Marcos de Paula/AE
Marcos de Paula/AE

Em meio a ataques na Líbia, Obama enaltece democracia brasileira

Descontraído, americano faz saudações em português em seu discurso no Theatro Municipal e destaca semelhanças entre Estados Unidos e Brasil

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

21 Março 2011 | 00h00

Ao cobrir o Brasil de elogios, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, usou o exemplo da consolidação democrática no País para, de forma indireta, estimular a abertura de regimes ditatoriais do Oriente Médio e do Norte da África - em especial, a Líbia e o Egito - e a orientação desses países para uma economia de mercado. Obama insistiu na "parceria" entre os dois países do continente e afirmou que o Brasil joga "importante papel nas instituições globais que protegem nossa segurança comum e promovem nossa prosperidade".

O local escolhido foi o palco do Theatro Municipal, no centro do Rio, substituto da Cinelândia, a primeira escolha para o discurso de Obama aos brasileiros. O público de homens engravatados e de mulheres de salto alto tomou o lugar antes orientado para populares do Rio.

"Nos esforços para promover a paz e a prosperidade pelo mundo, os EUA e o Brasil são parceiros não só porque nós compartilhamos uma história e um hemisfério, não só porque nós compartilhamos laços comerciais e culturais, mas porque nós compartilhamos duradouros valores e ideias", afirmou.

"Nós acreditamos no poder e na promessa da democracia. Acreditamos que nenhuma outra forma de governo é mais efetiva para promover crescimento e prosperidade para beneficiar todo ser humano. E aqueles que argumentam em contrário - que acreditam ser a democracia um obstáculo no caminho do progresso - terão de se ver com o exemplo do Brasil", disse, certamente em referência ao líbio Muamar Kadafi. "O Brasil é um país que mostra que uma ditadura pode se tornar uma florescente democracia", sentenciou.

À brasileira. Obama subiu ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro sob forte aplauso da plateia de cerca de 2.000 pessoas. Apresentou-se vestido de terno escuro, sem gravata, e iniciou o seu discurso com sonoras palavras em português. "Alô, Rio de Janeiro! Alô, Cidade Maravilhosa! Boa tarde, todo o povo brasileiro", começou, valendo-se de seu natural carisma e dos teleprompters invisíveis à maior parte da plateia, que lhe permitiram ler o discurso.

Ao final de tantas considerações positivas ao Brasil, por ele tratado como um país com "soluções a cada dia", Obama tentou atingir seu outro forte objetivo: cativar os brasileiros e seus governantes para parcerias e negócios em áreas nas quais, supostamente, haverá benefícios para os dois lados.

O americano enumerou a necessidade de os dois países investirem em educação e inovação como meio de garantir a competitividade de suas economias. Insistiu na parceria em setores de energia limpa e de infraestrutura, nas quais prevê geração de empregos nos EUA e menor dependência de fontes instáveis de combustíveis. Chegou mesmo a tocar nas eternas travas ao comércio bilateral.

"Nós precisamos de infraestruturas de nível internacional. Por isso, as companhias americanas querem ajudar vocês a construir e preparar a cidade para que a Olimpíada seja um sucesso", afirmou. "Eu estou aqui para contar a vocês que o povo americano não reconhece apenas o sucesso do Brasil. Nós torcemos por isso", afirmou.

Obama enfatizou que apesar de não haver coincidências entre os dois países em tudo, os Estados Unidos mantêm a disposição de não tratar o Brasil como um "parceiro júnior", mas sim em iguais condições e com base no respeito mútuo.

Repertório. Repleto de menções históricas comuns aos EUA e ao Brasil e de referências culturais brasileiras - como a estrofe mais conhecida de Jorge Benjor e frases do escritor Paulo Coelho - Obama tentou convencer a plateia sobre a naturalidade dessa parceria. Porém, em nenhum momento chamou o Brasil de "parceiro estratégico" - um grau mais elevado de compromisso.

Obama mencionou a paixão de sua mãe pelo filme "Orfeu Negro" (leia texto nesta página). Chegou a detalhar o fato de sua primeira exibição ter sido no mesmo Theatro Municipal.

Dilma. Entre menções da viagem de Dom Pedro 2º aos EUA, em 1876, e aos combates conjuntos das forças dos EUA e do Brasil na 2ª Guerra, Obama enfatizou a luta contra a ditadura no Brasil. Citou a Cinelândia, de onde partiu a "caminhada dos 100 mil contra a ditadura militar", em junho de 1968, como o "lugar do chamado por mudança".

Por fim, destacou o passado da presidente Dilma Rousseff na resistência à ditadura, como meio de destacar a relevância da agenda internacional em favor dos direitos humanos. "Ela sabe o que é viver sem os mais básicos direitos humanos pelos quais muitos lutam ainda hoje. Sabe o que é perseverar. Ela sabe o que é vencer. Porque, hoje, essa mulher é a presidente da sua Nação, Dilma Rousseff."

Sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Obama fez uma citação indireta, ainda elogiando a "democracia florescente" que permitiu a "um menino pobre de Pernambuco ascender do chão de uma fábrica de cobre ao mais alto cargo do Brasil".

Barack Obama foi entusiasticamente aplaudido. Mas conseguiu mesmo a "interação com os brasileiros" ao mencionar a partida de futebol de ontem "do Vasco e Botafogo".

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