Em gravação, secretário de Justiça diz que Dilma e Carvalho pediam dossiês

Diálogos revelados pela revista 'Veja' aconteceram durante encontro de Pedro Abramovay e seu antecessor no cargo, Romeu Tuma Jr.

, O Estado de S.Paulo

24 Outubro 2010 | 00h00

Conversas gravadas dentro do gabinete da Secretaria Nacional de Justiça, no início do ano, sugerem que partiram do Planalto determinações para que a própria secretaria produzisse dossiês "contra quem atravessava o caminho do governo".

Os diálogos foram revelados ontem pela revista Veja - e foram "gravados legalmente e periciados para afastar a hipótese de manipulação", segundo o texto. A principal dessas conversas aconteceu em janeiro, num encontro de cerca de 50 minutos entre o secretário Nacional de Justiça, Pedro Abramovay, e seu antecessor no cargo, Romeu Tuma Jr. "Não aguento mais receber pedidos de Dilma e do Gilberto Carvalho para fazer dossiês", desabafou Abramovay. "Eu quase fui preso como um dos aloprados."

Os dois discutiam, na ocasião, a saída do então ministro da Justiça, Tarso Genro - que deixava Brasília para se candidatar ao governo do Rio Grande do Sul - e avaliavam como seria a gestão do seu sucessor, Luiz Paulo Barreto. Prevendo que as pressões iriam aumentar, porque Barreto seria uma figura fraca para o posto, Abramovay confidenciou ao amigo que estava pensando em abandonar o cargo.

Na reportagem, Veja informa que a candidata Dilma Rousseff, o chefe de gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho, e Pedro Abramovay negaram tudo. "Nunca recebi pedido algum para fazer dossiês, nunca participei de nenhum suposto grupo de inteligência da candidata Dilma Rousseff e nunca tive de me esconder - ao contrário, desde 2003 sempre exerci funções públicas", disse Abramovay à revista.

No final da tarde de ontem, ele divulgou nota em que nega "peremptoriamente" ter recebido de qualquer autoridade do governo Lula, pedidos para confeccionar ou ajudar na montagem de dossiês. Em seguida, levantou dúvida sobre a origem e a legalidade das conversas gravadas.

A reportagem de Veja não explica de que modo ocorreram as gravações nem de que tratavam, ou contra quem se dirigiam, os dossiês solicitados. A revista pondera, ainda, que não há como saber se tais ordens foram levadas avante pelo Ministério da Justiça.

No entanto, o interlocutor de Pedro Abramovay, Romeu Tuma Jr., confirmou ter ouvido seu desabafo e disse que aquela não tinha sido a única vez em que o secretário da Justiça o fazia.

Missões. "O Pedro reclamou várias vezes que estava preocupado com as missões que recebia do Planalto. Ele realmente me disse que recebia pedidos da Dilma e do Gilberto para levantar coisas contra quem atravessava o caminho do governo", afirmou Tuma Jr. à revista.

O delegado, que deixou a secretaria em junho passado, foi além: "Há um jogo pesado de interesses escusos. Para atingir determinados alvos, lança-se mão, inclusive, de métodos ilegais de investigação. Ou você faz o que é pedido sem questionar, ou passa a ser perseguido. Foi o que aconteceu comigo."

Na conversa entre os dois, Abramovay mostrava-se assustado com as pressões. Disse estar arrependido de ter participado do episódio dos aloprados e pensava em deixar o governo. "Quase fui preso na época dos aloprados", admitiu. O caso - tentativa de comprar um dossiê que comprometesse as candidaturas de Geraldo Alckmin à Presidência e de José Serra ao governo paulista - ocorreu em setembro de 2006, às vésperas do primeiro turno presidencial.

Além dos temores quanto ao futuro, o secretário de Justiça fez comentários sobre o grande poder e a autonomia de movimentos do chefe da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa. Contou que não estava disposto a trabalhar em novas missões de forma oficiosa. "Os caras são irresponsáveis", comentou.

"Autônoma". Ainda ontem, o Ministério da Justiça divulgou nota em que esclarece que "a Polícia Federal é hierarquicamente subordinada ao Ministério, mas autônoma em relação às suas investigações". Por isso, "não interfere nos inquéritos ou conclusões da PF", cuja condução é tarefa dela própria, "sob critérios técnicos e republicanos". Diz ainda a nota que o ministério "jamais recebeu qualquer solicitação com relação aos rumos dos inquéritos da Polícia Federal, quaisquer que sejam."

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