Max Rossi/Reuters
Max Rossi/Reuters

‘Ele mudou o discurso da Igreja’

Sérgio Rubin é biógrafo do cardeal argentino e autor do único livro de diálogo com o religioso que, hoje, é o chefe da Igreja Católica

Jamil Chade, CIDADE DO VATICANO,

20 Julho 2013 | 16h14

Jorge Mario Bergoglio nunca fez campanha para nada em sua vida. A afirmação é de Sérgio Rubin, biógrafo do cardeal argentino e autor do único livro de diálogo com o religioso que, hoje, é o chefe da Igreja Católica. Rubin falou com o Estado sobre as origens do papa, seu pensamento social e sua convicção de que a economia deve servir ao homem, e não o contrário. Para ele, Francisco já está promovendo uma reforma profunda na Igreja. 

 

Quem é o papa Francisco?

É o que se vê. Nada mais. Um homem muito simples, muito humilde e austero. Ele é muito próximo das pessoas e com uma grande espiritualidade, mas também com grande preocupação social. Ele tem uma mente política e plenas condições de liderar. 

 

Em algum momento ele pensou que seria papa?

Acredito que ele foi se dando conta à medida que os debates antes do conclave iam caminhando. A cada vez que ele saía das reuniões, estava mais sério. Víamos que ele estava muito tenso. Chegou a dizer: “Isso está ficando perigoso”. Mas o que é certo é que nunca em sua vida ele fez campanha, nem para ser papa nem bispo nem cardeal. 

 

Sua formação parece permitir que ele entenda melhor os problemas sociais da América Latina do que um papa europeu. De onde ele tirou isso em sua vida, já que sua própria família não passava necessidades?

Sua família era de classe média e sua mãe nem queria que fosse religioso. Mas sua tarefa religiosa foi sempre de estar perto dos mais necessitados. Andou muito pelas favelas. Não é que tenha um conhecimento teórico dos pobres e da pobreza. Ele fala de forma sincera quando diz que quer uma Igreja pobre para os pobres. Ele é sincero quando critica a idolatria do dinheiro e a ditadura da economia. Teve uma vida sacerdotal muito intensa e em um período turbulento para a Argentina, com violência política. Tudo isso lhe deu muita riqueza. 

 

O que é verdade sobre seu papel na ditadura argentina?

Ele não foi cúmplice da ditadura. Falei amplamente disso com ele e foi a única vez que falou do assunto. Não só ele não foi cúmplice como na verdade ajudou muita gente. Hoje, olhando para trás, alguém sempre pode dizer que algo mais poderia ter feito à sociedade. Mas, naquela época, um sacerdote jovem o que mais poderia fazer? O certo é que ele avisou a dois sacerdotes que estavam numa favela que corriam perigo. Os dois optaram por não sair e acabaram sequestrados. Bergoglio fez gestões para que fossem liberados e isso acabou ocorrendo 6 meses depois. 

 

Por que o mal-estar hoje com o governo argentino?

Ele fez uma homilia muito forte em 2004, na presença de Néstor Kirchner num 25 de maio (dia nacional argentino). Ele disse que não se pode ter atitudes tirânicas e Kirchner assumiu como se fosse para ele e se ofendeu. Depois disso, nunca mais aceitou estar em um evento com o cardeal. O distanciamento foi cada vez maior. A Igreja nunca gostou do estilo de confronto dos Kirchners e que não abre espaço para o diálogo. 

 

Sua eleição é hoje um problema para o governo argentino?

Foi um golpe. Cristina Kirchner, quando soube de sua escolha, estava discursando. E apenas declarou que um “papa latino-americano” havia sido escolhido, sem dizer sequer que era argentino. 

 

O papa deixou claro no livro que não é comunista. Mas, ao mesmo tempo, vem atacando o capitalismo, chamando até de “selvagem”. Como ele vê a economia?

O que ele defende é uma economia com um rosto humano. O centro da economia deve ser o homem. Por ser latino-americano, ele tem uma maior sintonia com os países em desenvolvimento. 

 

Ele pode dar a guinada no rumo da Igreja ou a resistência é grande demais?

O que ele está fazendo é mudar o discurso para uma Igreja positiva e com uma mensagem propositiva. A religião ficou ligada ao castigo, à culpa, ao que não se pode. Ele mudou isso. Fala de um cristo que sempre perdoa, que nos ama. A religião é uma proposta para ser feliz. Uma outra mudança é na organização da Cúria, justamente para reduzir a luta pelo poder. Ele propõe uma maior austeridade, que se dê o exemplo. O que se pode dizer é que ele é um homem que tem condições intelectuais e de liderança para conduzir a Igreja. 

 

Qual é a meta central do papa com a viagem ao Brasil?

Revitalizar o evangelho será uma missão central. A queda dos católicos no Brasil é dramática. Outro ponto é o tema social. Ele defende a aproximação aos mais necessitados. Não é por acaso que, há poucos dias, a CNBB declarou que entende as queixas sociais das ruas. O papa Francisco estará em sintonia com o episcopado brasileiro. O papa também tem falado da corrupção e me parece que não iria se afastar desses temas agora. Ele quer o desenvolvimento integral do homem. 

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