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Desocupação termina em confronto e leva pânico à zona norte do Rio

Marcelo Gomes e Thaise Constancio - O Estado de S. Paulo

11 Abril 2014 | 19h 13

Entre os feridos há oito invasores (cinco adultos e três crianças) e 9 policiais militares

RIO - Pelo menos 17 pessoas ficaram feridas na manhã desta sexta-feira, 11, durante a desocupação de um prédio desativado da empresa de telefonia Oi, na zona norte do Rio, que havia sido invadido há quase duas semanas. Entre os feridos há oito invasores (cinco adultos e três crianças) e 9 policiais militares. Revoltados, os desabrigados atearam fogo no edifício desocupado, em uma viatura da PM e em seis ônibus, sendo cinco de passageiros e um da Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb). Outros 11 ônibus foram apedrejados.

Veículos de reportagem e quatro agências bancárias foram depredados. Um supermercado foi invadido e saqueado. Em meio à confusão, traficantes da Favela do Rato Molhado, próxima ao edifício invadido, atiraram contra a polícia. A comunidade foi ocupada provisoriamente pelos PMs. Ao menos 27 pessoas foram detidas, entre elas o repórter Bruno Amorim, do jornal O Globo, que cobria a reintegração de posse.

"Era 8h30 e eu estava no meio da confusão quando vi um policial e um manifestante de camisa vermelha trocando socos. Puxei o celular da empresa para tirar fotos. Foi quando outro policial me deteve, alegando que eu estava tacando pedras. Me deu uma chave de braço e me machucou. Jogou meu celular no chão. Como eu poderia arremessar pedra se em uma mão eu segurava o celular e na outra o bloco de anotações? Eu estava apenas cumprindo meu dever de reportar o que estava acontecendo. Fui detido de forma arbitrária", disse o jornalista, que portava crachá da empresa jornalística.

Um dos feridos foi o entregador de pizza Maycon Gonçalves Melo, de 25 anos, que ficou cego de um olho ao ser atingido supostamente por uma bala de borracha. A mãe dele, Maria da Conceição Gonçalves, de 42 anos, acusa PMs do Batalhão de Choque de terem atirado nele durante a desocupação. Atingido por uma pedrada no rosto, um PM permanece hospitalizado. As duas crianças (de 13 e 9 anos) e o bebê de 6 meses que foram socorridos pelos bombeiros tiveram intoxicação por inalação de fumaça.

Após a desocupação, o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) disse que "foi feito o que tinha que ser feito". "Vamos seguir as leis e o rito normal. Quem precisa de abrigo, está sendo levado para abrigo. As famílias realmente necessitadas de casa estamos levando para três lugares para que seja feito cadastro. Agora, o aproveitador, aquele que está depredando carro de polícia e queimando ônibus, não precisa de moradia".

O porta-voz da Polícia Militar, tenente-coronel Cláudio Costa, afirmou que a desocupação transcorreu dentro do planejado. "A Polícia Militar seguiu todos os protocolos que envolvem uma reintegração de posse e a operação transcorreu dentro do planejado. Entramos tranquilamente e não tivemos problemas dentro do terreno, somente no entorno que houve confronto", disse o oficial. "Toda a tropa foi orientada a entrar de forma tranquila, transmitindo orientações para a desocupação. Aguardamos as pessoas retirarem seus pertences. Enfrentamos algumas resistências e algumas pessoas colocaram fogo em madeiras e outros objetos dentro do prédio".

Confronto. Quarenta oficiais de Justiça e 1.650 policiais militares participaram da desocupação do edifício, invadido desde a madrugada de 31 de março. Nesta sexta, cerca de 5 mil pessoas estavam no local. A ocupação ficou conhecida como Favela da Telerj, em referência ao antigo nome da telefônica Oi no Estado do Rio. O terreno fica no bairro do Engenho Novo, zona norte da cidade.

Dois helicópteros da PM deram apoio à operação. A ação começou por volta das 5 horas e cumpriu decisão da Justiça que deferiu liminar para reintegração de posse do imóvel. No início da manhã, uma retroescavadeira iniciou a derrubada dos barracos de madeira e papelão erguidos às pressas pelos invasores.

Centenas de invasores resistiram à desocupação arremessando paus e pedras nos policiais. Em diversos momentos, os PMs utilizaram bombas de gás lacrimogêneo e sprays de pimenta. Até policiais que estavam num dos helicópteros da corporação dispararam bombas de gás para dispersar os manifestantes. As chamas no prédio e nos veículos, ateadas pelos invasores, foram debeladas por 80 bombeiros, que contaram com dois caminhões com escada Magirus.

Destruição. Na Rua Lino Teixeira, uma agência da Caixa Econômica e duas do Itaú tiveram as vidraças destruídas. O vigia de uma delas contou que os vândalos levaram computadores e uma televisão. Segundo ele, as pessoas teriam tentado abrir o cofre da agência, mas não conseguiram devido ao segredo. Mesas e cadeiras foram totalmente reviradas. Às 14 horas, o alarme da agência continuava soando. A outra agência depredada é do Bradesco, e fica na Rua Dois de Maio, a cerca de 300 metros do prédio da Oi.

Dois homens foram presos em flagrante por furto. Eles levavam dois carrinhos do supermercado Campeão, na Rua Lino Teixeira, com caixas de bombom, bebidas alcoólicas e energéticos.

Nesta quarta-feira, 9, o prefeito Eduardo Paes (PMDB) definiu a ocupação do terreno como uma invasão profissional. "Não conheço favela nenhuma da Telerj e, sim, uma invasão com todas as características que uma invasão profissional pode ter. É um movimento organizado, com pessoas que estão ali loteando, demarcando. Pobre que é pobre, que precisa de casa, não fica demarcando, não aparece com madeirites marcando número", afirmou Paes.

Em nota, a Oi informou que a propriedade "permanecerá devidamente fechada com grades e manutenção de segurança patrimonial permanente, até a conclusão das negociações para a venda do imóvel". A companhia solicitou às autoridades de segurança pública apoio para evitar nova invasão. Segundo a empresa, no prédio invadido funcionou um almoxarifado que foi desativado.

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