Dez pensamentos políticos do papa Francisco

Do púlpito, Bergoglio teve grande participação na vida política argentina

Marcelo Beraba, O Estado de S. Paulo

22 Julho 2013 | 11h49

RIO - Há uma grande expectativa em relação aos discursos de cunho político que o papa Francisco fará ao longo desta semana no Rio. Em entrevista para o correspondente do Estadão Jamil Chade, que viaja de Roma para o Rio no avião do papa, o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, adiantou alguns temas políticos que deverão ser abordados nos discursos e nas homilias. Segundo Lombardi, "será uma mensagem muito forte de responsabilidade em direção a uma sociedade justa, solidária, humana e com valores para caminhar para o futuro, saindo da opressão de interesses egoístas".

No longo período em que dirigiu a arquidiocese de Buenos Aires, o então cardeal Bergoglio fez questão de se pronunciar publicamente em diversas ocasiões. Colhi, em dois livros recém-lançados, algumas ideias suas sobre política e políticos. Sobre o céu e a terra (Editora Paralela, 2013) reproduz os diálogos entre Jorge Mario Bergoglio quando ainda era arcebispo de Buenos Aires e o rabino Abraham Skorka. E A vida de Francisco, o papa do povo, de Evangelina Himitian (Editora Objetiva, 2013), é uma biografia que enfatiza o ativismo de Bergoglio.

O papa não vota desde o início dos anos 1960. É provável que a última eleição que sufragou tenha sido a de 1962, durante o governo de Arturo Frondizi (1958-1962). Bergoglio deveria ter entre 25 e 26 anos. Isso não o impediu de acompanhar a vida política do país e de ter uma grande participação a partir do púlpito.

A respeito de não comparecer às urnas, ele fez uma meia autocrítica, contemplada no livro de Himitian. E este é seu primeiro pensamento que registro:

"Talvez esteja cometendo um pecado contra a cidadania. (...) Depois, além do mais, fiz 70 anos e já não tenho obrigação de votar. É discutível se é correto não votar, mas afinal sou pai de todos e não devo me filiar politicamente. Reconheço que é difícil se abstrair do clima eleitoral quando se aproximam as eleições, especialmente quando alguns vêm bater à porta da arquidiocese para dizer que são os melhores. Como sacerdote, diante de uma eleição, mando ler as plataformas para que os fiéis escolham. No púlpito, tomo bastante cuidado, limito-me a pedir que busquem os valores, nada mais".

Os outros pensamentos.

- "A política é uma atividade nobre. É preciso revalorizá-la, exercendo-a com vocação e uma dedicação que exige testemunho, martírio. Ou seja, morrer pelo bem comum".

- "Somos todos animais políticos, no sentido amplo da palavra política. Todos somos chamados a uma ação política de construção em nosso povo. A pregação dos valores humanos, religiosos, tem uma conotação política. Gostemos ou não, tem. O desafio de quem prega está em acentuar esses valores sem se imiscuir na pequenez da política partidária".

- "Todos temos tendência a ser corruptos. Quando um policial para um motorista por excesso de velocidade, é provável que a primeira frase que se escute seja 'vamos dar um jeito'. Está dentro de nós, temos que lutar contra essa tendência à recomendação, ao jeitinho, a tentar ser o primeiro da lista. Temos idiossincrasia do suborno".

- "O desprestígio do trabalho político precisa ser revertido, porque a política é uma forma mais elevada de caridade social. O amor social se expressa no trabalho político para o bem comum".

- "Já dizia Platão em A República: a retórica - que viria a ser a estética - é para a política o que a cosmética é para a saúde. Saímos do essencial para o estético, endeusamos a estatística e o marketing".

- "Não é ruim quando a religião dialoga com o poder político, o problema é quando se associa a ele para fazer negócios por baixo do pano. E na história argentina acho que houve de tudo".

- "A globalização que uniformiza é essencialmente imperialista e instrumentalmente liberal, mas não é humana. Em última instância, é uma maneira de escravizar os povos. É preciso salvaguardar a diversidade na unidade harmoniosa da humanidade. Um povo tem que manter sua identidade e, ao esmo tempo, integrar-se com os outros".

- "O cristianismo condena com a mesma força tanto o comunismo quanto o capitalismo selvagem. Existe uma propriedade privada, mas com a obrigação de socializá-la em parâmetros justos".

- "Todos pensam que a Igreja é contra o comunismo; mas é tão contra esse sistema quanto do liberalismo econômico de hoje, selvagem. Isso também não é cristianismo, não podemos aceitá-lo. Temos que buscar a igualdade de oportunidades e de direitos, lutar por benefícios sociais, aposentadoria digna, férias, descanso, liberdade de associação. Todas essas questões dizem respeito à justiça social".

Marcelo Beraba, diretor da sucursal do Rio do jornal O Estado de S. Paulo, em coluna para o Broadcast Político.

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