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Do lado do valão, moradores da Maré desejam viver em um lugar digno

Thaise Constâncio - O Estado de S. Paulo

31 Março 2014 | 18h 22

Eles se queixam da falta de saneamento básico e da sujeira, dos ratos e mosquitos que tomam conta do local; também dizem que lá não é um local para criar os filhos

RIO - A cem metros do local onde foi instalada a base do Batalhão de Choque na Vila dos Pinheiros, no Complexo da Maré, zona norte do Rio, está a localidade MacLaren, um dos poucos espaços onde ainda se encontram barracos de madeira. Sem água encanada, sem esgoto, ao lado de um valão que, de tão sujo, a água já não corre mais, os moradores só pensam em uma coisa: viver em um lugar digno.

"Sou pobre, mas morar em uma situação dessas é humilhante e muito triste", desabafou Robson, de 40 anos, que sempre viveu na localidade. Pai de quatro filhos, ele divide um cômodo de dois metros quadrados com os dois meninos e as meninas vivem com a mãe em outro lugar. "Sonho em ter a minha casa, só que não tenho condições de morar em outro lugar. Espero que com a chegada da UPP."

De um cano no meio do caminho sai a água que todos usam para beber, cozinhar e tomar banho. "Às vezes dá até dor de barriga", afirmou Sara, de 33 anos, que há dois anos mora no barraco de madeira, sem banheiro e sem cozinha que pertencia a irmã, dependente química. Lá, Sara cuida da sobrinha de 3 anos, do filho mais velho e do atual marido. Os outros quatro filhos, ela deixou em um abrigo no Maracanã, zona norte, depois que o pai das crianças morreu sem deixar pensão. "Aqui não é lugar para cuidar dos filhos, não tenho nem banheiro. Tive que deixar eles (sic) lá."

No local, repleto de ratos, ratazanas e mosquitos, ela prepara a comida em um fogão de tijolo, fora de casa. "Vivemos assim, sem condições para nada. Nem a polícia nem a prefeitura querem entrar aqui. Eles só olham lá para fora (para a Vila dos Pinheiros)", reclamou. "Espero que agora, com essa ocupação, eles olhem para a gente. Só queria ter uma casa onde eu pudesse criar os meus filhos". "Do lado de fora" da MacLaren, onde as casas são feitas de alvenaria, os moradores esperam melhorias nos serviços públicos. "Queremos o que todo mundo quer: saúde e educação", afirmou um morador. "Também espero que eles regularizem o abastecimento de água, que só chega de madrugada e mesmo assim, é pouco."

Outra moradora, na Maré há 11 anos, espera poder transitar pelas 16 favelas do Complexo sem receio de ultrapassar os limites impostos pelo domínio de duas facções e uma milícia. A filha de 10 anos faz balé, violão e natação na Vila Olímpica da Maré, considerada um lugar neutro, apesar de estar em uma zona de conflito: entre as favelas Nova Holanda, comandada pelo Comando Vermelho e Baixa do Sapateiro, do Terceiro Comando Puro. "Agora as coisas vão melhorar, as crianças vão ter um futuro melhor porque não terão que conviver com a violência. Não vamos mais ter problemas com o morador de um lado que for para o outro. Agora é tudo uma coisa só."

Ocupação. Neste domingo, 30, o Complexo da Maré foi ocupado por cerca de 1,2 mil homens das polícias Militar e Civil, com apoio de 21 blindados e 250 fuzileiros navais da Marinha. Também foram usados quatro helicópteros na operação que durou menos de 15 minutos. Hoje, crianças da comunidade brincavam no Caveirão, veículo blindado da PM, que era usado em incursões nas favelas cariocas.