Dilma reajusta os benefícios do Bolsa Família após promessas de aperto fiscal

Presidente anuncia na Bahia aumento médio de 19,4% na bolsa a crianças e jovens carentes, afirma que famílias ficaram 18 meses sem receber correção porque governo não fez uso eleitoral do programa e reage a críticas em relação a cortes no Orçamento

Tânia Monteiro e Tiago Décimo, O Estado de S.Paulo

02 Março 2011 | 00h00

Um dia após o governo detalhar o pacote da "consolidação fiscal", que prevê um corte na carne de R$ 13,1 bilhões do Orçamento deste ano, a presidente Dilma Rousseff anunciou ontem um reajuste médio de 19,4% nos benefícios do programa Bolsa Família a partir de abril. O aumento deve provocar uma elevação de R$ 2,095 bilhões nas despesas do governo federal este ano. Será um aumento de 8,7% acima da inflação do período, superando a correção dada pelo governo ao salário mínimo.

Com o reajuste, os valores pagos às famílias de baixa renda serão de no mínimo R$ 32 e no máximo de R$ 242, ante os atuais R$ 22 a R$ 200. A parcela variável, determinada segundo o número de filhos, aumentou 45,5% para os dependentes com idade entre zero e 15 anos, e 15,2% para a faixa de 16 a 17 anos. Na média, o valor do benefício subirá de R$ 96 para R$ 115.

Falando de improviso em pleno sertão baiano, Dilma afirmou que o governo "não fez política com o Bolsa Família em época de eleição". Os benefícios estavam sem aumento havia 18 meses.

A Bahia foi escolhida a dedo para a realização da cerimônia. O Estado tem o maior número de pessoas que recebem o Bolsa Família - 1,65 milhão dos 12,9 milhões que têm este apoio governamental.

Segundo Dilma, o objetivo do governo com o reajuste foi privilegiar as famílias que têm mais filhos porque "crianças e adolescente têm mais dificuldades de enfrentar a vida". A presidente disse que os mais velhos têm a proteção da aposentadoria.

Em seguida, Dilma avisou que vai lançar, em breve, um programa de erradicação da miséria, sem especificar que novos benefícios serão criados para a população carente.

Cortes. Em Salvador, a presidente reagiu às críticas recebidas ao corte no Orçamento (que, segundo o governo, será de R$ 50 bilhões) e disse que fará de tudo para manter a inflação sob controle. "Nós não teremos contemplação com a inflação", insistiu ela. "A inflação é como um câncer, que corrói o tecido econômico e social."

Ao participar da cerimônia de anúncio do Terminal de Regaseificação da Bahia, obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) que terá recursos de US$ 706 milhões, Dilma disse não ver contradição entre o investimento e a tesourada nos gastos. "Não é contradição com o nosso corte de despesas. Nós estamos cortando o custeio administrativo, não estamos cortando os investimentos", afirmou.

Em nenhum momento de seu discurso, Dilma mencionou o programa Minha Casa, Minha Vida, que sofreu corte de R$ 5,1 bilhões. "O meu governo não vai parar de investir. Vamos controlar os gastos, mas não para parar de investir nem para fazer com que o País pare de crescer", argumentou ela. "Estamos controlando os gastos públicos para que o País cresça mais, com mais qualidade e de forma mais acelerada."

Contrastes. A ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, disse que não considera um contrassenso o governo dar reajuste maior para o Bolsa Família do que para o mínimo, que ficou este ano só com a correção da inflação (6,8%).

A ministra defendeu a importância do reajuste, afirmando que uma família com dois filhos, que recebia R$ 112, passará a receber R$ 134. Acrescentou que a diferença de R$ 22 é suficiente para que se compre todo o arroz e feijão a ser consumido no mês.

O valor básico do benefício passou de R$ 68 para R$ 70. Tereza Campello destacou ainda que só 0,1% das pessoas recebe o teto máximo do benefício de R$ 242.

A bola. No evento em Irecê, a plateia aplaudiu quando Dilma Rousseff disse que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva estará com ela nos próximos quatro anos e que ela dará continuidade à transformação social que ele iniciou em oito anos de governo.

"Agora, a bola está conosco, sobretudo com as mulheres que sabem ter coragem", completou a presidente.

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