Doleiro enviou US$ 20,7 mi para EUA

Marco Cursini, cuja delação é tida como peça-chave para manter Castelo de Areia, operou conta em nome de offshore das Ilhas Virgens

Fausto Macedo, O Estado de S.Paulo

11 Março 2011 | 00h00

O doleiro Marco Antônio Cursini, que a Procuradoria da República aponta como personagem-chave para manter de pé a Operação Castelo de Areia, movimentou US$ 20,7 milhões no exterior em conta de titularidade da offshore Goldrate Corporation - com sede nas Ilhas Virgens Britânicas e controlada por ele. Laudo da Polícia Federal mostra que o fluxo de recursos, supostamente de empresários e políticos, se deu entre janeiro de 2000 e junho de 2002.

Sob acusação de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e sonegação, Cursini foi condenado em 2009 a 3 anos e 3 meses de prisão, convertida em prestação de serviços comunitários impostos pela Justiça Federal em São Paulo, e multa de R$ 2 milhões.

Cursini é o autor da delação premiada que, na avaliação do Ministério Público Federal, pode ser a peça crucial para impedir o arquivamento da Castelo de Areia - investigação da PF sobre crimes financeiros atribuídos a três executivos da Construtora Camargo Corrêa. Em seu relato, ele confessou serviços que teria prestado para um ex-ministro do governo Lula, apontou nomes de políticos e citou Kurt Paul Pickel, doleiro que, segundo Cursini, fazia câmbio para os dirigentes da empreiteira.

Na próxima terça-feira, o Superior Tribunal de Justiça (STJ)retomará julgamento do habeas corpus 159159/SP, por meio do qual a defesa da Camargo Corrêa pretende trancar o processo judicial sob alegação de que os executivos não cometeram crime e que interceptações telefônicas e outras medidas invasivas foram autorizadas pela 6.ª Vara Criminal Federal em São Paulo com base exclusivamente em denúncia anônima.

A Procuradoria afirma que a delação de Cursini, feita em 2007, também deu sustentação à Castelo de Areia. A defesa, porém, alega que o depoimento do doleiro foi ocultado pela 6.ª Vara e que a Procuradoria tenta "confundir" os ministros do STJ.

Esquema CC5. Cursini já foi apontado pela PF como um dos mais atuantes doleiros do País, com escritório na Rua Joaquim Floriano, no Itaim-Bibi, zona sul de São Paulo. Inquérito da PF, que deu base à sua condenação, apurou que ele manteve a conta da Goldrate Corporation no Merchants Bank de Nova York - os ativos de cidadãos brasileiros depositados no Merchants foram bloqueados pelos Estados Unidos, por ordem da United States District Court of New Jersey.

A PF constatou que Cursini foi um dos principais operadores do esquema CC5, contas mantidas no País por residentes no exterior. Rastreamento da Receita indica que 11,2 mil brasileiros enviaram R$ 1,76 bilhão para paraísos fiscais. Cursini realizou 417 ordens de transferência em dois anos e meio de atividade.

Segundo o Ministério Público Federal, "a conta Goldrate no Merchants Bank facilitou a ocultação dos valores, dificultando a arrecadação tributária, a persecução criminal, o arresto de tais valores e o reconhecimento das pessoas físicas e jurídicas que, fugindo do controle das autoridades brasileiras e, em detrimento das reservas cambiais nacionais, utilizaram-se dos serviços dos doleiros para cambiarem moeda, evadirem divisas e manterem recursos no exterior criminosamente". Para a Procuradoria, Cursini adotou "esquemas típicos de lavagem de dinheiro".

A PF constatou que a Goldrate Corporation "não era uma empresa real, com sede física e atividades comerciais reais".

Cursini não retornou contato do Estado. Seu advogado, Antônio Figueiredo Bastos, também não se manifestou.

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