''É fazer mais com ética. Valores não mudam''

Líder nas pesquisas de intenção de voto, tucano promete, se eleito, priorizar transporte de alta capacidade e zerar o imposto de produtos da cesta básica

Roberto Almeida, O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2010 | 00h00

A bordo de um jato Raytheon de sete lugares, modelo Hawker 400XP, o mais usado em sua campanha para visitar o interior paulista, o candidato ao governo de São Paulo pelo PSDB, Geraldo Alckmin, rumava de São Paulo até Pindamonhangaba (SP), sua cidade natal e berço político, para um dos últimos compromissos da campanha tucana no Estado. Durante o voo, na última quinta-feira, desfiou causos da disputa entre Jânio Quadros e Adhemar de Barros, que dominaram a política paulista nos anos 50. Em seguida, em entrevista ao Estado, o tucano, líder nas pesquisas de intenção de voto, disse que em um eventual governo trará "inovação". "Mas os valores não mudam. Os valores são permanentes", afirmou.

Em 2006, quando estava próximo do 2º turno na eleição presidencial, o sr. disse que pesquisa era coisa de momento e o que importava era a "curva". Nesse momento há uma aproximação entre o sr. e Aloizio Mercadante. Como vê esse cenário hoje?

Eu acho que há um quadro de estabilidade. Não vejo nenhuma diminuição da diferença. O povo é soberano. O que vale é o voto no dia da eleição. Estamos com humildade e confiança, trabalhando de manga arregaçada. Foi uma campanha bonita, empolgante, com PSDB unido por São Paulo e pelo Brasil.

O sr. participou de todos os debates, mas evitou confronto com Mercadante e fez ataques ao petista pela TV, que chamou de "reparos". Por que adotou essa estratégia?

Eu disse no último debate que participei que o PT, que quer através de um conselho limitar a atividade da imprensa, o livre pensamento e a liberdade de expressão, agora quer impor em debate a quem perguntar? Não. Debates são todos iguais. A gente pergunta para quem quer. E eu participei de todos os debates. Sempre que fui candidato nunca deixei de comparecer, estando em primeiro lugar e não estando. Debate não é para bate-boca. É para expor ideias, propostas, falar de projetos.

O que o sr. classifica como a essência de um eventual governo do PSDB nos próximos quatro anos?

Avançar com ética. São Paulo tem avançado governo a governo. Se verificar o governo do Estado quando Mário Covas assumiu, o Estado não pagou salário de funcionário em janeiro de 1995. O Banespa estava sob intervenção. As obras estavam todas paradas por falta de pagamento. Sem aumentar impostos, Covas saneou as finanças. Ele dizia que essa não é uma visão economicista, mas uma visão social. Eu avancei depois quando fui governador. Reduzi a carga tributária. Nós temos os menores impostos do Brasil. O próximo governador, e espero que eu chegue lá, vai ter quase R$ 10 bilhões de novos financiamentos para poder completar o Rodoanel, expandir mais rapidamente as linhas de metrô, a área social, a saúde e a educação.

Se eleito, o sr. pretende fazer um ajuste fiscal de imediato? Como?

O ajuste fiscal fino é uma obra interminável. Você sempre pode melhorar a eficiência do gasto público. Eu pretendo reduzir ainda mais a carga tributária. Temos espaço. Arroz, feijão e óleo, que na cesta básica é 7%, vai para zero. E desonerar investimento. Investiu em São Paulo, diferimento do ICMS. E também remédio, vamos estudar para reduzir a carga tributária.

O que difere o sr. de seu principal adversário, Aloizio Mercadante?

Eu aprendi com o meu pai, que lembrava Santo Antônio de Pádua: "Quando não puder falar bem, não diga nada." Nós temos muitas diferenças com o PT. Se pegarmos em nível nacional, nós fizemos o real, o PT votou contra. Fizemos o Fundef (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental), o PT votou contra. Fizemos a Lei de Responsabilidade Fiscal, o PT votou contra. Nós criamos o modelo novo de gestão, por meio das organizações sociais (OSs), da organização do terceiro setor como parceiro sem fim lucrativo, para ganhar em agilidade, e o PT entrou no Supremo Tribunal Federal com uma Adin (ação direta de inconstitucionalidade) contra as OSs. São visões diferentes. Agora, eu não tenho nada pessoal contra ninguém.

Boa parte da sua campanha foi discreta. O sr. não fez comícios. Por quê?

Comício não existe mais, a não ser em algumas cidades no interior. Comício, se você não levar pessoas... Hoje, comício é eletrônico. É rádio, TV e internet. E contato pessoal com as pessoas. Eu amasso barro e gosto disso, e acho que o povo também gosta.

O sr. pretende manter a progressão continuada nas escolas?

Nossos adversários prestam um grande desserviço à educação quando falam de aprovação automática, coisa que não existe. A progressão continuada foi criada no governo do PT pelo educador Paulo Freire. Das 65 cidades governadas pelo PT, 64 têm. As escolas particulares de ponta, todas no primeiro ciclo têm o modelo de progressão continuada. O aluno repete todo ano se ele falta. Agora, se ele não falta, a escola é para ensinar. Então que se faz? Apoia reforço escolar, ajuda, porque está provado na pedagogia que a repetência continuada, como querem alguns, não melhora. O aluno vai piorar, porque ele fica mais velho e isso leva ao abandono da escola. Essa é uma discussão eleitoreira. Os melhores sistemas de educação são de São Paulo, Minas e Distrito Federal, que têm progressão continuada. O caminho é valorizar o professor e ter o aluno mais tempo na escola.

O PCC preocupa o sr.?

Olha, claro que entendemos que é preciso avançar mais. Mas é preciso destacar o que foi feito em São Paulo. Nós tínhamos, há dez anos, 33 homicídios por 100 mil habitantes. Hoje nós temos 10 homicídios por 100 mil habitantes. O Estado de São Paulo, que era o 4.º brasileiro em número de homicídios, hoje é o 25.º. A cidade de São Paulo, que é a 4.ª maior cidade do mundo, era a 5.ª capital em número de homicídios. Hoje é a 26.ª, só atrás de Palmas, no Tocantins. O Brasil tem 25,8 homicídios por 100 mil habitantes. Eu vou me empenhar para reduzir fortemente, mostrando que é possível ter um Estado populoso, do tamanho de um país, com índices baixos.

E o crime organizado?

É enfrentar. Inteligência policial, tecnologia e isolamento de líderes de crime organizado. Para isso, São Paulo tem três penitenciárias de segurança máxima. Veja bem, nós fizemos uma coisa importante que foi não ter preso em cadeia, o que ajuda a polícia a ter desempenho melhor na questão da investigação. São Paulo (capital) tinha 8 mil presos em cadeia. Eu zerei. E hoje ainda existem quase 8 mil presos no interior, que eu pretendo zerar em quatro anos. São Paulo será o primeiro Estado sem ter nenhum preso em cadeia.

Como o sr. pretende lidar com as greves do funcionalismo? No governo atual houve greves da Justiça, dos professores, da polícia.

Total diálogo. Primeiro, enorme apreço pelo funcionalismo. Sou filho de funcionário público. Meu pai foi funcionário da Secretaria da Agricultura durante quase 40 anos como veterinário. Temos um corpo de funcionários excelente. Disse até que daremos reajustes superiores à inflação, estabelecendo ganhos reais.

A oposição reclama do engavetamento de 67 CPIs na Assembleia Legislativa. Como o sr. vê isso?

O Poder Legislativo é um outro poder. O governador não manda na Assembleia.

Mas defende a apuração?

Nenhum problema. Aliás, a maioria dessas CPIs nem se referia ao governo do Estado. Tinha CPI do Apito do futebol, CPI do Ibope, tinha CPI para todo gosto, mas é outro poder.

Com relação aos pedágios, o sr. diz que vai rever os contratos. Isso será feito imediatamente, caso eleito?

Disse três coisas. A primeira é que o modelo de concessão é muito bem-sucedido. Das 10 melhores autoestradas, as 10 são de São Paulo. Não existiria a Imigrantes, as marginais da Castelo Branco, o prolongamento da Bandeirantes. O modelo paulista é um modelo de grandes investimentos: concessão onerosa. Não foi dado de graça. Quem ganhou pagou um ônus para o governo. Segundo: vamos analisar casos específicos. Por exemplo Jaguariúna, Indaiatuba e Paulínia, em que você tem um trânsito local - da cidade, de um distrito ou de uma região - muito perto da praça de pedágio em que se paga tarifa inteira. Vamos fazer uma redução ou uma modificação do local. E a terceira: nós vamos analisar os 18 contratos de concessão. E analisar o equilíbrio econômico financeiro. Se tiver espaço na análise, pode ser a favor do governo ou contra. Se tiver espaço, em vez de exigir mais obras nós podemos reduzir a tarifa.

O PSDB está há 16 anos no governo do Estado e o sr. diz que pretende inovar em sua gestão. Como?

Os valores não mudam. Valores são permanentes. Mário Covas dizia: é possível aliar política e ética, política e honra, política e mudança. São os valores que nós defendemos na política. De outro lado, cada momento tem um programa diferente de mais avanços. Estamos em um momento diferente de São Paulo. Os maiores investimentos do governo vão ser metrô e trem. O governo hoje tem capacidade de contrair financiamentos. Toda prioridade à questão do transporte de alta capacidade, completar o Rodoanel - a asa leste e posteriormente a asa norte -, um grande programa de estradas vicinais no interior.

O sr. considera que deu a volta por cima depois das derrotas de 2006 e 2008?

Não. Eleição se ganha, eleição se perde. A gente aprende mais até quando perde do que quando ganha, porque quando ganha acha que fez tudo certo, né? Quando perde, reavalia.

O sr. se considera um homem de sorte?

Não, imagina...(risos). Tem de acordar cedo e trabalhar bastante.

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