Dilma já pensa em pontes com o PSDB

Petista faz afago a Serra após campanha marcada por denúncias: ''Fim da eleição, fim dos conflitos''

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2010 | 00h00

Dilma Rousseff tem fama de durona, mas crava as duas mãos na poltrona do avião quando avista nuvens no horizonte. Depois de muitos chacoalhões numa disputa em dois tempos, porém, a candidata do PT ao Palácio do Planalto não enxerga mais turbulências no seu plano de voo. Com a expectativa de se eleger hoje a primeira mulher presidente do Brasil, ela já ensaia o discurso da conciliação com o adversário José Serra (PSDB).

"Sempre é necessário reconstruir pontes", disse Dilma ao Estado, no fim da tarde de quarta-feira, após gravar um de seus últimos programas de TV para o horário eleitoral. Quase sem voz depois de uma maratona de 28 comícios, a ex-chefe da Casa Civil afirmou não guardar mágoas de Serra, apesar do confronto diário da última temporada. "Fim da eleição, fim dos conflitos", resumiu ela. "Depois da votação, qualquer que seja o resultado, o País deve se unir em torno de seu projeto."

O aceno na direção do tucano não reflete a temperatura da campanha presidencial. Em 118 dias de batalha, os comitês do PT e do PSDB encaminharam 338 representações ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a maioria delas pedindo direito de resposta na propaganda política, sem contar a penca de ações por injúria, calúnia e difamação.

Marcada por denúncias de corrupção de lado a lado, acusações de quebra de sigilo fiscal e produção de volumosos dossiês, a disputa pelo Planalto ressuscitou antigas polêmicas, como a do aborto, e deixou o comitê petista atordoado quando entrou no segundo turno.

Três porquinhos. Fiador da candidatura de Dilma, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o primeiro a cobrar mudanças, logo após constatar, no último dia 3, que os quase 20 milhões de votos conquistados pela ex-petista Marina Silva (PV) tinham empurrado a eleição para nova rodada.

Irritado, Lula queixou-se da falta de comparação entre seu governo e o de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e ordenou que as privatizações promovidas por tucanos entrassem no ar, em contraponto com a descoberta do pré-sal e o fortalecimento da Petrobrás.

Sobraram broncas para o marqueteiro João Santana e para os três coordenadores da campanha: José Eduardo Dutra, presidente do PT, José Eduardo Martins Cardozo e Antonio Palocci, deputados do partido. Por estarem acima do peso, Dutra, Cardozo e Palocci foram batizados por Dilma de "os três porquinhos".

A certeza da vitória no primeiro turno era tanta que até mesmo uma festa foi preparada ao lado do Ginásio Nilson Nelson, a poucos quilômetros da Esplanada. Coxinhas, empadinhas e outros quitutes encomendados a um famoso buffet de Brasília esfriaram, à espera dos convidados ilustres.

Na primeira reunião de balanço sobre os percalços enfrentados no embate contra Serra, o PT foi para o divã. Lula definiu a campanha de Dilma como "despolitizada e chocha". Foi além: disse que a equipe patinou na agenda negativa do aborto, na sua opinião "uma hipocrisia", e não conseguiu mobilizar os militantes por estar "de salto alto".

A catarse continuou por mais alguns dias, durante encontros de Dilma e Lula com governadores eleitos, e da Executiva do PT com coordenadores estaduais do time. No diagnóstico do QG dilmista, o inferno astral começou em setembro, após o escândalo envolvendo a então ministra da Casa Civil Erenice Guerra, defenestrada por montar um esquema de tráfico de influência no governo, com a nomeação de parentes e amigos.

A portas fechadas, dirigentes de partidos aliados e até mesmo petistas escancararam a insatisfação com os rumos da campanha: disseram que o episódio Erenice e as críticas de Lula à imprensa subtraíram votos da classe média, que, desconfiada com o PT, migrou para Marina.

Diante de pesquisas indicando que a crise na Casa Civil ressuscitou o fantasma do mensalão, de 2005, Dilma adotou a tática bumerangue no segundo turno. Por essa estratégia, toda vez que Serra apontava o dedo para Erenice, a petista citava Paulo Vieira de Souza, ex-diretor da Dersa suspeito de desviar R$ 4 milhões da campanha tucana.

Mesmo com as mudanças empreendidas, integrantes da coligação governista - com o PMDB do vice Michel Temer (SP) à frente - reclamaram de isolamento e de serem excluídos das decisões. Em conversas reservadas, alguns chegaram a comentar que o PT havia "sequestrado" a candidata.

Embora a coordenação da campanha tenha sido ampliada, abrigando Ciro Gomes (PSB) e Wellington Moreira Franco (PMDB), na prática o núcleo de decisão continuou sob o comando do triunvirato formado por Dutra, Palocci e Cardozo.

"No primeiro turno, meteram na cabeça que estávamos numa canoa descendo o rio e que nenhum de nós precisava fazer mais nada. Ninguém reagia aos ataques. Foi um erro", constatou o vice-presidente do PSB, Roberto Amaral. "Não aceitamos essa história de eleição para um partido só ganhar e tomar decisões", emendou o líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves (RN), de olho na presidência da Câmara, cargo também cobiçado pelo PT.

"Dose pra mamute". A polêmica sobre a legalização do aborto também dividiu o comitê de Dilma. Palocci, por exemplo, não achava bom convocar uma reunião de Lula e da candidata com evangélicos, principalmente porque, entre eles, estavam expoentes do PMDB acostumados a apresentar uma lista de reivindicações, como o deputado Eduardo Cunha (RJ). Foi voto vencido. "Subestimamos o potencial de desgate da boataria", admitiu o chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, ex-seminarista encarregado de aproximar a candidata dos cristãos.

Sob pressão de religiosos, Dilma assinou, há 16 dias, uma carta na qual se compromete a não enviar ao Congresso, caso seja eleita, projetos que alterem a lei sobre o aborto, atualmente só permitido em caso de estupro e risco de morte para a mãe.

A mensagem subscrita por Dilma, porém, foi a segunda versão do texto preparado por um grupo de católicos e evangélicos. A candidata se recusou a assinar o primeiro rascunho, que condenava com todas as letras o casamento gay e continha mais adjetivos contra o aborto.

"É dose pra mamute", protestou Dilma. Em 2007, ela chegou a defender a descriminalização do aborto, mas na corrida ao Planalto trocou o termo por "questão de saúde pública".

Na guerra santa em que se transformou a campanha, o comando do PT acusou Serra de espalhar "calúnias" na internet, além de panfletos em templos e igrejas para jogar Dilma contra os cristãos. "Numa hora ela é contra o aborto; em outra, é a favor", rebateu o tucano.

Foi Dilma quem vetou, no entanto, o plano de sua equipe de pôr no programa eleitoral de TV a informação de que Monica Serra, mulher do candidato do PSDB, fizera um aborto, na época da ditadura. Em setembro, Monica dissera a um ambulante, eleitor do PT, no Rio, que Dilma era a favor de "matar criancinhas".

Para a candidata, a discussão que dominou essa temporada embutiu o preconceito contra a mulher. "Não acredito que numa campanha entre dois homens esses temas teriam tanta relevância", afirmou ela ao Estado. "Trazer para o centro da disputa a questão religiosa não foi bom para o Brasil."

Orai e vigiai. Pelo sim, pelo não, Dilma adotou o nome de Deus no segundo turno e o mantra repetido à exaustão em seu comitê tem dois verbos: "Orai e vigiai." Nos últimos dias, ela encerrou seus discursos com um indefectível "se Deus quiser e com a graça de Deus, vamos conquistar a vitória". Na estratégia traçada depois do susto, quando Serra começou a subir nas pesquisas de intenção de voto, a arrogância foi arquivada e Dilma ficou mais solta e menos formal.

Conhecidos como "Alfredo e Alberto", os dois púlpitos de acrílico usados no primeiro turno para acomodar microfones saíram de cena, assim como os cercadinhos que afastavam a candidata dos repórteres. Em Brasília, os púlpitos geralmente são utilizados apenas pelo presidente.

Além do afago aos cristãos e da inclusão das privatizações na propaganda, a guinada na comunicação incluiu uma overdose de Lula nos programas de TV de Dilma e nos comerciais, considerados mais eficientes para atrair o eleitor indeciso. Antes, as aparições eram dosadas para não ofuscar a candidata.

Serra acusou o PT de confeccionar dossiês contra ele. "Isso foi coisa de tucano tentando bicar tucano, mas, para não se ferirem, jogaram a culpa no coitado do PT, que é sempre o bode expiatório", devolveu Lula, em alusão à disputa entre Serra e o então governador de Minas Aécio Neves (PSDB) - hoje senador eleito - para a definição do candidato ao Planalto.

Com a campanha radicalizada, militantes do PT e do PSDB entraram em confronto no Rio, há 11 dias, durante uma caminhada de Serra. O tucano foi atingido na cabeça por uma bolinha de papel e por um rolo de fita adesiva. Saiu dali direto para o médico. Lula carimbou como farsante o candidato do PSDB, chamado por ele de "esse cidadão".

A tentativa do presidente de amenizar a agressão provocou protestos na seara tucana e no DEM. Nos bastidores, aliados do PMDB também classificaram a reação de Lula como exagerada. No outro dia, em Curitiba, Dilma quase foi alvejada por três bexigas de água.

Exausta após a maratona que incluiu 10 debates, 16 carreatas e 90 entrevistas coletivas, a candidata do PT chega hoje ao dia mais importante de sua longa jornada com um novo hábito: por onde vai, leva na bagagem uma raiz de ginseng, presente do acupunturista Gu Hanghu. Dizem os chineses que o chá da raiz aumenta o poder de resistência diante das pressões. Na política, Dilma vai precisar.

QUEM É

Dilma Rousseff

Nome: Dilma Vana Rousseff

62 anos de idade

Coligação: PT, PMDB, PC do B, PDT, PRB, PR, PSB, PSC, PTC e PTN

Currículo: Economista

Cargos que ocupou: Foi secretária da Fazenda da Prefeitura de Porto Alegre, secretária de Energia, Minas e Comunicação do Rio Grande do Sul, ministra de Minas e Energia e ministra-chefe da Casa Civil

Família: Teve dois casamentos, já desfeitos. Tem uma filha

Coordenadores políticos: Antonio Palocci, José Eduardo Dutra e José Eduardo Martins Cardozo

Marqueteiro: João Santana

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