SEBASTIÃO MOREIRA/EFE
SEBASTIÃO MOREIRA/EFE

Do picadeiro ao plenário

Tiririca foi apelido dado pela mãe, que assim o chamava quando zangado; fenômeno das urnas de 2010, o palhaço começou no circo aos 8 anos

Carmen Pompeu, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2010 | 00h00

Depois de arrebanhar 1,3 milhão de votos para deputado federal e despertar paixões em sua defesa ou em desprezo por sua atuação política, o cearense Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca, isolou-se em Fortaleza e fugiu de entrevistas. Espera o momento ideal de fazer declarações sobre sua eleição e sobre a polêmica sobre seu suposto analfabetismo.

Deixou muitos brasileiros se perguntando: quem é, afinal, Tiririca? Sua trajetória de vida e artística é conhecida, mas não em detalhes. Ele nasceu no dia primeiro de maio de 1965, em Itapipoca. O município, que em tupi significa pedra lascada, fica no litoral oeste cearense e é conhecido como "cidade dos três climas", porque abrange sertão, serra e mar.

Ele começou a trabalhar aos 8 anos de idade nos picadeiros. Largou a família e foi embora com o circo que passava pela cidade. O apelido Tiririca foi dado pela mãe. Era assim que ela o chamava quando o filho estava zangado.

Tiririca começou como trapezista. Depois, foi malabarista e mágico. Um dia o palhaço oficial do circo faltou e ele ocupou seu lugar. Agradou tanto, das crianças aos idosos, que, com o passar do tempo, se tornou o palhaço mais requisitado do Ceará.

Fez sucesso se apresentando nas tendas de praia de Fortaleza. Com a ajuda dos donos dessas barracas, conseguiu gravar um CD, cujo carro-chefe era a música Florentina, que o tornou conhecido nacionalmente.

O primeiro CD também causou polêmica, por conta da música Veja os Cabelos Dela, considerada racista, já que o tal cabelo "parece bombril, de ariá panela". Os discos foram apreendidos, a execução das canções pelas rádios foi proibida e Tiririca, processado. Ele acabou sendo absolvido da acusação.

Circo mambembe. Tiririca teve seu próprio circo. Nada muito luxuoso. Circo mambembe, de poeira, sem lona, que era armado nos terrenos baldios dos bairros periféricos de Fortaleza. Era uma espécie de faz-tudo: administrador, apresentador, trapezista. Mas sua maior especialidade era mesmo arrancar risadas da plateia.

Eleito, no dia 3 deste mês, o deputado federal mais votado em São Paulo com mais de 1 milhão de votos, Tiririca veio recarregar as energias gastas durante a campanha nas praias cearenses. Chegou na madrugada do dia 4.

No desembarque do Aeroporto Pinto Martins, foi recebido por um punhado de humoristas cearenses, que sonham ter o reconhecimento nacional que Tiririca conquistou. Também estava esperando por ele um dos filhos, Ângelo. "Acho que ele foi eleito pela clareza das propostas. Disse que iria ajudar a família e com o que sobrar ajudar os outros", brincou Ângelo.

Tiririca apareceu de cara limpa. "Foi fantástico. Para um nordestino, um cearense, isso é muito voto. Não imaginava isso", disse. "A gente vai levar a coisa a sério, se Deus quiser."

Mas também não deixou de brincar, dizendo que não corre o risco de ser pego com dinheiro na cueca - alusão ao episódio que envolveu um ex-petista cearense. "Eu não uso cueca", afirmou. O paletó para o dia da posse, segundo ele, já está separado.

Durante a campanha. Tiririca contou com a ajuda de um dos filhos, Everson, que segue os passos do pai e tem se destacado na Rede Record como o palhaço Tirulipa.

Em busca da fama em São Paulo, Everson deixou mulher e filhos em Fortaleza. Segundo ele, Tiririca é um orgulho para o povo cearense. "Ele sentiu na pele. Comeu o pão que o diabo amassou. Ele sabe o que fazer. Inteligência para roubar qualquer um tem. O cara tem que ter é o coração bom e saber o que fazer pelo povo."

Analfabetismo. Depois das entrevistas no aeroporto, Tiririca "mergulhou", não quis falar com nenhum jornalista. Os assessores informaram que ele queria descansar. Uma coletiva deverá ser organizada pelo PR nesta semana. Antes, falaria apenas com a Record, com a qual tem contrato.

Os filhos também não quiseram falar sobre a denúncia feita pela revista Época, relatando que Tiririca seria analfabeto e teria forjado uma declaração para registrar sua candidatura no Tribunal Regional Eleitoral, de São Paulo (TRE-SP).

Shaolin, comediante que trabalhou com Tiririca no Show do Tom, na Record, por quatro anos, conta que o ex-colega é tímido, generoso e muito discreto. "Nunca perguntei se ele era analfabeto, até por respeito", diz o artista. Mas ele lembra que Tiririca sempre chegava ao estúdio com os textos na ponta da língua, decoradinho. "Ele nunca falhou no texto, nunca deu trabalho." E acrescentou: "Para o humor pode ser muito mais perigoso não saber ler do que para a própria política."

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