SERGIO NEVES/AE
SERGIO NEVES/AE

Dilma condena aborto, mas diz não fechar os olhos

Petista cumpre expectativa de aliados para driblar rejeições de evangélicos e católicos e conclama igrejas a trabalhar com governo

Malu Delgado, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2010 | 00h00

Numa ofensiva direta e com o mais contundente discurso desde o início do segundo turno, a presidenciável Dilma Rousseff (PT) falou abertamente ontem sobre o tema aborto para uma plateia de militantes e aliados. A petista disse ser pessoalmente contra o aborto, mas afirmou que, caso seja eleita presidente, não permitirá que mulheres pobres e adolescentes sejam abandonadas pelo Estado.

Com o novo discurso, a petista lançou a vacina esperada pela militância e pela coordenação da campanha para tentar superar a rejeição do voto de evangélicos e católicos. Ela ainda conclamou as igrejas a trabalharem junto com o governo federal numa política de esclarecimento.

"Eles ficam falando que eu sou a favor do aborto. Eu, como pessoa, sou contra o aborto. Porque o aborto é uma violência contra a mulher. Agora, eu, como presidenta da República, não fecharei meus olhos para milhares ou milhões de mulheres adolescentes, mulheres pobres, que em momentos de desespero, sem proteção, porque não sabem criar seus filhos, cometem atos extremos que colocam a vida delas em risco", disse a petista.

A presidenciável continuou: "Como presidenta eu não tratarei essas mulheres como questão de polícia. É uma questão de saúde. E mais: é uma questão de política comunitária, em que as religiões têm um papel fundamental para esclarecer essas mulheres, para não deixar que elas incorram neste tipo de atitude."

Dilma afirmou que, em sua campanha, chamará as igrejas e comunidades a trabalharem junto com os governos em prol de uma política "que assegure para todas as mulheres, em qualquer estágio de gravidez, que elas poderão criar seus filhos com dignidade". "Um país que não faz isso não pode ser considerado um país desenvolvido."

Até mesmo a posição de avó foi invocada pela candidata para rebater as críticas de que o PT e o governo federal trabalham a favor da legalização do aborto. "Passei nestes últimos meses um processo muito feliz. Eu vi a minha filha única se aproximar da hora do parto. Vi meu neto nascer, e vi meu neto ser batizado. Uma pessoa que viu a manifestação da vida dentro da sua família não pode, jamais, ser contra a vida."

Aliados e apoiadores de Dilma presentes ontem ao ato de lançamento da campanha na capital paulista, demonstraram disposição em fazer do Estado a trincheira do segundo turno, com ataques diretos ao adversário José Serra (PSDB).

Opção. Recém integrado à coordenação nacional de campanha da Dilma, o ex-ministro Ciro Gomes (PSB) não poupou críticas a tucanos e aos democratas, e tratou de justificar a opção por estar ao lado do PMDB, partido ao qual acusou de ter "frouxidão moral". "É uma imposição da vida brasileira. Ninguém governa esse país sozinho. Se há contradição aqui, nenhuma delas é pior que a imundície que cimenta a tradição do PSDB e do DEM", disse Ciro, que abriu seu discurso relembrando que não tem "papas na língua".

Para o presidente nacional do PMDB e candidato a vice na chapa de Dilma, Michel Temer, tucanos estão fazendo "uma campanha subterrânea". "Mas a campanha subterrânea é desmentida pelos fatos", disse. Temer comemorou o fato de vários evangélicos presentes estarem usando camisetas com os dizeres: "Sou evangélico, estou com a verdade e voto Dilma."

O presidente nacional do PT, José Eduardo Dutra, criticou diretamente a gestão de Serra em São Paulo e fez um apelo direto à militância: "A ação militante de cada um de vocês é o que vai fazer a diferença nas semanas que faltam. Não vai permitir que uma campanha de calúnias, baixezas, mentiras e xingamentos saia vencedora no dia 31 de outubro."

Marina. Coube ao candidato derrotado do PT para o governo do Estado, Aloizio Mercadante, fazer um apelo público na tentativa de sensibilizar a presidenciável Marina Silva (PV), terceira colocada na disputa.

"Quero dialogar com uma companheira com quem eu vivi por 30 anos. Nós militamos juntos, nós choramos as mesmas lágrimas quando enterramos Chico Mendes, Florestan Fernandes e Paulo Freire. E já lá enfrentávamos os mesmos métodos presentes hoje, o terrorismo, o medo, a mentira. Me lembro em 1989 a indignação da Marina quando diziam que o Lula fecharia todos os templos evangélicos do País", afirmou Mercadante.

O petista disse à militância que Marina esteve do mesmo lado do PT e do governo Lula, participando inclusive do ministério por sete anos. "Esteve conosco em mais de sete anos do governo. Contra quem? Contra o PSDB e o DEM que sempre estavam ao lado das forças conservadoras", argumentou.

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