "Minha produção caiu mais de 50% desde o início de 2009", diz Lúcio. Para reduzir seus custos, passou a importar parte de seus insumos - agora, por exemplo, compra materiais de aço inoxidável da China, que chegam pela metade do preço que o brasileiro. Mas aí quem sofre são as fundições que forneciam para a RTS e outros.

Desenvolvimentistas como Marconi acreditam que o País passa por um processo de desindustrialização por causa da perda de competitividade da indústria. O real estimularia substituição por importados e diminuição da participação da manufatura no PIB nacional. A parcela da produção da indústria de transformação no PIB brasileiro saiu de 20%, em 1947, para um pico de 36%, em 1985, em preços correntes. Ela caiu para algo em torno de 16% do PIB, em 2008. "O Brasil está se desindustrializando prematuramente", diz Marconi. Outros países só começaram a se desindustrializar quando a renda per capita chegou a US$ 8 mil US$ 10 mil dólares. Aqui, por volta de US$ 3 mil.

Marconi, autor de estudo amplo sobre o assunto, acha que o País está passando por uma mexicanização - não no sentido político, de um predomínio de um único partido no País (no caso do México, o PRI). Mas no sentido econômico - no México, são maioria as "maquiladoras", fábricas que só montam produtos, usando a maioria dos insumos importados.

Já economistas ortodoxos como Régis Bonelli, do instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, acham que é "prematuro" falar em desindustrialização. Bonelli argumenta que participação da indústria vem caindo desde os anos 70, afetada principalmente pelos períodos de turbulência econômica. "Não é um fenômeno recente, ligado ao câmbio valorizado e à competição chinesa". Para ele, é uma tendência mundial. Quando uma economia cresce, o setor de serviços tende a ganhar mais importância e se sobrepor à indústria. "Não só o Brasil se desindustrializou, o mundo todo, até a China."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.