PAULO LIEBERT/AE
PAULO LIEBERT/AE

''É preciso resgatar a autoridade moral do Senado''

Recordista de votos, ele diz que a imagem da Casa ficou comprometida com os atos secretos e os contratos duvidosos

Gabriel Manzano, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2010 | 00h00

Do alto de seus 11,2 milhões de votos, novo recorde do Congresso, e tendo na mesa uma pequena imagem de Santo Expedito, o santo das causas impossíveis, o recém-eleito senador Aloysio Nunes Ferreira Filho (PSDB) não esconde: seu primeiro ato no domingo à noite, ao saber da vitória, foi um telefonema ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Exibido em seu programa na TV - na contramão do que fizeram tantos outros candidatos tucanos -, FHC saiu-se melhor, na briga paulista pelo Senado, do que o presidente Lula, que se engajou pessoalmente por Netinho de Paula (PC do B). Líder nas pesquisas, Netinho acabou superado também por Marta Suplicy (PT) e, terceiro colocado, não levou nada.

"Eu era um desconhecido e tinha de mostrar o ex-presidente para explicar ao eleitor a qual família eu pertencia", justifica o novo campeão de votos do Senado, que superou em cerca de 700 mil votos os 10,2 milhões obtidos por Aloizio Mercadante (PT) em 2002.

Janeiro vai ser um divisor de águas. O ex-ministro, ex-secretário e ex-deputado deixa um trabalho de gabinete, sempre próximo de quem decide - faz isso desde o início do governo FHC - e entra num Senado marcado por escândalos, atos secretos, abusos em gastos. E define o grande desafio: "Precisamos resgatar a autoridade moral do Senado". Uma casa que "tem muito poder, que vem da Constituição, mas vem perdendo a autoridade, que vem do exemplo". Na qual terá de conviver com um enorme bloco oposicionista que soma 3/5 dos votos e pode passar emendas constitucionais. Mas isto não o assusta. "Quem dá o tom no Congresso é o presidente." Imaginando, é claro, que quem vai subir a rampa do Planalto é José Serra. Formando com Marta Suplicy a dupla de vencedores paulistas para o Senado, ele faz críticas à ex-prefeita, como gestora, mas já avisou: melhor trabalhar com ela do que com Netinho.

O sr. diria que, politicamente, "nasceu de novo" no domingo à noite?

O resultado me deu uma alegria imensa, não nego. Mas não foi uma surpresa total. As pesquisas já apontavam a minha ascensão, e ela ocorria no momento exato em que os eleitores se dedicam, de fato, a escolher o senador. A quantidade de votos indecisos era ainda muito alta. Do começo ao fim eu busquei aquele setor que vota no PSDB e que representa ao menos 30% do eleitorado paulista.

Mas por que isso não aparecia antes nas pesquisas?

Foi um erro dos institutos. Quem mais se aproximou foi a Datafolha, que mesmo assim subestimou o resultado final.

O fator Fernando Henrique, em sua campanha, foi decisivo?

Sem dúvida. Olha, o eleitor brasileiro não é bobo. Como já disseram antes, ele não atribui a abertura dos portos ao presidente Lula. Há uma clara convicção de que as coisas começaram a melhorar a partir do Plano Real.

Por que o PSDB, como partido, ou outros candidatos, não usaram FHC?

Não vejo assim. No caso do Serra: ele não precisava. Eu era desconhecido, mas o Serra é tão conhecido no País como o Lula. E lembro que ele jamais deixou sem respostas as críticas que fizeram ao governo FHC.

O sr. chega a um Senado enfraquecido, marcado por abusos, atos secretos e falta de prestígio. Como vai enfrentar essa nova etapa?

O Senado tem muito poder, que vem da Constituição, mas vem perdendo a autoridade, que vem do exemplo. Precisamos resgatar a autoridade moral perdida pela Casa. Ela ficou comprometida com os atos secretos, com a proibição de José Sarney de que a Procuradoria da República tenha acesso a esses atos. Ela também se marca pelo excesso de funcionalismo, pela rotina de fazer contratos de serviços duvidosos.

O próximo Congresso vai ter um enorme bloco de 3/5, ou mais, de aliados do atual governo Lula. Se Dilma Rousseff vencer, é possível que tentem passar emendas constitucionais polêmicas. Se der Serra, terão força para trancar o andamento de projetos. Como vai ser?

Não acho que blocos funcionem tão automaticamente assim. Primeiro, quem dá o tom do Congresso é o presidente. E posso lhe adiantar: tenho uma longa experiência de articulação política, fiz isso durante o governo Fernando Henrique, na Casa Civil, fiz na Prefeitura e depois no Estado, com o Serra. Minha função era essa mesmo, conversar, convencer, ouvir, respeitar a opinião do outro. Nunca tivemos dificuldade para aprovar nosso projetos, mesmo os mais polêmicos.

Mas em São Paulo a realidade na Assembleia era outra.

Não, não era. Se o presidente tiver uma pauta legislativa clara, tudo se organiza. Fernando Henrique tinha, o Serra também teve. Quando você mobiliza a opinião pública por um projeto, quando respeita a oposição, fica mais fácil, você compõe a maioria.

Pode dar exemplos disso?

Na Câmara, como prefeito, Serra não tinha maioria e mesmo assim conseguimos fazer uma verdadeira reforma tributaria, conseguindo um grande aumento na arrecadação sem aumentar as alíquotas - e sem recorrer à cooptação, que nunca nos passou pela cabeça. É uma diferença de método de fazer política. Eleito, o Serra vai mostrar que o melhor caminho não é distribuir ameaças, tratar os adversários como inimigos a extirpar. Depois, como governador, Serra passou leis polêmicas, superando a confusão que tentavam criar. Na lei antifumo, mobilizaram, diziam que ia ter desemprego em bares e restaurantes, aceitamos mudanças da oposição, a lei passou e foi aceita pela população. Também a lei de mudanças climáticas, teve gritaria e passamos, com uma emenda do PV. Pode crer, a fama que tem o Serra de mau articulador, é injusta. Ele ouve, respeita, é um agregador.

O sr. está mergulhado na campanha de segundo turno, ao lado de Serra. O que está esperando?

Acho que dá, sim, para ganhar, e lhe dou pelo menos três bons motivos. O PSDB teve, no geral, um bom primeiro turno. Tem lideranças decisivas em São Paulo, Minas, Paraná e Santa Catarina, entre outros Estados. Mais quatro ou cinco outros que foram ao segundo turno com enormes chances. Eles vão arregaçar a manga pra ampliar vantagens e virar o jogo onde perdemos.

E os outros dois motivos?

O partido está motivado, eu senti a enorme adrenalina dos eleitos e dos militantes na reunião da quarta-feira em Brasília. Imagine, em 2006 o partido sequer fez reunião da Executiva no segundo turno, e agora já fizemos dois dias depois da eleição. E o terceiro, importantíssimo: tivemos por todo o Brasil muitos candidatos, até a governador, e prefeitos, que se sentiam travados. Tinham receio de assumir posição pró-Serra e pôr em risco sua própria candidatura. Isso agora passou, eles poderão mostrar a cara e batalhar pelo nome de Serra.

Não lhe parece excessiva, e inadequada, a forte campanha contra Dilma por causa de uma questão religiosa, no caso o aborto?

Nós não estimulamos essa guerra. O debate, em si, sobre o aborto, é uma questão interna de grupos religiosos, uma forma de avaliar seus candidatos preferidos. O que nós fazemos é apenas apontar o comportamento errático da candidata do PT nessa questão. É legítimo ela dizer se é contra ou a favor, o Serra também fez isso. Mas ele não fica mudando de lado a toda hora. Como ela fez, também, na história do programa do PT, onde ela mudou de posição três vezes.

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