Dilma muda discurso para melhorar imagem

Tratar aborto como uma questão de saúde pública é visão majoritária dentro do PT e entre os intelectuais

, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2010 | 00h00

Ao defender o direito das mulheres pobres de ter acesso ao aborto no serviço público de saúde, e ao abordá-lo não como questão de foro íntimo, mas de saúde pública, na entrevista à Istoé e noutras declarações, Dilma Rousseff estava apenas expondo uma posição aprovada em congressos do PT e amplamente aceita entre intelectuais e a classe média, não só de esquerda. Mas ardentemente rejeitada por outra fatia importante da sociedade.

Esse e outros vídeos são exibidos à exaustão em programas religiosos, nos quais pastores evangélicos e padres católicos pedem que não se vote em Dilma - que associam também à união civil de homossexuais. Um vídeo apresentado pelo pastor Paschoal Piragine Júnior, da 1ª Igreja Batista de Curitiba, chega a vincular as posições do PT à desagregação da família e à pedofilia.

Oficialmente, a CNBB não apoia nem veta candidatos. Mas uma declaração intitulada "Votar Bem", emitida em 29 de junho pela regional de São Paulo, aconselhava a "ver se os candidatos e seus partidos estão comprometidos com o respeito pleno pela vida humana desde a concepção até à morte natural". O texto levou o bispo de Guarulhos, d. Luiz Gonzaga Bergonzini, a recomendar aos fiéis que não votassem em Dilma.

A candidata do PT lançou em agosto uma "Carta ao Povo de Deus", o equivalente moral da "Carta ao Povo Brasileiro" - com que Lula procurou dissipar, em 2002, os temores de que ele poria a perder a estabilidade econômica. Nela, Dilma (como Marina) também lava as mãos, transferindo a decisão sobre o aborto e os homossexuais para o Congresso. Quatro dias antes do primeiro turno, ela reuniu 27 líderes católicos e evangélicos para desmentir que tivesse dito que "nem Jesus Cristo tiraria sua vitória", como circulava na internet. A rede espalha boatos ainda mais extravagantes, como o de que seu vice, Michel Temer, praticaria o "satanismo", e faria o câncer de Dilma voltar, para assumir a presidência.

Seu programa eleitoral, reiniciado na sexta-feira, apresenta-a como defensora da vida e da família. O de Serra faz o mesmo e sugere que a adversária ajustou suas convicções ao humor dos eleitores. O voto religioso, que Dilma tanto buscou, acabou por persegui-la e colocá-la na defensiva.

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