Roberto Stuckert Filho/PR
Roberto Stuckert Filho/PR

Dilma vira diva em noite de festa no palácio

Presidente demonstra bom humor ao abrir sua sala de exibição a cineastas, atrizes e ministras

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

27 Março 2011 | 00h00

ENVIADA ESPECIAL / BRASÍLIA

Nunca antes na história de Lula houve uma noite como a de sexta-feira passada no Palácio da Alvorada.

Mostrando afabilidade e simpatia surpreendentes, a presidente Dilma Rousseff deu mostras de que, se é verdadeira a tese do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de que ela não venceu as eleições por conta das características identificadas com o universo feminino - se credenciando por meio de uma história pessoal na qual o sexo pouco diferença fez -, ela agora busca o caminho inverso.

Dilma está visivelmente procurando dedicar boa parte deste início de governo a "elas". Mulher no poder faz diferença.

Depois da série de entrevistas dadas à representantes do sexo feminino, durante este mês comemorativo do Dia Internacional da Mulher, a presidente Dilma abriu sua "casa" anteontem à noite a pouco mais de 50 "representantes da categoria". Todas convidadas para assistir ao filme É Proibido Fumar, da premiada cineasta Anna Muylaert. A atração foi seguida de um jantar.

Homenagem. O evento, marcado para a data em que a atriz Leila Diniz (morta em 1972 em um desastre aéreo) faria 66 anos, como bem lembrou Ana Maria Magalhães, autora de documentário presenteado a Dilma sobre a vida da atriz, começou às 19 horas e foi longe, terminando quase a 1 hora da manhã.

Ninguém do "clube da Luluzinha" se movimentou para ir embora. E a presidente, mesmo aparentando um certo cansaço, deu sinais de que estava gostando de estar ali.

Mudança na Vale. Sem aparentar pressa depois de um dia certamente atribulado, que teve o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ao telefone e problemas na Vale, a sucessora de Lula não demonstrou incômodo ante o intenso assédio de algumas convidadas. As poucas representantes da imprensa, por exemplo, queriam saber quem será o substituto de Roger Agnelli no comando da Vale ou a razão pela qual Lula não atendeu ao convite de Dilma para participar do almoço oferecido a Obama.

As atrizes e cineastas estavam tão à vontade que em alguns momentos elas pareciam se esquecer de que estavam diante da dirigente máxima do País, a quem chamavam e apenas de Dilma.

Disciplina. A presidente se esquivou bem das questões incômodas, sinalizando que, apesar da cordialidade, será difícil fazer com que ela revele algo que não queira. Disciplina absoluta. E teve extrema paciência em responder às cineastas e atrizes. Só em um momento quase a perdeu: quando teve de ouvir uma longa defesa dos quilombolas de Alcântara (MA), que, por meio de acordo altamente vantajoso, selado com o Ministério da Defesa, já conquistaram dois terços do território da Base da Alcântara.

Foram muitas risadas, conversas sobre rugas, roupas, filmes (sim, Dilma é cinéfila) e outras coisas do universo feminino.

Obras de arte. O evento começou no salão principal da casa da presidente da República, onde moram dois Portinaris, duas estátuas de Brecheret ladeadas por móveis de Sergio Rodrigues. E terminou no salão de jantar, dividido em oito mesas de sete pessoas. Dilma circulou por todas.

"Estamos no Palácio da Alvorada, rindo com a presidente", observou Daniela Thomas que, como Suzana Amaral, Lucia Murat, Tizuka Yamasaki, Ana Maria Magalhães, Ana Carolina, Suzana Werneck, Lo Politi, Patrícia Pillar ou Tetê Moraes, se sentiu lisonjeada com o convite presidencial. A maioria pediu autógrafos à presidente, como a atriz Glória Pires.

Não que os problemas da inoperância da Agência Nacional do Cinema (Ancine), da distribuição precária de filmes no Brasil ou da falta de acesso aos cinemas por parte das classes C e D possam ser resolvidos em uma noite, como bem apontou a cineasta Tizuka Yamasaki.

"Mas ela nos chamou, nos ouviu. O encontro foi maravilhoso", declarou Tizuka, com o apoio de 99% das presentes. "Tá todo mundo feliz", observou Ana Muylaert.

Boa anfitriã. Vestindo um discreto vestido preto, sapatilha baixa e xale estampado em preto e prateado, Dilma fez questão de ir de roda em roda dar boas-vindas.

Logo depois, chamou as suas convidadas, entre elas as ministras Ana Buarque de Hollanda (Cultura), Maria do Rosário (Direitos Humanos) e Helena Chagas (Comunicação), para se sentarem na espaçosa sala de cinema. Curiosidade: a poltrona destinada ao chefe de Estado, situada no alto da sala, tem espaçamento maior do que as demais.

Ana Muylaert fez um discurso emocionado pela escolha do filme, por estar ali. Dilma retribuiu com uma ode sobre a importância da mulher, deixando claro ser a sala de cinema do Palácio do Planalto um espaço público. E que, portanto, terá uso coletivo que se iniciou com as mulheres cineastas e seguirá com outros eventos, independentemente do sexo dos convidados.

Lembrou existir no País a fome básica, do brasileiro pobre, a ser permanentemente combatida. Mas ressaltou existir no universo da população a fome de cultura. Mesmo que muitos brasileiros nem sequer tenham consciência disso.

Avaliação

DILMA ROUSSEFF

PRESIDENTE DA REPÚBLICA

"Muitos brasileiros não sabem que têm (fome de cultura), mas têm"

TIZUKA YAMASAKI

CINEASTA

"Ela (Dilma) nos chamou, nos ouviu. O encontro foi maravilhoso"

DANIELA THOMAS

CINEASTA

"Estamos no Palácio, rindo com a presidente"

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